Cidades

Êxodo, saúde mental e impactos sociais: pesquisa do IBGE aponta que 6,3 milhões de gaúchos foram afetados pelas enchentes de 2024

Relatório completo da Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no RS foi divulgado na antevéspera dos 26 meses da tragédia climática

Enchente causou cenário de devastação em diversas regiões do RS, como no bairro Sarandi, em Porto Alegre
Enchente causou cenário de devastação em diversas regiões do RS, como no bairro Sarandi, em Porto Alegre Foto : Camila Cunha / CP Memória

Prestes a completar 26 meses de uma das maiores tragédias climáticas registradas no país, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta quarta-feira o relatório completo da Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (Peers). O estudo investigou desde características socioeconômicas dos impactos até transtornos de fato sofridos pela população afetada. Entre apontamentos sobre saúde mental, êxodo e danos em residências, a pesquisa estima que o total de gaúchos afetados tenha sido de 6.333.727.

O instituto ressalta ainda que o levantamento ajuda a entender o suporte demandado e recebido pelo Estado durante a tragédia, assim como as medidas de prevenção e recuperação. “Dessa forma, a Peers, tal como concebida, possui potencial para oferecer subsídios para a formulação de políticas públicas voltadas às mudanças climáticas, que sejam efetivas na prevenção e no enfrentamento de fenômenos dessa natureza, na mitigação de seus efeitos e na recuperação de danos”, apontou o diretor de Pesquisas do IBGE, Gustavo Junger da Silva.

Ainda conforme o IBGE, os resultados da pesquisa apresentam informações relacionados às características dos moradores afetados, os impactos das chuvas em suas vidas e moradias e a percepção de qualidade de vida pós-desastre. Outros temas explorados foram o perfil das populações atingidas, de suas moradia e mudanças de endereços após as enchentes históricas.

Ao todo, a pesquisa foi realizada em 133 municípios, considerados pelo instituto como os que registraram maiores transtornos nas cheias. A coleta foi realizada entre 15 de setembro de 2025 e 27 de fevereiro de 2026, contando com mais de 6 mil entrevistas, realizadas a partir de dados telefônicos informados no Censo Demográfico de 2022.

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Mais da metade dos domicílios afetados

A pesquisa estima que o total de domicílios nas áreas apontadas como mais afetadas pelas enchentes seja de 2.328.093 imóveis. Destes, 53,2% registraram algum tipo de dano em sua estrutura por conta das cheias, sendo 81,2 mil (3,5%) foram considerados como destruídos e outros 190,2 mil (8,2%) como muito danificados. Mesmo assim, cerca de 2,05 milhões de domicílios registraram algum tipo de impacto, mesmo que de natureza não estrutural, como interrupção no fornecimento de água e luz, por exemplo, durante a catástrofe.

Quando questionados sobre qualidade de vida, 24,9% dos entrevistados responderam que residem em domicílios cujas condições eram piores do que as vivenciadas antes das enchentes. Isso refletiu em um êxodo nas populações afetadas. A pesquisa identificou que mais de 922 mil pessoas, ou 14,6% da população considerada afetada, mudaram de endereço após a enchente. Destes, 71,6% se mudaram após identificarem danos estruturais nos domicílios onde residiam, em razão das cheias.

Já a renda familiar mensal das casas afetadas aponta que os reflexos das enchentes também levaram em conta condições socioeconômicas. Dos domicílios que registraram alguma avaria na estrutura, a maior concentração das famílias afetadas está na faixa de quem possui uma renda de até R$ 2 mil ao mês, com 31,4%. Por outro lado, a parcela de domicílios afetados com famílias com renda superior a R$ 10 mil ao mês é de apenas 7,6%.

Outro dado relevante apontado pela pesquisa do IBGE está nos reflexos das enchentes na vida dos gaúchos afetados. Isso porque 67,5% dos entrevistados informaram que tiveram a saúde mental abalada após a cheia. No recorte por renda, o impacto é maior nas famílias que vivem com até R$ 2 mil ao mês, que representam 25,2% das respostas para esse tópico. Além disso, 58,4% afirmaram que a catástrofe causou interrupções na vida social ou no convívio com família e amigos.