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Batalha do Tuiuti, um dos conflitos mais sangrentos da Guerra do Paraguai, completa 160 anos

Conflito da Tríplice Aliança contra tropas de Solano López no Paraguai deixou milhares de mortos e definiu os rumos do combate

Obra "Sampaio em Tuiuti", pintada pelo coronel Estigarríbia em 2010. Pintura de óleo sobre tela hoje localizada no 9º Batalhão de Infantaria Motorizado (9º BI Mtz), o Regimento Tuiuti, em Pelotas
Obra "Sampaio em Tuiuti", pintada pelo coronel Estigarríbia em 2010. Pintura de óleo sobre tela hoje localizada no 9º Batalhão de Infantaria Motorizado (9º BI Mtz), o Regimento Tuiuti, em Pelotas Foto : Reprodução / Fundação Cultural Exército Brasileiro / CP

É consenso que a Guerra do Paraguai, ou Guerra da Tríplice Aliança, foi o conflito mais sangrento da História da América do Sul, com um saldo trágico de cerca de 370 mil mortos, entre militares e civis. E nela, a Batalha do Tuiuti, uma das mais letais, também chamada de Batalha dos Patronos, ocorreu em 24 de maio de 1866, ou seja, há exatos 160 anos, nos pântanos ao redor do lago Tuiuti, no sudoeste do Paraguai, perto da fronteira com a Argentina e da confluência dos rios Paraná e Paraguai.

Neste ponto, 24,4 mil paraguaios em quatro divisões partiram em ataque contra 32 mil homens do Exército Aliado, sendo 21 mil brasileiros, 10 mil argentinos e 1,2 mil orientais (uruguaios), que, por sua vez, saíram vencedoras do conflito. Seis horas após o início dos confrontos, a chamada Batalha dos Patronos encerrou com a chamada Tríplice Aliança vencedora, porém o número de baixas foi igualmente devastador: é estimado pelo Exército Brasileiro cerca de seis mil paraguaios mortos, 370 prisioneiros, além de sete mil feridos.

Do lado Aliado, 3.913 mortos e feridos, sendo 3.011 brasileiros, 606 argentinos e 296 orientais. O texto da Ordem do Dia do Exército, neste ano, por ocasião de seus 378 anos, celebrados no último dia 19, registrou que esta foi “uma das mais gloriosas páginas” da História da Força Armada.

“O acirrado confronto evidenciou o heroísmo e a liderança do Brigadeiro Sampaio, do Marechal Osório e do Marechal Mallet, posteriormente instituídos Patronos das Armas de Infantaria, Cavalaria e Artilharia, respectivamente”, diz o texto. “A vitória em Tuiuti negou ao inimigo a retomada da iniciativa e abriu caminho para a ofensiva aliada, já sob a condução estratégica do Duque de Caxias, Patrono do Exército”.

Monumento ao General Osório na Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre | Foto: Camila Cunha

O conflito ocorreu no terceiro ano da Guerra do Paraguai, iniciada em 1864 e finalizada em 1870, após o ditador paraguaio Francisco Solano López aprisionar, em 1864, o navio brasileiro Marquês de Olinda no porto de Assunção e ordenar a invasão das províncias de Mato Grosso, Corrientes e Rio Grande do Sul. Em retaliação, uma coalizão entre Brasil, Argentina e Uruguai foi formada no ano seguinte, e a partir daí, as escaramuças cresceram, culminando em ações e combates.

Segundo um estudo dos tenentes coronéis de cavalaria Vilmar Carlott Júnior, do Exército Brasileiro, e Carlos María Fraquelli, do Exército Argentino, previamente a Tuiuti, Solano López queria derrotar os aliados em uma batalha decisiva, e tinha, a seu favor, o bom treinamento de suas tropas e o relativo conhecimento do difícil terreno pantanoso que cercava o acampamento que levava o nome do lago.

