Cidades

Estiagem preocupa família vivendo há quatro gerações às margens do rio Gravataí, em Cachoeirinha

Matriarca, que mora com filhos, neta e bisneto, afirma que “nunca houve uma seca pior do que a atual”, e diz que, no passado, era possível pescar e nadar no rio

Moradores da Vila Santo Ângelo, em Cachoeirinha, percebem a baixa do nível da água no Rio Gravataí | Vilma Maria Abreu Brum, de 67 anos, é vizinha do rio há 50 anos e sua neta, Samanta Gonçalves Brum, de 29 anos, por toda sua vida
Moradores da Vila Santo Ângelo, em Cachoeirinha, percebem a baixa do nível da água no Rio Gravataí | Vilma Maria Abreu Brum, de 67 anos, é vizinha do rio há 50 anos e sua neta, Samanta Gonçalves Brum, de 29 anos, por toda sua vida Foto : Camila Cunha

A redução no nível dos rios nas últimas semanas na Região Metropolitana e em Porto Alegre, reflexo da estiagem contínua, impacta diretamente na vida da população, mas mais ainda em quem convive há décadas com eles, e vê o atual cenário com preocupação. Na avenida Nossa Senhora da Boa Viagem, na Vila Santo Ângelo, uma das regiões com maior vulnerabilidade social do município de Cachoeirinha, quatro gerações de uma mesma família moram praticamente às margens do rio Gravataí, porém, segundo sua matriarca, Vilma Maria Abreu Brum, 67 anos, nunca houve uma seca pior do que a atual.

Ao lado da neta, a auxiliar de limpeza urbana Samanta Gonçalves Brum, ela relembra do período, há pelo menos mais de uma década, em que elas podiam nadar sem preocupações no local, próximo de diversos barrancos. “Algumas pessoas ainda pescam ali, só que agora não dá mais. A água está podre. Antes era azulzinha. Não dá para passar um café, fazer um almoço. As pessoas não têm culpa, são coisas da natureza, mas vou te contar, está feio”, conta Vilma. Ela e o falecido marido ajudaram a lotear o lugar há mais de 50 anos.

A área, no entanto, é de risco, e nas enchentes de maio de 2024, a água ultrapassou o teto dos térreos das casas. Por isso, alguns que já receberam o benefício da Compra Assistida se mudaram, e outros deverão fazê-lo em breve, de acordo com ela. Quanto ao rio Gravataí, “ao menos não tem sujeira”, prossegue Vilma, que é aposentada. “Isto aqui era uma área de lazer há muitos anos, era cheio de gente, agora está abandonado. Houve uma época em que vinha muito lixo de Glorinha e outras áreas, e ainda havia algas. Terminaram tirando tudo. Vim para cá com 14 anos, e a criançada tomava banho todos os dias. Agora, não se pode nem respirar o ar daqui”.

Ainda há quem pratique pescaria e consuma os peixes do rio, embora não seja recomendado. “Quem vai comer algo daqui? A cada dia vai ficando pior o rio”, acrescenta. A água que chega das torneiras da Corsan para o consumo também precisa ser fervida, segundo elas, e o cheiro que vem das torneiras é forte. “Tu sente o gosto do rio no café. Temos que comprar água para fazer comida”, relata Samanta. Perguntada sobre o que acredita ser o futuro do rio, Vilma diz ter certeza que, um dia, ele irá secar.

“Cada vez tem menos água para cá. Há muitos anos, víamos até navios passar por aqui, e ficávamos felizes quando vinham, principalmente crianças. Agora não tem nada mais disso”, salienta. Pelo sétimo dia seguido, esta terça-feira é de captações de água no Gravataí suspensas para uso que não seja para o abastecimento humano, devido a queda no nível do rio, cuja condição é crítica. Na Estação de Tratamento de Água (ETA) Alvorada, a marca caiu para 1,15 metro, enquanto na ETA Gravataí, no Passo dos Negros, apenas 38 centímetros.

Já no Balneário Passo das Canoas, também em Gravataí, a marca aferida foi de 1,09 metro. No Rio dos Sinos, a terça é o sexto dia consecutivo de condição de alerta, com a queda na cota da Corsan em Campo Bom para 95 centímetros, da Comusa em Novo Hamburgo para 2,30 metros e do Serviço Geológico do Brasil (CPRM/SGB), em São Leopoldo para 74 centímetros. No Guaíba, em Porto Alegre, a régua da Usina do Gasômetro, no Centro Histórico, alcançou 1,24 metro, com tendência de estabilidade.