Cidades

Destruição, sujeira e mau cheiro: começa a limpeza do espaço interno do Mercado Público

Concessionários conseguiram acessar o local pela primeira vez após a enchente

Além da destruição do mobiliário e equipamentos, concessionários encontraram instalações tomadas por uma pasta fétida
Além da destruição do mobiliário e equipamentos, concessionários encontraram instalações tomadas por uma pasta fétida Foto : Mauro Schaefer

Concessionários do Mercado Público tiveram nesta quarta-feira, 29, o primeiro acesso a seus estabelecimentos desde o recuo das águas do Guaíba. Além da destruição do mobiliário e equipamentos, encontraram suas instalações tomadas por uma pasta fétida, comparável, na intensidade e permanência, a de corpos em decomposição.

A reportagem do Correio do Povo obteve autorização da Associação dos Permissionários no Mercado Público para conversar com Ione de Paoli, 58 anos, proprietária da Agropecuária de Paoli. De máscara, com os olhos marejados e emocionada a ponto de ter dificuldade para responder às perguntas, Ione contabiliza em mais de R$ 500 mil o prejuízo provocado pela enchente.

"Foi todo mobiliário, rações, medicamentos, balanças, tudo", diz, apontando para a mistura pastosa, marrom clara, de cheiro insuportável, que os dois funcionários da empresa empurravam para a calçada, com a ajuda de rodo e pá.

Veja Também

A agropecuária pertence à família há mais de seis décadas. De acordo com Ione, mesmo com o Mercado tendo sofrido dois incêndios no período, este é o pior momento na trajetória. "Na época da pandemia, ainda tínhamos um dinheirinho guardado, mas agora não temos nada", afirma. A reportagem perguntou à empresária sobre o destino do negócio. "Não sei", disse, reticente.

Em outra fachada do Mercado, Marcelo Andrade da Silva, 52 anos, enfrentava com um colega a dura tarefa de retirar o descarte de carne de peixe, de ossos e sebo do que foi um frigorífico. O material é proveniente de todos os estabelecimentos do Mercado que trabalham com proteína animal.

Mais de duas centenas de caixas plásticas ficaram acumuladas no espaço desde o início de maio, cobertas pelas águas barrentas do Guaíba. "Não consegui nem almoçar hoje", diz o enojado trabalhador. "Cheiro de cadáver morto", diz um homem ao passar pelas proximidades, como se pretendesse enfatizar uma dupla condição da morte.

Para Silva, a perda é dobrada. Além da devastação do local de atividade profissional, teve a casa, na Ilha Grande dos Marinheiros, totalmente coberta pelo Guaíba. "Sabe o que me sobrou? Uma TV", afirma.