Além de prejuízos que comprometem o futuro do Rio Grande do Sul, a enchente de maio também causou danos na história e no passado do Estado. Arquivos públicos, históricos e unidades que salvaguardam documentos administrativos foram atingidos durante a catástrofe climática de maio em todo o RS. Segundo a professora do curso de Arquivologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Leolíbia Linden, tais prejuízos podem refletir na pesquisa acadêmica e em dificuldades para questões legais e administrativas.
“Alguns dos locais atingidos pela cheia mantinham arquivos do século 19, alguns até do século 18, como documentos administrativos que, por exemplo, tratam da distribuição de terras públicas e assentamentos. Esses documentos são essenciais quando é preciso fazer registro de propriedades. São documentos administrativos, mas também são históricos. Se tivéssemos uma organização melhor, ou um plano de prevenção, não teríamos tanto documento atingido pela lama”, lamentou.
Uma das unidades afetadas na Capital foi a Divisão de Arquivo da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (Ufcspa), localizada na avenida Ceará, São Geraldo. Conforme a coordenadora da divisão, a arquivista Graziella Cé, cerca de 60% dos documentos armazenados no local foram diretamente atingidos pela água. Entretanto, ela ressalta que nenhum ainda foi descartado e que todos os documentos ainda passarão pela etapa de recuperação para depois decidir o que será realizado.
Entre os arquivos que estavam armazenados no local, estão documentos de servidores e de alunos da graduação e da pós-graduação, materiais históricos e probatórios desde 1960. A equipe da Divisão de Arquivo atuou na retirada dos documentos que caíram das caixas pela ação da água e coordenou a limpeza do local, que foi finalizada após decisão administrativa de como isso seria realizada. Como próxima etapa, a Divisão de Arquivo está auxiliando no processo de na retirada dos demais documentos não atingidos pela cheia e trabalhando na verificação da umidade dos documentos. Eles serão transferidos para outro local, na sede da Ufcspa, no Centro Histórico.
Segundo Graziella, como nenhum documento atingido foi descartado até o momento e eles ainda passarão por recuperação, ainda não é possível mensurar o quanto a enchente causou prejuízos para a pesquisa e para a comunidade. Algumas solicitações a discente e servidores não puderam ser atendidas, mostrando já um impacto da enchente no acesso à informação. Ela aponta que alguns documentos sofrerão perdas consideráveis em suas informações originais. Além disso, uma pequena parte dos arquivos alagados já haviam passado por um processo de digitalização.
“Certamente alguns documentos vão ficar inelegíveis. Isso acontece com aqueles feitos a partir de impressora matricial ou com papel e tinta de menor qualidade. Mas na questão do acesso à pesquisa, ou mesmo do acesso ao documento para algum tipo de comprovação e informação, isso afeta de maneira geral a todos. Só ainda não chegamos na etapa para quantificar o que será perdido”, falou a arquivista.
Arquivo Nacional acompanhou unidades atingidas
Um dos principais órgãos que tratam sobre o tema no país, o Arquivo Nacional (AN), mandou uma equipe técnica no início de julho para acompanhar as ações de monitoramento e recuperação de algumas unidades atingidas pela chuva. Conforme o AN, 19 órgãos e entidades solicitaram suporte para resgatar os documentos atingidos pela enchente.
Além disso, uma nota técnica emitida pelo Arquivo Nacional salienta que a eliminação de documentos só deve ocorrer em casos excepcionais, quando os suportes dos itens estão irrecuperáveis e as informações contidas neles estão inacessíveis. Outra medida realizada no período foi a destinação do Governo Federal de cerca de R$ 14,7 milhões para auxiliar entidades e instituições na recuperação de arquivos.
“Esse recurso é essencial para garantirmos um suporte emergencial eficiente. A salvaguarda do patrimônio documental nacional é fundamental para uma infinidade de ações voltadas à promoção da cidadania, tanto em nível individual quanto para a gestão pública. O suporte técnico dado pelo AN agora chega a uma nova fase, com maior capacidade de mitigar os impactos das chuvas e assegurando ainda mais a reconstrução dos acervos’’, completou Ana Flávia Magalhães, diretora-geral do Arquivo Nacional.