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Cidade de data centers: megaprojeto avança sem estudo de impacto em Eldorado do Sul

Empreendimentos tecnológicos como esse tendem a demandar quantidade significativa de energia e água para funcionar

Complexo será instalado às margens da BR-290
Complexo será instalado às margens da BR-290 Foto : Fabiano do Amaral

O município de Eldorado do Sul, que viu bairros inteiros sendo devastados pela força das águas na enchente histórica de 2024, agora se prepara para receber um projeto bilionário, considerado o maior empreendimento de infraestrutura digital da América Latina.

Com um investimento inicial de R$ 3 bilhões, a empresa Scala Data Centers pretende transformar uma extensa área do município em uma “cidade de data centers”. O projeto terá capacidade elétrica de 4,75 GW, o que é superior ao consumo de todo o estado do Rio de Janeiro.

O governo do RS e a administração de Eldorado Sul apostaram que a iniciativa promoverá a economia e posicionará o Estado como um polo estratégico para atração de investimentos no setor de tecnologia.

“É um projeto grandioso que coloca o Estado no mapa mundial dos principais locais que têm grandes infraestruturas digitais. O Scala faz a construção para receber operações de empresas como Amazon, Google e Microsoft. E isso traz reflexos na economia, além de gerar muitos empregos”, afirma o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Ernani Polo.

Por outro lado, a ausência de um marco regulatório específico para o funcionamento de data centers — tanto no Estado quanto no país —, além das incertezas sobre os impactos ambientais desse tipo de empreendimento, geram dúvidas sobre a transparência e a segurança do projeto.

A Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), vinculada a Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), é órgão responsável pela emissão do licenciamento ambiental de empreendimentos de data centers de grande porte no RS.

Questionada pela reportagem, a Fundação informou que os estudos de impacto ambiental de um projeto só são realizados após o pedido de licença por parte da empresa, o que ainda não ocorreu no caso da estrutura de Eldorado do Sul.

“Após o protocolo do projeto, o empreendimento em questão deverá passar pelos ritos de análise ambiental previstos. Todas as questões quanto à ocupação da área, presença de vegetação, consumos de água e energia, geração de resíduos e demais aspectos e impactos serão avaliados quando houver processo de licenciamento.” explicou em nota.

Por sua vez, a Scala disse que o projeto ainda se encontra em fase inicial de planejamento, que envolve estudos técnicos e a contratação de empresas especializadas para a concepção, e que, somente após essa etapa, será submetido à análise dos órgãos públicos competentes. Não foram divulgados prazos para que isso ocorra.

Em maio deste ano, o Conselho Estadual do Meio Ambiente aprovou a Resolução nº 527/2025 que definiu um novo ramo de atividade específico para o licenciamento de Data Centers no RS. O documento esclarece a divisão de competências entre estado e municípios conforme a potência da estrutura.

Alta capacidade de consumo

Centros de processamento de dados como esses tendem a utilizar quantidades específicas de energia e água para funcionar. Batizada de Scala AI City, a estrutura de Eldorado do Sul terá capacidade elétrica de 4,75 GW. Isso significa que o projeto conta com uma infraestrutura capaz de suportar, fornecer e consumir até 4,75 bilhões de watts de potência elétrica simultaneamente.

De acordo com Iporã Brito Possantti, hidrólogo, engenheiro ambiental e pesquisador em Gestão e Planejamento de Recursos Hídricos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), embora seja papel do Estado fomentar um ambiente favorável a novos empreendimentos, os custos e os riscos associados a esses projetos não podem ser transferidos para a sociedade.

"O ideal é não existir externalidade. Esse é um termo importante na área ambiental e diz respeito a um empreendimento que às vezes surge e cria problemas no seu entorno que acabam sendo custeados por pessoas que não estão envolvidas."

As dúvidas sobre o empreendimento foram tema de uma reportagem da Repórter Brasil, publicada em maio, em que a organização mostrou que a dimensão do projeto é superior à quarta maior hidrelétrica do Brasil, a usina de Jirau. Construído no Rio Madeira, em Rondônia, o sistema tem capacidade de 3,7 GW e fornece energia elétrica para 40 milhões de pessoas.

O Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) é uma das entidades que acompanha os desdobramentos com preocupação. De acordo com a coordenadora do programa de Consumo Sustentável do Idec, Julia Catão Dias, o processo tem ocorrido sem a participação de representantes da sociedade civil e de órgãos responsáveis por agendas socioambientais e climáticas.

“Nos preocupamos tanto que as pessoas tenham informações sobre o que consomem quanto que os modelos produtivos não reproduzam desigualdades. No caso dos data centers, vemos que os principais impactos não estão no centro da política. Não tivemos acesso a nenhum estudo que mostre, por exemplo, que o Brasil dá conta de receber essas estruturas.” explica a coordenadora do Idec.

O instituto afirma que seguirá acompanhando as discussões com o objetivo de garantir que outros atores possam participar da formulação das políticas públicas sobre o assunto.

Local escolhido

O centro será instalado em uma área de 700 hectares, às margens da BR 290 (veja no mapa), atualmente ocupada por plantações de eucaliptos. A região não foi atingida pela enchente, por estar localizada em um terreno mais elevado.

A escolha por Eldorado do Sul se deu, segundo a empresa, pela “abundante oferta de energia elétrica e à capacidade imobiliária que permite uma expansão contínua por décadas”.

Uma grande subestação usada para escoar energia também passa pela cidade.

Embora ainda não haja sinalização oficial, as obras de preparação já ocorreram, com a retirada da vegetação e a limpeza do terreno. A expectativa é que o complexo comece as operações em até dois anos.

No local, eucaliptos são retirados para receber as obras | Foto: Fabiano do Amaral

Em dezembro de 2024, a prefeitura sancionou a Lei Municipal 5.949/2024 que amplia o perímetro urbano para incluir a área destinada à construção da nova infraestrutura digital. O texto cita que a implantação será “de forma simplificada, autodeclaratória, que será regulamentada via decreto.”

A reportagem contatou a assessoria de comunicação da gestão atual para uma entrevista sobre os processos de instalação do complexo, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem.

A Scala Data Centers também foi questionada sobre quais serão os métodos de operação do novo projeto em Eldorado do Sul e se há algum tipo de risco ao meio ambiente.

Por meio de nota, a empresa afirmou apenas que “a Scala cumpre rigorosamente todos os requisitos legais em todos os seus empreendimentos, em conformidade com as legislações municipais, estaduais e federais aplicáveis.”

A expectativa é que a primeira etapa da operação inicie em até dois anos | Foto: Leandro Maciel / Arte / CP

O que são data centers?

Os data centers são instalações físicas responsáveis ​​por armazenar e processar grandes volumes de dados digitais. As infraestruturas sustentam o funcionamento de sites e aplicativos, transações bancárias, redes sociais e serviços em nuvem, por exemplo. Esses centros abrigam computadores de alta capacidade interligados por redes.

Energia, água e outros impactos da operação

Projetos desse porte são conhecidos pela alta demanda de energia para operar, além do consumo de água para o resfriamento dos equipamentos. A instalação de grandes centros de processamento de dados também pode trazer riscos pela urbanização acelerada de regiões da cidade.

Para o engenheiro ambiental Iporã, é possível desenvolver soluções e técnicas de mitigação para esses problemas potenciais, mas é fundamental que sejam baseadas em dados concretos e transparentes.

"É preciso demonstrar, técnico, que não se trata apenas de um panfleto sustentável que não condiz com a realidade. Agora é o momento de evitar que isso fique só na propaganda. Mostre, na ponta do lápis, na matemática, nas planilhas, que, de fato, o consumo será atendido por um método ecológico e limpo", afirma Iporã.

Em Caucaia, no Ceará, a construção de um data center que servirá ao TikTok levanta preocupações sobre o agravamento da seca recorrente no município e a falta de consulta às comunidades locais. Uma reportagem do Intercept Brasil mostrou que não há transparência sobre o consumo de água do data center que será instalado na cidade. Após solicitar essas informações técnicas analisadas por órgãos envolvidos no licenciamento, o governo se negou a enviar sob a justificativa de segredo industrial.

