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Com Rio Gravataí em situação de alerta, moradores temem falta de abastecimento

Bancos de areia e lixo ficam visíveis diante da crise hídrica do manancial

Nível baixo preocupa moradores que tem a falta de abastecimento
Nível baixo preocupa moradores que tem a falta de abastecimento Foto : Fabiano do Amaral

Há poucos dias de serem completados nove meses da maior enchente já registrada em Gravataí, o baixo nível do Rio Gravataí preocupa moradores diante da possibilidade de prejuízo ao abastecimento de água. Em pontos como o Balneário Passo das Canoas, no Distrito Industrial da cidade, o solo já está seco, mesmo após um dia de chuva. Os bacos às margens, demonstram o nível de alerta, que também é indicado pelo Departamento de Recursos Hídricos e Saneamento (DRHS) do governo do Estado.

Nesta terça-feira, embora esteja liberada a captação de água, o Boletim de Estiagem do Rio Gravataí aponta que o nível do manancial está 1,30m em Alvorada e 0,66m em Gravataí. O nível de alerta entra em vigor quando o nível das réguas fica menor que 1,60m em Alvorada e que 0,80m em Gravataí.

Em razão do nível de alerta, a captação de água no Rio Gravataí para irrigação de lavouras e uso industrial opera em formato de rodízio: um dia de suspensão e dois de uso permitido. Nesta terça (28) e na quarta (29), estará liberada, mas volta a ser suspensa na quinta-feira (30).

A suspensão de todas as captações distintas de abastecimento à população ocorre quando o nível fica abaixo de 1,30m em Alvorada e 0,50m em Gravataí. Assim, o índice do início de semana deixa o rio quase em condição crítica.

Conforme a Prefeitura de Gravataí, em nível de alerta a população deve evitar desperdício de água. A situação se mantém na cidade desde o dia 19 de janeiro. Na cidade, os 0,66m na estação de captação representam apenas 16 centímetros acima do patamar crítico, quando todas as captações passam a ser permitidas somente para consumo humano.

Desde dezembro de 2022, está em vigor um decreto municipal que estabelece regras para o uso da água. Entre as situações que são consideradas infrações, estão manter instalações com vazamentos, fazer uso de mangueira e lava jato, entre outros similares para lavar veículos, calçadas, paredes, pisos, janelas e telhados de prédios públicos ou privados, comerciais ou particulares. Em caso de descumprimento das medidas, a multa pode chegar a R$ 535.

O prefeito Luiz Zaffalon, explica que o decreto restringe, dentro da área urbana, a utilização equivocada da água e afirma que fiscalização já está ocorrendo no município. “Primeiro, advertimos as pessoas que adotam essas práticas. Em caso de reincidência, pode haver penalidades", ressalta.

De acordo com o secretário de Meio Ambiente, Denner Gelinger, tradicionalmente a cidade passa por um período anual de estresse hídrico, entre 15 de novembro e 30 de março. “Nestes meses, é fundamental que a população reforce os cuidados e o controle para evitar o desperdício de água”, complementa.

Moradores temem falta d’água

Os problemas causados pela escassez de chuvas com maior volume, que solucionem a crise hídrica, assustam quem ainda se recupera da enchente no Balneário Passo das Canoas. Para a aposentada Margarete Barcellos, de 77 anos, a situação é considerada impressionante. “Na enchente chegou um metro de água dentro da minha casa. Eu criei todos os meus filhos aqui e nunca tinha acontecido isso. Agora, com este alerta, a gente já teme ficar sem água”, comenta.

Para o morador Breno Duarte, de 71 anos, o problema demonstra que a natureza está “desordenada”. Ele conta que a parte ainda com barro reflete o nível alcançado pelo Gravataí há poucos dias e que, agora, já não possui mais água. “O nível oscila bastante. Como ele está assoreado, com qualquer chuva ele enche e, depois, volta a baixar. Se ele permanecer assim, ainda está dentro do que a gente vê todos os anos, mas a preocupação é se baixar mais”, explica.

O mesmo receio tem o pescador Nelson dos Santos Moura, de 72 anos. “É uma pena que esse rio está assim, mas não chove o suficiente (para encher). Desse jeito, acho que faltará água em seguida. Está cada vez mais complicado”, afirma.

Conforme a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), a empresa tem um plano amplo de resiliência hídrica, que envolve medidas já executadas e em execução, visando combater impactos ao sistema de abastecimento causados por fatores climáticos como períodos de estiagem e também de enchentes.

A companhia explica que, nos últimos meses, foram realizadas as perfurações de 19 poços artesianos, com o objetivo de reduzir a dependência de captações superficiais dos rios que sofrem mais com a variação climática e a interligação de sistemas.

Em nota, a Corsan informou, ainda, que “neste momento as equipes acompanham a situação dos mananciais em várias regiões do Estado e não há risco de desabastecimentos nas cidades da região metropolitana”.

Rio dos Sinos

Outra região que convive com o receio da falta d’água, o Vale do Sinos apresenta situação semelhante com o baixo nível do Rio dos Sinos. Nesta terça-feira, a condição é de atenção, com nível de 1,50m em São Leopoldo, 1,39m em Campo Bom e 2,61m Novo Hamburgo.

Com isto, a situação permanece inalterada na segunda-feira e, após serem proibidas durante o último sábado, as captações de água para irrigação estão permitidas desde domingo. Na região, a irrigação é suspensa na situação de alerta, quando nível de São Leopoldo é igual ou menor que 0,50m, ou Campo Bom é menor ou igual a 1,20m.

De acordo com a presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos (Comitesinos), Viviane Feijó Machado, há anos existe um acordo com as operadoras de saneamento e produtores rurais, que é reeditado para a safra e o período de verão. O atual está vigente desde setembro do ano passado e, no último final de semana, atingiu os limites, quando a régua de captação em Campo Bom chegou a 1,19m.

A bacia do Rio dos Sinos compreende 30 municípios gaúchos. Conforme a Corsan, assim como nos município atendidos na bacia do Gravataí, equipes da companhia estão acompanhando a situação do manancial e, até o momento, não há registro de prejuízo à captação de água.

Os boletins diários da situação dos dois rios podem ser acompanhados no site da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMARGS) com atualização sempre às 16h.