Meses após a histórica enchente que devastou diversos bairros de Porto Alegre no ano passado, ruas e avenidas tradicionalmente comerciais ainda enfrentam um cenário de dificuldades. Avenidas como a Azenha, a Farrapos, a Cristóvão Colombo e a Ceará, que antes eram pontos movimentados de comércio e serviços, hoje estão repletas de imóveis fechados, com placas de “aluga-se” ou “vende-se”.
A crise gerada pelo desastre natural, somada às dificuldades econômicas, deixou um rastro de lojas vazias com poucos comerciantes remanescentes. Em alguns, até mesmo a sensação de insegurança passou a fazer parte da rotina da população.
Na avenida Azenha, o comerciante Igor Melo, de 25 anos, relata que muitos estabelecimentos já estavam fechados antes mesmo da enchente. “Estou aqui desde o ano passado e as lojas vizinhas já estavam vazias há mais de um ano”, afirma.
A loja e assistência técnica que Melo é proprietário é um dos poucos estabelecimentos abertos no local. Nem mesmo a grande movimentação do bairro tem sido atrativa para comerciantes. “O movimento na minha loja é bom, mas mesmo assim não vejo procura por locação (nas imediações). O comércio está parado”, conclui.
A situação é semelhante na avenida Farrapos, onde Felipe Moraes Machado, empresário do setor de peças industriais, observa um cenário preocupante. “Depois da enchente, vi muitos negócios fecharem, principalmente restaurantes e pequenos comércios. Foram os que mais sofreram”, relata.
Segundo Machado, mesmo aqueles que decidiram buscar o recomeço de seus negócios buscaram alternativas para não serem novamente atingidos, em caso de uma nova enchente. “Quem não fechou, se mudou para regiões mais altas, que não foram afetadas”, conta.
Além do impacto econômico, ele destaca que o esvaziamento da área também passou a causar outras preocupações para moradores e empresários. “O lixo acumulado aumento e sabemos de muitos furtos. Até os catadores sumiram, porque o movimento está zero”, conclui.
Na avenida Ceará, região conhecida pelas revendas e concessionárias de veículos, o gerente de uma loja de baterias, Rudi Grevineel, também aponta que vários estabelecimentos fecharam ou se mudaram. “Aqui em frente, três negócios encerraram as atividades. Uma concessionária fechou, mas o local parece ter sido alugado recentemente. Um restaurante entregou o prédio, uma farmácia fechou e depois veio outra para se instalar no lugar também”, realata.
Na percepção de Grevineel, também foram as pequenas empresas as mais prejudicadas pela enchente. “Os menores comércios quase todos saíram pelo temor de outra enchente. Só ficaram empresas que tinham alguma reserva financeira”, diz.
Grevineel lembra que sua própria loja sofreu prejuízos. “Perdemos toda a frota de veículos. Felizmente, tínhamos seguro, mas os estoques e móveis foram destruídos. Agora estamos engrenando de novo. Maio foi um mês sem faturamento, então o prejuízo é em dobro. Por isso, foi muito difícil para muitos negócios continuarem”, acrescenta.
Já na Cristóvão Colombo, a atendente de uma lancheria, Erica Knevitz, de 42 anos, destaca que a crise começou antes mesmo da enchente. “Muita gente foi embora, outros tentam vender os imóveis. Alguns prédios já estavam abandonados desde a pandemia. A enchente só piorou a situação”, comenta.
BAIRROS E AVENIDAS DE PORTO ALEGRE COM COMÉRCIO FECHADO
Mercado imobiliário tenta se reerguer
Apesar do alto número de imóveis vazios, o presidente do Sindicato da Habitação do Rio Grande do Sul (Secovi-RS), Moacyr Schukster, afirma que o mercado imobiliário segue movimentado. Segundo ele, a paralisação nas vendas ocorreu apenas no período imediato à enchente, mas os negócios voltaram a ser fechados desde então.
“No mês da enchente, as vendas caíram pela metade, mas hoje o mercado está estável. Quem pode alugar ou comprar um imóvel segue buscando seu teto, seja na Cidade Baixa ou no Moinhos de Vento. O mercado não para”, diz Schukster. Ele destaca que, embora tenha ocorrido um aumento de 20% no valor dos aluguéis nos últimos 12 meses, a procura por imóveis continua.
O presidente do Secovi-RS ressalta que a enchente impactou mais fortemente bairros como o Sarandi, onde a locação praticamente parou. No entanto, ele acredita que o setor imobiliário vai continuar atraindo investimentos. “As pessoas sempre vão precisar de um lugar para morar e trabalhar. O mercado pode ter oscilações, mas é seguro para aplicações”, conclui.