Abaixo, veja quais os possíveis impactos da operação no RS.

  • Uso de energia

O data center terá capacidade de quase 5 GW, superior ao consumo de todo o estado do Rio de Janeiro, e sete vezes maior que a atual estrutura de armazenamento e processamento de dados do Rio Grande do Sul.

Segundo Iporã, o ideal seria que a empresa apresentasse uma estratégia de autonomia energética, com fontes limpas como eólica e solar. “Se não fizerem isso localmente, deveriam contribuir com o sistema brasileiro de produção de energia para ter uma espécie de neutralização”, afirma.

Em manifestações durante encontros com o governo do Estado, o Scala afirma que o projeto funcionará com energia sustentável, mas, até o momento, não detalhou como isso será viabilizado na prática: de onde virá essa energia, quais fontes serão utilizadas e se a alta demanda poderá afetar outros tipos de consumo.

No dia 13 de maio, o Ministério de Minas e Energia publicou uma portaria confirmando a existência de energia suficiente para a primeira etapa do projeto. O texto também define estruturas a serem construídas pela empresa.

No entanto, para poder utilizar energia do Sistema Interligado Nacional, a empresa ainda depende de autorizações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

  • Consumo de água

A operação também pode exigir o uso de água para o resfriamento dos equipamentos. O secretário de Desenvolvimento Econômico do RS afirma que o projeto prevê um sistema de reutilização de água. Ainda assim, não foram compartilhados detalhes sobre a técnica.

Iporã explica que esses sistemas costumam utilizar ares-condicionados industriais e, mesmo que façam o reaproveitamento de água, será preciso captá-la de alguma forma.

Num contexto de escassez hídrica e de mudanças climáticas, Iporã alerta para a necessidade de avaliar os diferentes cenários pelo que o Estado passa ao longo do ano.

“Em enchentes, por exemplo, há excesso de água, mas depois podemos ter estimativas e não ter mais água disponível”, diz.

  • Ilhas de calor e impermeabilização do solo

A construção de grandes estruturas físicas, como será a sede do empreendimento, aumenta a impermeabilização do solo, formando ilhas de calor e dificultando o escoamento das águas da chuva.

Diferente de uma área verde, como trabalho ou floresta, grandes instalações utilizam concreto, asfalto e telhados, criando uma barreira no contato com o solo. Conforme o engenheiro ambiental, isso pode gerar processos erosivos, remoção de margens de rios e levar poluentes diretamente para os cursos d'água, sem filtro.

Para minimizar os impactos, o projeto deveria prever estratégias como bacias de retenção.

Expectativa por regulamentação

O avanço do projeto ainda depende da elaboração de um marco legal sobre o tema, que está em processo no Brasil. O secretário de Desenvolvimento do Estado defende a necessidade de criar uma regulamentação para a inteligência artificial no país, afirmando que a diretriz é recente e que não existe legislação específica que garanta a segurança jurídica às partes envolvidas.

"O assunto já está em tramitação no âmbito federal, pois é essa a esfera que deve estabelecer a regulamentação. Estamos acompanhando o andamento do processo junto com o governador Eduardo Leite, inclusive participando de reuniões em Brasília para contribuir com essa construção e avanço na formulação de negócios baseados em inteligência artificial", afirmou o secretário.

Na esfera federal, os esforços também estão voltados à atração de infraestruturas de tecnologia. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que deve apresentar em breve a Nova Política de Data Centers, nomeada de “Redata”, que inclui incentivos fiscais para instalação de projetos deste ramo no Brasil.

Em maio, o ministro da Fazenda Fernando Haddad, durante viagem aos Estados Unidos, apresentou a proposta a investidores de empresas globais de tecnologia, como Amazon e Nvidia, mas a falta de transparência sobre o conteúdo foi questionada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

O órgão solicitou ao Ministério da Fazenda e ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) o acesso ao conteúdo da minuta, porém, o pedido foi negado sob a justificativa de que “trata-se de ato preparatório, cujo acesso ao público é permitido somente após a edição do respectivo ato ou decisão”.

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