Cidades

Carros abandonados ameaçam saúde e segurança em Porto Alegre seis meses após enchente

EPTC informa que foram registrados 80 processos de abandono devido a enchente e 26 ainda não estão finalizados

Muitos carros abandonados devido a enchente estão sendo depredados
Muitos carros abandonados devido a enchente estão sendo depredados Foto : Pedro Piegas / CP Memória

Seis meses após a enchente de maio, as ruas de alguns bairros de Porto Alegre ainda abrigam carros abandonados e cobertos de lama, lembrando os impactos duradouros da tragédia. Esses veículos representam uma série de riscos à saúde pública, incluindo a proliferação de mosquitos da dengue, a atração de roedores e perigos para crianças curiosas.

Muitos proprietários, diante dos altos custos de reparo – que em alguns casos superam o valor de mercado dos veículos – não têm condições de arcar com o conserto e acabam deixando os carros nas vias. No entanto, o abandono de veículos sem condições de uso é ilegal, e a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), com base no Código de Trânsito Brasileiro, pode solicitar a remoção desses veículos para o depósito.

A infectologista do Hospital Humaniza do Grupo Hapvida NotreDame Intermédica, Mickaela Fischer afirma que os veículos abandonados trazem diversos riscos à saúde. “Além dos acidentes menores com crianças curiosas brincando, há o risco de proliferação de aranhas e roedores, com picadas por animais venenosos ou que tragam doenças como a leptospirose”, disse.

Carro na Miguel Teixeira, na Cidade Baixa | Foto: Pedro Piegas

A médica também considerou os riscos de acidentes com o material enferrujado dos carros, que pode levar a uma doença conhecida como tétano, “que pode ser potencialmente grave, especialmente em pessoas não vacinadas”.

Outro ponto considerado pela infectologista é a questão climática: “Com a presença constante da chuva e o calor do verão, os veículos abandonados viram fonte de água parada, aumentando muito o risco de dengue”, uma doença que, na população não vacinada, leva à desidratação e, se não tratada, pode também levar à hospitalização e óbito.

Além dos riscos à saúde, os carros abandonados podem causar riscos biológicos devido aos componentes como metal e plástico e os fluidos químicos, que podem contaminar o solo, água, animais e plantas. Como já publicado no Correio do Povo.

Na matéria de julho, a bióloga e professora Priscila Salgado Sanguinetti ressaltou que “o vazamento do combustível e a corrosão dos materiais que compõem os veículos podem contaminar os lençóis freáticos e envenenar a flora, atingido, a curto e longo prazo, plantas que vamos consumir”.

Carro abandonado no bairro Farrapos | Foto: Camila Cunha

Em outra matéria do Correio do Povo, publicada em agosto, a EPTC informou que estava realizando um levantamento de veículos abandonados, devido a enchente, por região. E que, como o órgão é responsável por fiscalizar e coibir o abandono de veículos sem condição de rodagem nas vias públicas de Porto Alegre, permanecia realizando vistorias e contatando os proprietários dos veículos abandonados.

Novamente procurada, a EPTC informou que o levantamento foi realizado e que ainda seguem recebendo denúncias por meio do canal de atendimento ao cidadão – 118 e 156 – de carros abandonados, muitos deles oriundos do evento climático.

Em nota, o órgão disse que o processo de recolhimento por parte da EPTC “ocorre quando os veículos estão em situação de abandono ou sucata e os proprietários dos mesmos não são encontrados”. No caso da enchente foram abertos, até a quarta-feira, cerca de 80 processos e 26 não haviam sido concluídos pois estavam aguardando os proprietários.

A EPTC também informou que ampliou os prazos em relação a esses veículos com o objetivo de não prejudicar o cidadão que teve outras perdas em função da enchente. Ainda de acordo com a empresa de transporte, “muitos dos locais vistoriados por parte dos agentes não apresentaram essas características (de abandono), pois os veículos estão estacionados próximos aos seus proprietários, fechados e sem danos aparentes ou com danos aparentes, mas por conta da circunstância que envolve todo o processo, poderão ser resolvidos pelos proprietários”.

De acordo com a EPTC, o proprietário possui dez dias, após assinar a notificação, para retirar o veículo. O aviso é enviado aos proprietários pelo correio, conforme registro no Detran. São realizadas três tentativas de contato e notificação por edital, se necessário. Após 10 dias da notificação por edital, o veículo fica apto ao recolhimento.

"No caso da enchente, estão sendo avaliados cada caso conforme os pontos em que surgem as denúncias e os danos sofridos na enchente. E o prazo em vigor segue o decreto de calamidade 22.647, de 2 de maio de 2024”. Sobre o recolhimento de veículos, realizados pela Coordenação de Vistorias, entre maio a outubro, a EPTC informa que “não tem relação com o evento climático. Ao todo foram recolhidos para o depósito do Detran oito veículos atendendo ao artigo 181 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) por estacionamento proibido”.

De acordo com o Sindicato das Seguradoras do RS (Sindsergrs), desde o início de maio, as seguradoras no Rio Grande do Sul contabilizaram um total de 57.946 avisos de sinistro. O número de pedidos de indenizações por seguros relacionados à enchente no estado aumentou quase 8% entre 31 de junho e 20 de setembro. Os pedidos de indenização para seguro automóvel somam 18.086 solicitações, mais de R$ 1,2 bilhão. Ficando abaixo apenas dos seguros residencial e habitacional, que registraram 29.783.

Carro na Ilha da Pintada | Foto: Pedro Piegas

Fernanda Farias, moradora da Ilha da Pintada há mais de 40 anos, relata que, logo após o auge da enchente, “era possível ver mais de 300 carros abandonados pelas ruas das três ilhas”. Segundo ela, ainda restam mais de 60 veículos abandonados na região devido aos danos causados pela inundação. Fernanda também destaca que, além da água, as lanchas e jet skis usados nas operações de resgate danificaram muitos dos veículos que estavam estacionados nas ruas durante a enchente. “Muita gente abandonou porque não tem mais o que fazer; outros levaram para suas garagens, esperando reunir recursos para o conserto”, disse.

David Alves, outro morador afetado, teve seu Corsa Maxx submerso pelas águas de maio e precisou contar com a ajuda de amigos para retirar o carro de frente de casa e levá-lo para reparos. No entanto, o carro de seu vizinho ainda permanece na rua, pois o proprietário não tem como arcar com o conserto. Alves ainda tem vivo na memória as lembranças da enchente, que descreve como um “cenário de guerra”. Ele lembra os momentos de terror em que a força das águas e dos ventos provocados pelos helicópteros de resgate chegaram a virar veículos de ponta-cabeça.

Veja Também