Sair de um país e reconstruir a vida em outro envolve desafios para acessar oportunidades, criar vínculos e construir um sentimento de pertencimento. Os desafios relacionados à integração dos migrantes no Brasil, além das políticas públicas de inclusão, trabalho, saúde mental e perspectivas de futuro estão sendo discutidos no Evento Intercultural Entre Terras: migração, vínculos e pertencimento, que ocorre nesta segunda-feira na PUCRS.
Promovido pela organização da sociedade civil Demà, o encontro reúne jovens migrantes, familiares, especialistas e representantes do poder público. Segundo o diretor da Demà, Eurico Meira, o principal objetivo do evento é discutir o acolhimento, pertencimento e integração de jovens que não são do Brasil. “Nosso objetivo é proporcionar que não só os jovens, que estão aqui participem de um debate que tem foco em acolhimento e integração, mas também que a gente possa passar uma mensagem para o público amplo sobre a importância dessa temática.”
No entanto, ele também tem um propósito maior, que envolve o projeto Partiu Futuro Reconstrução, programa realizado pelo Governo do Estado de capacitação teórica e atividades práticas, destinado a jovens entre 14 e 22 anos. Atualmente, o programa atende 2.785 jovens em 75 municípios gaúchos.
Uma vida nova
Um dos acolhidos pelo programa é Jesus Aaron Marrero, de 14 anos, que veio da Venezuela e mora no Brasil há 10. Hoje, mora em São Leopoldo e, por meio do projeto, conseguiu um trabalho como Jovem Aprendiz em uma escola do município. "É muito legal a experiência de poder trabalhar desde pequeno", destacou Jesus.
Ele saiu do seu território quando tinha apenas quatro anos. Pouco se lembra daquela época, mas destaca como foi o processo de aprender uma língua nova. "No começo, tive um pouco de dificuldade, mas depois fui me acostumando. Aprendi com os colegas, tive professores que falavam espanhol também, e isso foi me ajudando um pouco mais. Acredito que evolui assim pelo idioma."
Sua mãe, Emmilys Rojas, também destaca o acolhimento que recebeu no Brasil, e o desafio que foi vir, com seus filhos pequenos, para um lugar completamente desconhecido, além de ter sido atingida pela enchente. "Não é fácil sair de nosso país, sem saber aonde a gente vai. Só pegar uma mala e pronto, vamos embora. Todo imigrante tem uma história. Eu tenho a minha. Cheguei no Brasil com duas crianças pequenas, mas fui bem acolhida. Botei eles na escola, me virei para trabalhar e a vida foi", conta.
Sua principal motivação para sair da Venezuela foi a situação econômica. Hoje, ver seu filho trabalhando cedo e dignamente é um motivo de felicidade para Emmilys. "O projeto é uma benção na nossa vida. Você começa a trabalhar e ter responsabilidade, e não espera nada de ninguém. Aprenda a se virar e se esforçar. E isso é uma oportunidade que a gente tem que aproveitar como imigrante."
Os desafios da migração
"Precisamos nos afastar da ideia de que os migrantes são um peso pra sociedade nas quais eles vêm se instalar. Na verdade, os migrantes trazem muitos benefícios pra nossa sociedade", disse o diplomata e chefe do Escritório de Representação do Ministério das Relações Exteriores no Rio Grande do Sul (Eresul), Marcelo Baumbach. Um dos palestrantes do evento, ele destaca como os migrantes aumentam a produtividade da economia e melhoram o empreendedorismo.
O principal desafio, na sua visão, está na integração, na língua nos costumes e nos modos de viver. Ele lembra que o Brasil tem uma das legislações mais modernas que existem sobre migração, com a Lei n° 13.445, de 2017, e que consolida os princípios Constituição. "Nossa lei tem como pressupostos, em primeiro lugar, a igualdade do estrangeiro com o brasileiro; em segundo lugar, a acessibilidade aos programas sociais. E em terceiro lugar, não menos importante, o combate a todas as formas de racismo e de xenofobia", diz.
Uma das maiores mazelas dos imigrantes acaba sendo a solidão, destaca o professor do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Gabriel Binkowski. "A gente tem um mundo muito muito voltado pra uma certa ideia de conquista individual e de superação", comenta. Na sua análise, a configuração de sociedade com grandes diferenças entre as classes sociais trazem mais desafios para as tentativas de integração dos migrantes. Na sua análise, projetos que pensam a presença de cada um como coletivo auxiliam a produzir sentido à vida dos migrantes e a projetar um futuro. "É muito difícil imigrar sem um projeto migratório."
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Evento Intercultural Entre Terras: migração, vínculos e pertencimento, no prédio 15 da PUCRS