O encerramento das atividades da MB Operadora, empresa com atuação no Rio Grande do Sul e comandada por uma dirigente que até recentemente ocupava cargo de destaque em uma das principais entidades do setor no Estado, provocou uma reação em cadeia entre agências de viagens, que agora lidam com prejuízos elevados, incertezas financeiras e o desafio de manter compromissos já firmados com clientes.
Conforme apurado, a MB Operadora era comandada pela empresária Fabiana Angeli, que até o início deste ano atuava como presidente da União Gaúcha dos Operadores e Representantes de Turismo (Ugart). Segundo relatos, a ligação da empresa com a direção da entidade ajudava a sustentar a credibilidade da operadora no mercado, sendo um dos fatores considerados por agências na hora de firmar parcerias comerciais.
Relatos obtidos pelo Correio do Povo apontam que os impactos vão além das perdas imediatas. Para alguns profissionais, a situação coloca em risco anos de trabalho. “Vários proprietários estão desesperados. Tem alguns afirmando que, se não conseguirem cobrir esse valor, terão que fechar a empresa. Não é só o prejuízo financeiro, é perder uma carreira inteira”, disse uma proprietária de agência, que preferiu não se identificar.
A empresária afirma que tinha clientes com viagens já programadas e pagos à operadora. Diante da falta de confirmação dos serviços, decidiu assumir os custos, aproximadamente R$ 120 mil, para garantir o embarque dos passageiros. “Os meus clientes vão viajar porque eu assumi o prejuízo. É a prova de que, comprando comigo, eles têm segurança”, afirmou.
Segundo ela, essa postura tem sido adotada por parte do setor, enquanto outros agentes enfrentam dificuldades mais severas. “Tem gente com prejuízo de até R$ 600 mil, sem saber o que fazer. Os empresários estão buscando financiamentos junto ao governo. Eu não vejo isso como negativo ao setor, que está mobilizado para o cliente não sair no prejuízo”, lamenta.
Outra empresária ouvida pela reportagem relata ter registrado ocorrência após prejuízo estimado em cerca de R$ 180 mil. Ela afirma que repasses feitos à operadora não foram revertidos na prestação dos serviços contratados. “É um sentimento muito ruim. Já chorei muito. A gente fica com a sensação de ter sido enganada e de não saber como vai resolver”, disse.
A mesma agente participou de uma reunião com cerca de 100 profissionais do setor e afirma que, a partir dos relatos, a estimativa de prejuízos pode ser ainda maior. “Falam em R$ 10 milhões, mas pelo que ouvimos, pode passar dos R$ 20 milhões”, justifica.
Problemas iniciaram há meses
Os depoimentos indicam que os primeiros sinais de problemas teriam surgido ainda no ano passado, mas se intensificaram semanas antes da paralisação das atividades, com cancelamentos de viagens e dificuldades de comunicação. Em alguns casos, segundo as agências, clientes foram informados sobre a não realização de pacotes já próximos da data de embarque.
Somente na semana passada, a operadora de viagens comunicou aos agentes o encerramento das atividades. O site da empresa está fora do ar, mas uma página ainda está ativa nas redes sociais, incluindo publicações de aproximadamente uma semana atrás.
Documentos obtidos pela reportagem mostram que, em março, a operadora comunicou o cancelamento de um grupo internacional alegando não atingir o número mínimo de participantes e ofereceu alternativas como remarcação, crédito ou reembolso em até 60 dias. Agências, no entanto, contestaram o prazo e cobraram devolução imediata dos valores, diante da proximidade das viagens e dos compromissos assumidos com passageiros.
Para os profissionais, o episódio gera preocupação adicional pelo contexto em que ocorre. A operadora era comandada por uma dirigente com atuação recente em entidade representativa do setor no Estado, o que, segundo as agências, pesava na decisão de contratação.
“O que a gente avalia ao escolher um parceiro é tempo de mercado, confiança. E, para nós, também conta o fato de a pessoa estar à frente de uma entidade respeitada. Isso passa uma segurança”, afirmou a empresária.
Apesar do cenário, agentes destacam que a prioridade tem sido preservar os clientes e a credibilidade do setor. “O que menos queremos é causar pânico. As agências são sérias e vão honrar seus passageiros. Ninguém quer que o cliente final seja prejudicado”, disse outra profissional.
Diante do problema, também há mobilização dos empresários para registro de ocorrências policiai s, para que o caso passe a ser investigado pela Polícia Civil. Um grupo com agências afetadas foi formado pela Associação Brasileira de Agências de Viagens (ABAV), que acompanha o caso.
Procurada, a MB Operadora não havia respondido aos questionamentos encaminhados pelo Correio do Povo até o fechamento da matéria, assim como a ex-presidente e proprietária da empresa, Fabiani Angeli. O espaço permanece aberto para contraponto.
Entidade afirma que não tem atribuição de fiscalização
Em nota, a União Gaúcha das Operadoras e Representantes de Turismo do Rio Grande do Sul (Ugart) afirmou que não possui atribuição legal ou estatutária para fiscalizar as atividades comerciais das empresas associadas, nem poder de ingerência sobre a gestão financeira das operadoras.
