Há cerca de duas semanas, não são mais ouvidos os roncos característicos dos motores dos ônibus pelo entorno da Estação Rodoviária de Porto Alegre. Existe um silêncio quase absoluto no local, quebrado, pouco a pouco, pelos ruídos dos veículos que passam não distantes dali, no chamado corredor humanitário, embora sejam uma fração dos que circulavam até a ocasião da enchente. Porém o som maior é mesmo o do agito da água, que segue alta, embora em lenta trajetória de redução, tomando conta dos espaços onde circulavam pessoas, bagagens e coletivos. O acúmulo de lixo também impressiona.
A rodoviária da Capital, até então ponto de saída ou chegada de cerca de 15 mil pessoas por dia, segundo Giovanni Luigi, diretor da Veppo, administradora do espaço, está em compasso de espera. Hoje, a estação de contingência, com três boxes do Terminal Antônio de Carvalho, no bairro Agronomia, recebe em torno de 1,1 mil passageiros diários, uma queda superior a 90% em relação ao Centro. “No primeiro dia da operação (8 de maio), vendemos 80 passagens aqui”, disse Luigi. “Não sabemos o que vai acontecer com o passar do tempo, vai levar um período grande na recuperação das estradas, e cada dia será um dia”.
Como quase todos os modais de transporte, o auge da Rodoviária foi antes da pandemia, com seis milhões de passageiros ao ano, número que caiu dois terços, para aproximadamente dois milhões anuais, após a fase mais aguda da Covid-19. As inundações foram um novo baque no serviço, ainda que, diante da dificuldade, a solução temporária proposta tem sido uma alternativa. Questionado sobre os permissionários que mantinham negócios no local, como lotérica e lancherias, e eventualmente perderam tudo, Luigi disse que não tinha gerência para comentar sobre o assunto. “O prédio é do governo do estado, e, portanto, estas pessoas têm aluguel com o governo.”
Também segundo ele, a situação da Rodoviária na atual calamidade rendeu diversas histórias. “Houve um rapaz, morador da Sertório, dizendo que queria ir para Capão da Canoa de qualquer maneira, somente para sair de Porto Alegre. Havia estado com água pelo pescoço. Lá, ele disse que alugaria um quartinho. Não tinha parentes, nem nada. Fizemos uma vaquinha e ajudamos”, recorda o diretor. Ele prefere não estimar o volume de prejuízos financeiros com a enchente, e ressalta que, atualmente, saem do Antônio de Carvalho por volta de 35 ônibus diários que antes utilizavam a Estação Rodoviária.
Mesmo com toda a movimentação vista até então na estação da área central, Luigi destaca que a Rodoviária operava, antes da catástrofe, entre 240 viagens por dia a 350 nas sextas-feiras, em média, representando apenas 25% de sua capacidade instalada. E antes da pandemia, este índice “não chegava a 50%”. A compra e venda de passagens no Antônio de Carvalho segue regular, mas o diretor reforça a importância de os passageiros buscarem comprar bilhetes de maneira antecipada no site ou no aplicativo da Rodoviária.
“Não temos visto filas aqui, e é preciso ter atenção porque há menos horários pelas empresas. Se estou de manhã no terminal, por exemplo, e o próximo ônibus para meu destino for somente no final da tarde, não preciso ficar o dia todo esperando. Nos canais digitais é mais fácil e rápido”. Também, conforme ele, é recomendado consultar antes se há disponibilidade das linhas, em razão dos bloqueios em muitas estradas gaúchas. Em que pese ter sido atingida pelas enchentes, Luigi também defende que, em uma pesquisa recente, 92% dos consultados diziam que a localização da Estação Rodoviária era “ótima ou boa”. “Ela é central, é perto de tudo, dos hospitais, teatros, shoppings. As pessoas gostam deste local”.