O governo do Rio Grande do Sul deve enviar esta semana um projeto à Assembleia Legislativa que prevê auxílio de R$ 450 para quem adotar animais resgatados após as enchentes históricas no Estado em maio. O texto indica investimento total de R$ 6,86 milhões na medida.
A iniciativa faz parte do Plano Rio Grande, que atua em três eixos de enfrentamento aos efeitos das enchentes: ações emergenciais, ações de reconstrução e Rio Grande do Sul do futuro. Atualmente, 15.259 animais de estimação estão abrigados em 353 locais em todo o RS. A maior concentração ocorre em Canoas (5.335 animais) e em Porto Alegre (4.223).
Se aprovado, o valor será pago em duas parcelas: uma logo após a adoção e outra após três meses, quando será realizado um acompanhamento para garantir o bem-estar do animal adotado. Além disso, todos os animais postos para adoção já estarão castrados e microchipados, por meio de uma parceria com hospitais universitários veterinários, Ministério Público do Rio Grande do Sul e o Grupo de Resposta a Animais em Desastres (Grad).
Em entrevista ao Correio do Povo, a presidente e idealizadora do Instituto Majuna de Proteção Animal, Raquel de Castro, avalia positivamente o projeto do governo. Na percepção dela, a medida é eficaz em incentivar a saída dos animais dos abrigos provisórios. “Acho que a ideia é inteligente e dá a oportunidade do animal receber afeto, adquirir apego e a família se acostumar com ele”, analisa.
Tutores e o abandono dos animais depois das enchentes
Raquel trabalha ativamente no acolhimento dos animais resgatados. Conforme a sua experiência, a maior parte dos pets em situação de vulnerabilidade depois das inundações não tinham um lar antes. E algo comum passada a catástrofe é o fato de os tutores não quererem mais os animais aos quais cuidavam. “Não dá para simplesmente só esperar que os tutores peguem os animais novamente”, enfatiza.
De acordo com o projeto de lei, o governo pagará R$ 450 por animal adotado, e cada pessoa poderá adotar até dois pets. O valor previsto, conforme o governo do RS, considera gastos básicos de cuidados com animais de estimação durante seis meses.
Sustento x auxílio
Para a presidente do Instituto Majuna, a iniciativa do governo não deve ser vista como responsável pela sustentação do animal, mas como um adicional que pode ajudar as famílias a adequarem os lares para receber os pets, por exemplo. “O dinheiro pode ser utilizado de diferentes formas. Uma delas é a aquisição de uma casinha para o animal ou a adequação da estrutura da própria residência do novo tutor. Muitas pessoas chegam até mim e falam que queriam adotar, mas não têm onde colocar o pet”, salienta.
Uma preocupação envolvendo o projeto tem sido a possível má utilização do benefício, pois as pessoas poderiam adotar os animais somente pelo interesse financeiro. Raquel explica que essa realmente é uma possibilidade, mas ela é atenuada, levando em consideração que o tutor receberá a outra parte do benefício depois de três meses somente se for comprovado se o pet está sendo cuidado adequadamente.
O número de animais nos abrigos por conta das enchentes é bastante expressivo. Na avaliação de Raquel, a pessoa que deseja ser tutora de um animal precisa estar ciente dos custos envolvendo o cuidado do animal, independentemente do benefício do governo. “Quem adotar de forma responsável, sabe que vai ter que botar coleira para prevenir leishmaniose, providenciar vermífugo, levar a consultas veterinárias pelo menos a cada seis meses. E uma ida ao consultório veterinário costuma custar R$ 100. A compaixão levará à adoção responsável”, aponta.