Dermatologista alerta para aumento de doenças em abrigos e cuidados com águas contaminadas

Dermatologista alerta para aumento de doenças em abrigos e cuidados com águas contaminadas

Aglomerações têm favorecido a disseminação de piolho, ao mesmo passo em que o contato com ambientes contaminados demanda atenção, conforme a SBD-RS

Guilherme Sperafico

Quem teve contato com águas e áreas alagadas precisa ter uma série de cuidados

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Com as enchentes que afetam o Rio Grande do Sul, milhares de pessoas foram deslocadas para abrigos temporários, onde as aglomerações têm favorecido a disseminação de doenças. Entre elas, a pediculose, conhecida popularmente como infestação de piolhos, tem sido um dos principais problemas de saúde enfrentados nesses locais.

Os dermatologistas da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Secção Rio Grande do Sul (SBD-RS) estão trabalhando no atendimento às vítimas das enchentes e alertam para diversas situações que têm sido encontradas nos pacientes atendidos nestes locais.

A médica e secretária científica da diretoria da SBD-RS, Cintia Pessin, detalhou as ações da entidade desde o início das enchentes. “Estamos atuando com uma força-tarefa composta por mais de 200 dermatologistas voluntários. Além de fornecer atendimento dermatológico nos abrigos, também oferecemos suporte online e presencial para socorristas e voluntários”, destacou.

A demanda por atendimento dermatológico nos abrigos aumentou significativamente devido à proximidade entre as pessoas, condição que favorece a proliferação de piolhos e outras infestações como a escabiose (sarna). “Temos observado um aumento expressivo de casos de pediculose nos abrigos, e isso exige uma atenção especial”, afirmou.

Conforme a SBD-RS, é importante que se tenha um tratamento adequado para combater a pediculose e prevenir sua disseminação nos abrigos. O tratamento padrão envolve o uso de loção de permetrina 1% aplicada no couro cabeludo, seguida de uma lavagem minuciosa após algumas horas. O procedimento deve ser repetido após sete dias para garantir a eliminação completa dos piolhos e lêndeas.

Além do tratamento com permetrina, é essencial que as pessoas nos abrigos adotem medidas preventivas, como evitar o compartilhamento de escovas e pentes, e manter o cabelo preso sempre que possível. “A remoção mecânica das lêndeas com pente fino, utilizando uma mistura de água e vinagre, também pode ser realizada para evitar a reinfestação”, explicou a dermatologista.

Além da pediculose, a SBD-RS está lidando com outras condições dermatológicas nos abrigos, como a escabiose e infecções fúngicas, que também se proliferam em ambientes úmidos e com grande aglomeração de pessoas. “A umidade e as condições insalubres dos abrigos facilitam a disseminação de doenças de pele”, alertou Cintia.

Água contaminada representa risco

Além das infestações por piolhos e escabiose, há uma preocupação significativa com a exposição à água contaminada. As enchentes trouxeram águas repletas de esgoto, detritos e restos de animais mortos, elevando o risco de infecções.

Conforme Cintia, isto representa riscos. “A água das enchentes não é apenas água de rio, mas uma mistura altamente contaminada que inclui esgoto e outros detritos. Isso pode levar a infecções graves como leptospirose, hepatite A, e tétano”, destacou. “A leptospirose tem um índice de mortalidade de 30% e pode ser contraída através do contato com a urina de roedores presente na água”, acrescenta.

Para os socorristas e residentes que tiveram ou terão contato com as águas das enchentes, a recomendação é de que sejam adotadas medidas preventivas. “É vital minimizar o contato direto com a água contaminada e usar equipamentos de proteção, como botas de borracha e luvas. Além disso, após o contato com a água, é crucial tomar banho com água limpa e sabão o mais rápido possível”, aconselhou a médica.

A profilaxia também é recomendada para aqueles que foram expostos à água contaminada. “A profilaxia deve ser administrada até 72 horas após a exposição, mas quanto mais cedo, melhor. As medicações mais comuns são doxiciclina e azitromicina, e a dose varia dependendo de fatores como idade e condições de saúde", explicou Cintia.

Para os moradores que estão retornando às suas casas para limpeza após as enchentes, a SBD-RS também recomenda precauções adicionais. “É essencial usar luvas, botas de borracha e máscaras para evitar o contato direto com resíduos e água contaminada. A desinfecção das superfícies deve ser feita com água sanitária, e todos os itens que não puderem ser completamente desinfetados devem ser descartados", orientou.

Além disso, as pessoas devem estar atentas aos sinais de infecção, como febre, dor de cabeça, olhos avermelhados, e procurar atendimento médico imediatamente se apresentarem esses sintomas. “A vigilância e a rápida resposta são essenciais para evitar complicações graves”, concluiu.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895