A entidade informou ainda que, ao tomar conhecimento dos relatos envolvendo a MB Operadora, realizou contato com os gestores da empresa, o que resultou no desligamento da operadora do quadro associativo.
Segundo a Ugart, algumas empresas associadas vêm oferecendo apoio às agências afetadas, com medidas como prestação de serviços a preço de custo, na tentativa de reduzir os impactos e viabilizar a continuidade das viagens.
Por fim, a entidade declarou que segue à disposição dos órgãos competentes para prestar esclarecimentos e reiterou o compromisso com a transparência e o desenvolvimento do setor no Estado.
Confira a nota na íntegra:
“A União Gaúcha das Operadoras e Representantes de Turismo do Rio Grande do Sul (UGART) é uma entidade sem fins lucrativos com mais de 35 anos de trajetória. A associação trabalha de forma idônea reunindo empresas operadoras de turismo, promovendo o intercâmbio de experiências entre as 11 empresas associadas e fortalecendo o ecossistema do trade turístico do Estado.
Ressalta-se que a UGART não detém atribuição legal ou estatutária de fiscalização sobre as atividades comerciais de suas associadas, inexistindo, portanto, poder de ingerência na gestão empresarial destas. Compete exclusivamente a cada operadora a condução de sua administração financeira, o adimplemento das obrigações assumidas e a adequada prestação dos serviços contratados junto às agências de viagens e demais parceiros comerciais.
Tão logo tomou conhecimento de relatos envolvendo o alegado descumprimento de obrigações por parte da empresa MB Operadora perante clientes, agências, fornecedores e terceiros, a UGART promoveu contato imediato com seus gestores, circunstância que culminou no desligamento da referida empresa do quadro associativo.
Adicionalmente, informa-se que algumas das operadoras associadas, de forma voluntária e sem qualquer imposição institucional, vêm oferecendo apoio às agências de turismo eventualmente prejudicadas, inclusive mediante a prestação de serviços a preço de custo, com o objetivo de mitigar os impactos decorrentes da situação noticiada e assegurar a continuidade das atividades dessas empresas.
Por fim, a UGART reafirma seu compromisso com o desenvolvimento ético e transparente do mercado de turismo no Estado do Rio Grande do Sul, colocando-se à disposição dos órgãos competentes para prestar todos os esclarecimentos que se fizerem necessários acerca de suas atividades institucionais, em observância aos princípios que norteiam sua atuação ao longo de mais de três décadas.”
ABAV oferece suporte jurídico e avalia impactos
Em comunicado conjunto, a ABAV Nacional e a ABAV-RS informaram que estão apurando os fatos e levantando os danos causados pela MB Operadora para avaliar a extensão do impacto sobre os agentes de viagens e consumidores. A entidade mobilizou sua assessoria jurídica para oferecer suporte e orientação direta aos associados do Rio Grande do Sul afetados pelo encerramento das atividades da empresa.
Assim como a Ugart, a ABAV ressaltou que, como entidade representativa de classe, não possui atribuições de fiscalização, regulação ou auditoria sobre prestadores de serviços turísticos. A associação reiterou que seu papel é a defesa institucional da categoria e a interlocução junto a órgãos públicos, promovendo boas práticas no mercado. As entidades também manifestaram solidariedade aos profissionais e viajantes atingidos.
Confira a nota na íntegra:
“A ABAV-RS e a ABAV Nacional estão acompanhando os desdobramentos e apurando todos os fatos referentes à situação da MB Operadora, do Rio Grande do Sul, levantando os possíveis danos causados para avaliar o impacto aos agentes de viagens e, consequentemente, seus consumidores. Com responsabilidade e cautela, a ABAV Nacional está mobilizando os profissionais competentes e, diante deste cenário, oferecendo suporte jurídico através de sua assessoria jurídica para orientar corretamente os associados da ABAV do Rio grande do Sul e apoiá-los durante a resolução da situação.
As associações se solidarizam com todos os envolvidos, agentes de viagens associados, viajantes e outros agentes do turismo afetados pela situação e reforçam seu compromisso com o setor para promover um turismo cada vez mais responsável e sustentável. As entidades ressaltam ainda que, como entidades representativas de classe, não possuem atribuições de fiscalização, regulação ou auditoria sobre quaisquer prestadores de serviços turísticos e ou demais fornecedores do setor.
O papel do sistema ABAV é atuar na defesa institucional das agências de turismo, oferecendo interlocução junto aos órgãos públicos, suportando e orientando seus associados sobre as melhores práticas do mercado, além de apoio consultivo, sempre promovendo capacitação e o desenvolvimento do setor.
A ABAV- RS e a ABAV Nacional reiteram seu compromisso com a transparência, a ética e a valorização das agências de viagens. As associações seguirão acompanhando de perto o caso, mobilizadas para dar todo o apoio necessário.”