Em fase final, as obras do Quadrilátero Central de Porto Alegre suscitam expectativas e, até mesmo, dúvidas. Dois anos e meio após o início e com mais de R$ 24 milhões investidos – cerca de R$ 6 milhões acima do orçamento original –, é possível transitar por quase todos os trechos das vias que receberam ou ainda recebem intervenções; porém, é preciso atenção para evitar acidentes.
Saindo da Praça da Alfândega na direção da rua dos Andradas, a transição entre as tradicionais e históricas pedras portuguesas para as atuais e recém-instaladas placas de cimento não chamam atenção apenas pela mudança da paisagem. Onde deveria haver blocos de basalto, atualmente existem buracos. Armadilhas temporárias em função da substituição do pavimento, mas nem por isso menos perigosas.
“Tá um pouco difícil caminhar, é preciso cuidado para não tropeçar”, diz a aposentada Maria Antônia Vieira, 84 anos.
Embora mais nova que Maria Antônia, a também aposentada Giselda Corrêa, 63, confessa que já caiu na Andradas. “Tranquei o pé numa dessas pedras (placas de cimento), tinha desnível e fui ao chão. Da Alfândega até a Borges tem buracos, degraus e até mesmo pedras soltas, não dá para caminhar dez metros sem olhar para o chão”, afirma Giselda.
De fato, o trecho citado pela aposentada apresenta irregularidades. Há degraus entre os blocos, pontas de mangueiras que esperam fiação subterrânea e cavaletes do Dmae. Cones e até mesmo um bloco de cimento sinalizam obstáculos como a ponta de uma barra de ferro cravada no solo.
Situação parecida ocorre nas ruas Vigário José Inácio e General Vitorino. Na esquina das duas vias citadas, tubos de metal cortados rente ao solo ofertam perigo. Ali também faltam pedras do calçamento, aparentemente não instaladas ou até mesmo removidas e não repostas.
Na General Vitorino, tampas de concreto cederam, possivelmente por não terem aguentado o peso dos veículos que trafegam pelo local. Entre a execução dos serviços de revitalização e o conserto do que já estragou, o comerciante Ronaldo Jesus dos Reis, 57, espera que não seja necessário um novo adiamento da entrega das melhorias.
“Está meio complicado viver assim, esperamos que acabe logo.”
O que diz a prefeitura
O secretário de Obras e Infraestrutura de Porto Alegre, André Flores, lembra que, embora a maior parte dos isolamentos e sobras de materiais tenham sido removidos, a revitalização do Quadrilátero Central não está concluída.
“Não consideramos a obra entregue. Fizemos um esforço para que a mobilidade no Centro fosse melhorada,” indica.
Flores lembra ainda que na fase atual, quando são executados trabalhos pontuais e preparação para a instalação de iluminação e mobiliário urbano, ocorre a redução do número de trabalhadores.
“Temos uma diminuição de ritmo, e isso pode passar a sensação de que a obra parou, mas garanto que as equipes estão trabalhando”, reforçou.
Sobre os problemas apontados pela população, o secretário esclarece que as áreas entregues são vistoriadas e os defeitos encontrados são apontados à empresa responsável pela execução, para que realize as correções necessárias.
“Todos os trechos são revisados. Na Andradas, já solicitamos a troca de aproximadamente 80 placas de concreto. Tubos e outros buracos são, na maioria esperas para a instalação da iluminação pública, que deve ocorrer nos próximos dias. Já na Doutor Flores tivemos problemas pontuais com a rede de drenagem que forçaram a remoção do pavimento que já estava pronto, atrasando a conclusão”, citou Flores.
Referente ao trecho entre a Praça da Alfândega e o Calçadão da Andradas, a Secretaria de Obras e Infraestrutura (Smoi) afirma que o projeto de restauração aprovado junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), perdeu a validade em dezembro do ano passado, mas que a renovação está em andamento. Assim, o basalto avariado será removido, dando lugar também a placas de concreto, nos moldes do que foi instalado na Esquina Democrática. O município projeta executar o serviço ainda no primeiro trimestre de 2025.
As obras
O chamado Quadrilátero Central da Capital compreende as ruas Doutor Flores, Uruguai, General Vitorino e Voluntários da Pátria. Inclui ainda trechos da rua dos Andradas e da avenida Borges de Medeiros. As obras começaram em 5 de junho de 2022 e tinham entrega prevista para 2023.
A previsão atual de entrega é no fim do primeiro semestre deste ano. Entre as justificativas da Smoi estão as dificuldades ocasionadas pelas enchentes que atingiram o centro histórico. Também houve reajuste no valor investido. Inicialmente, o custo seria de cerca de R$ 16 milhões, sendo atualizado para R$ 24 milhões.
Voluntários da Pátria, General Vitorino, Marechal Floriano e Otávio Rocha: finalizados passeios e leito da via, conforme projeto. Necessário adequar os acabamentos considerados insatisfatórios nos passeios.
Vigário José Inácio e Doutor Flores: finalizados passeio e leito, com pintura e balizadores de sinalização viária. Há necessidade de correções no pavimento e troca de tampa avariada. Na Doutor Flores ocorreu quebra da rede de drenagem por conta das enchentes do ano passado, forçando a retirada do pavimento para recuperação e hidrojateamento.
Calçadão da Andradas, Borges e Uruguai: instalação das placas de concreto pré-moldado concluída. Em fase de instalação e adequação de iluminação pública e mobiliário urbano (bancos, lixeiras e floreiras) e substituição de acabamentos considerados insatisfatórios.
Andradas (trecho viário): passeio em concreto pré-moldado, com novas lixeiras; o leito viário, pronto, ganhou base em concreto armado e teve o pavimento em paralelepípedo original reconstituído.
Trecho Borges de Medeiros, Andradas e Uruguai: instalação de iluminação e mobiliário. A Borges ganhará canteiros com grama e piso tátil para auxílio de pessoas com deficiência visual.