Batalha de estratégias

Contando com isto, desenvolveu a estratégia de se adiantar a uma possível ofensiva aliada, colocando seu efetivo, além de deixar outros 14 mil na fortaleza de Humaitá e com a possibilidade de serem apoiados por cem canhões, obuses e foguetes, montando para isto quatro agrupamentos. Às 11h55min daquele 24 de maio, o general Vicente Barrios dispara um foguete.

Em seguida, houve o avanço de outro agrupamento, do general José Eduvigis Díaz. Conforme o Exército Brasileiro, o General Mitre comandava os argentinos e era ao mesmo tempo o General em Chefe dos Exércitos Aliados; o General Venâncio Flores dirigia os orientais (uruguaios) e tinha às suas ordens algumas forças destacadas do Exército Brasileiro e do Argentino.

Contra os brasileiros e orientais, o ditador López lançou 18 mil homens, em três Divisões, comandadas pelo General Barrios, Coronel Díaz e Tenente-Coronel Marcó; contra os argentinos, a Divisão do General Resquín, composta de 6.300 homens. Já as Divisões Brasileiras de Infantaria eram comandadas pelos Generais Argolo, Sampaio, Guilherme de Sousa e Vitorino Monteiro.

As duas Divisões de Cavalaria, pelo General Mena Barreto (José Luís) e pelo coronel Tristão Pinto; a Brigada Ligeira de Voluntários de Cavalaria, pelo General Antônio de Sousa Neto. Mallet mandou abrir um largo e profundo fosso, próximo dali, o que frustrou o avanço maior de algumas das baterias paraguaias. “Por aqui eles não passam”, teria dito Mallet, segundo registrou o historiador militar e jornalista Claudio Moreira Bento.

Litografia "Salida de la armada Brasilera de Tuyuti, de Julio Pelvilain", retratando aspectos da Batalha do Tuiuti | Foto: Acervo Fundação Biblioteca Nacional / CP

"Morticínio dos dois lados”

Logo depois, um contra-ataque do Brigadeiro Sampaio “transforma-se num morticínio dos dois lados”, escreveu Bento, o que fez, ainda segundo o historiador, o inimigo recuar para a mata. Sampaio se feriu na batalha após cinco horas de combate. Enquanto isso, Osório reforça as brigadas, com o reforço dos orientais, detendo o ataque dos paraguaios. Outra divisão aliada fechou novas brechas, assim como mais um ataque foi rechaçado pela brigada do general Antônio de Souza Netto, até atingir a trincheira paraguaia.

O saldo foi vencedor para os aliados, com a tomada de quatro canhões, duas bandeiras e um estandarte pelos brasileiros; uma bandeira pelos orientais e três estandartes pelos argentinos. Os orientais perderam a bandeira de um dos seus batalhões; e os argentinos, dois estandartes de cavalaria. Porém, alguns dos principais generais faleceram mais tarde; Sampaio, cuja divisão recebeu a maior parte do esforço inimigo, foi ferido mortalmente e faleceu em viagem para Buenos Aires.

Já o General Neto, que também defendeu o flanco da tropa brasileiro, foi ferido a bala e transferido para um hospital em Corrientes, na Argentina, onde faleceu e foi inicialmente sepultado, antes de seu corpo ser exumado e transferido para um mausoléu em Bagé, na Campanha. Na arte, a Batalha do Tuiuti também foi registrada por obras diversas, como litografias de Julio Pelvilain a partir de pinturas do suíço Adolf Methfessel, e, mais recentemente, do coronel Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia.

A Batalha do Tuiuti em si possui tal importância histórica que alguns de seus principais nomes podem ser vistos ainda hoje em logradouros espalhados pelo Brasil, sendo três deles devidamente registrados no Centro Histórico de Porto Alegre: a estátua homenageando Osório, na Praça da Alfândega; a não distante dali Praça Brigadeiro Sampaio, a rua 24 de Maio e a Travessa Tuyuty.

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