A Vila Nova Brasília, na zona Norte de Porto Alegre, é um ambiente quase desabitado. Mais de dois meses após o dique na localidade ter se rompido em dois pontos, lixo e escombros formam rastros de um dilúvio que varreu do mapa centenas de moradias no bairro Sarandi. A água recuou e os trechos onde houve ruptura foram preenchidos por areia, mas ainda restam crateras abertas na vida de quem perdeu tudo e não tem para onde ir.
Na manhã desta terça-feira, uma comitiva do Executivo Municipal vistoriava as condições da região. Acompanhado de equipes da Secretaria de Habitação e Regularização Fundiária e do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), o prefeito Sebastião Melo pediu prioridade do governo federal para realocar os moradores da Vila Nova Brasília a locais seguros.
Não há casas para todos os atingidos na enchente neste momento. Por isso creio que as primeiras pessoas que o governo federal deveria acolher são as que moram em áreas de risco. Sendo assim, precisamos começar pela população que habita o entorno dos diques”, afirmou o prefeito de Porto Alegre.
De acordo com o diretor-geral do Dmae, o engenheiro Maurício Loss, o dique no Sarandi foi construído com uma cota de inundação equivocada, sendo que essa condição foi fragilizada por quase 60 anos de deteriorações. Através de um levantamento, a autarquia pretende determinar o material utilizado na construção da estrutura e também qual será a melhor forma para corrigir as imprecisões.
"Estamos fazendo uma vistoria do local e, depois, realizaremos o levantamento topográfico. Isso porque o dique no bairro Sarandi foi construído no anos 1960, já com uma cota de inundação inadequada, fato que foi agravado por intervenção humana ao longo de todos esses anos. As pessoas escavaram a área para adequar moradias e isso fragilizou ainda mais a situação. Apenas um estudo vai apontar como poderemos corrigir isso e qual o material utilizado para construir o dique. Depois disso, saberemos se é melhor utilizar argila, concreto ou outra tecnologia para a correção da altura [do dique] em uma cota de inundação segura”, disse Maurício Loss.
A dona de casa Deise Souza da Silva tem 34 anos, mas reside na Vila Nova Brasília há 20. Após um mês abrigados em um alojamento da prefeitura, ela, o marido e as duas filhas, de 14 e 9 anos, foram alguns dos poucos moradores que retornaram para o local. Entretanto, os traumas que carrega desde a enchente não a fazem aceitar sem ressalvas a proposta da gestão municipal para sair da região.
"Perdemos tudo o que tínhamos e, toda a vez que chove, começo a chorar compulsivamente. Apesar disso, não vou abandonar minha residência antes da prefeitura oferecer uma proposta concreta. Sou pobre e preciso criar minhas filhas, não tenho dinheiro para pagar aluguel nem para comprar outro imóvel. Só vamos sair daqui se houver a certeza que teremos outra casa própria”, enfatizou a moradora.
A recicladora Elisângela da Silva Corrêa, de 44 anos, também não tem para onde ir e decidiu ficar na Vila Nova Brasília com os dois filhos, de 19 e 16 anos. Ela estima que, das 300 famílias que moravam na localidade, não mais do que cinco retornaram após o dilúvio.
“Não sei como vamos reconstruir nossa vida do zero. Tudo o que tínhamos conquistado com tanto suor, foi perdido na água. Restou apenas esse lugar vazio e sujo. Que Deus tenha misericórdia de nós”, disse ela, aos prantos.
Nesta manhã, a catadora de sucatas arrastava com dificuldade o carrinho para recolher materiais. Isso porque a maior parte do chão na Vila Nova Brasília não é asfaltado, ou seja, a enchente tornou o solo um acúmulo de lodo e lama. Também chama atenção a vasta quantidade de lixo que está espalhado por todos os cantos da área.
Depois que a maior parte dos moradores foi embora, restaram animais abandonados. São cães, gatos, cachorros, porcos, galinhas e patos que vagam perdidos por becos e vielas em busca de alimentos. O grunhido deles é o som que tomou conta da atmosfera de um lugar inóspito, poluído e onde os graus de precariedade e abandono desafiam padrões civilizatórios.