Com a trégua do mau tempo, equipes da Defesa Civil e da Prefeitura de Cristal iniciaram a contagem dos estragos causados pela forte enchente do Rio Camaquã e pelas tempestades de granizo e vento que atingiram a cidade durante a semana. Mais de 200 famílias foram retiradas de suas casas, e os danos se concentram, principalmente, nas áreas mais vulneráveis da cidade, como o bairro Formosa, onde o granizo danificou quase a totalidade das residências.
"A situação no bairro Formosa foi uma das piores. São casas de uma comunidade mais carente, com telhados finos, e 165 delas foram atingidas. Praticamente todas tiveram danos", relata a coordenadora da Defesa Civil municipal, Marivani Almeida.
Além disso, o município enfrenta novamente os efeitos da cheia do Rio Camaquã, que forçou a remoção de cerca de 120 pessoas do bairro Beira Rio, conhecido como "Baixada", a parte mais baixa da cidade.
A enchente chegou a 7,76 metros acima do leito, pouco abaixo da maior cheia da história, em maio deste ano, quando o rio atingiu 8,2 metros. "São sempre as mesmas famílias que vivem em áreas de risco e já sabem para onde ir. Dessa vez, a maioria foi para casas de familiares ou amigos, e nós oferecemos suporte com transporte", explica Marivani.
O abrigo municipal, montado para receber os desabrigados do Formosa, acolhe atualmente 17 pessoas, e a expectativa é que, com a melhora do tempo, elas possam retornar para suas casas neste fim de semana.
Apesar da trégua temporária, a Defesa Civil segue em alerta para a próxima semana, quando há previsão de mais chuvas que podem elevar novamente o nível do rio. "O Rio Camaquã estabilizou na madrugada e baixou cerca de 2 centímetros, mas a situação é incerta. Qualquer volume de chuva pode fazer o nível subir novamente, e estamos monitorando de perto", alerta a coordenadora.
Além da área urbana, o interior de Cristal também enfrenta grandes dificuldades. Uma ponte que dá acesso à comunidade da localidade Sapato foi destruída, deixando mais de 50 famílias isoladas. A força da correnteza dificultou até mesmo a travessia de barcos pela Marinha do Brasil, que precisou ser acionada para ajudar. "A comunidade Sapato está sem energia desde quinta-feira e ainda não conseguimos acessar a área. A agricultura foi severamente impactada e a Emater vai realizar um levantamento das perdas assim que a situação permitir", completa a secretária de Assistência Social, Lucieli dos Santos Gomes.
Segundo a Defesa Civil, Cristal acumulou 357 milímetros de chuva desde domingo, o que agravou ainda mais os problemas para os produtores rurais, que não puderam armazenar a produção de leite devido à falta de energia. Pavilhões de armazenamento também foram atingidos pelo granizoe a Prefeitura prevê que só no final de semana será possível começar a medir a real dimensão dos estragos no campo.
Entre os moradores afetados na área urbana, há um misto de sentimentos. O aposentado Ivan Rodrigues da Silva, 62 anos, conta que não precisou deixar sua casa desta vez, mas que o medo persiste. "Não chegamos a sair. Fiz a casa mais alta para não ter problema com enchentes. É ruim, em setembro foi mais forte. Cheguei a perder algumas coisas na parte de baixo, mas a vizinhança teve bastante perda. É uma luta, mas a gente vai indo", afirma.
Já João Melvi de Lima, de 70 anos, não teve a mesma sorte. Ele e sua esposa estão fora de casa desde segunda-feira, abrigados na residência de um amigo. Ao visitar sua casa alagada na tarde de sexta-feira, João constatou que muitas coisas foram perdidas. "Desde o ano passado, fomos atingidos três vezes. Não é nada fácil, mas as pessoas ajudam muito a gente e comida não falta. Os móveis estragaram tudo, não deu tempo de tirar nada e o que tinha sobrado agora estragou tudo de novo", lamentou.
Apesar da situação, ele já se prepara para mais uma batalha, uma vez que a previsão de chuva para segunda-feira ameaça agravar ainda mais os problemas. "Não vamos retornar agora. Talvez a gente entre para limpar e esperar para ver como será na semana que vem", finaliza Lima.