A família do menino William Gustavo Barboza, de 8 anos, que morreu na manhã desta sexta-feira, após a casa onde dormia ser atingida pela queda de uma árvore na Vila Barranco, na zona Norte de Porto Alegre, já havia sido contemplada pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Segundo o diretor-geral do Departamento Municipal de Habitação (Demhab), André Machado, a família repassou o imóvel e foi morar na ocupação irregular onde ocorreu a tragédia. A informação foi dada ao Correio do Povo na tarde desta sexta-feira.
“A mãe e a avó do menino tinham uma casa, venderam e foram para a ocupação”, disse Machado.
Segundo o diretor, três familiares da vítima receberam um imóvel cada no Condomínio Porto Novo, localizado em frente à ocupação onde ocorreu o acidente, na avenida Élvio Antônio Filipetto. O residencial possui 1.554 unidades habitacionais populares e foi construído para receber 112 famílias reassentadas da Vila Dique. A realocação começou em 2012, em razão das obras de ampliação do Aeroporto Internacional Salgado Filho. Machado não soube informar quando o imóvel teria sido repassado a terceiros.
Líder comunitária da Vila Barranco, Kátia de Lima afirma, no entanto, que a ocupação existe há cerca de dez anos e abriga pessoas que não foram contempladas por programas habitacionais. Segundo ela, parte dos moradores ocupou a área porque não recebeu novos imóveis.
“As famílias que não foram contempladas com as casas quando foram retiradas da Dique Velha invadiram esse espaço, onde os parentes deles ganharam casas que foram contempladas pelo Demhab”, disse. De acordo com Kátia, a ocupação ocorreu de forma gradual ao longo dos anos e atualmente reúne cerca de 70 moradores.
“Infelizmente, muitas pessoas que estão lá já foram assentadas em outro local, saíram dos seus imóveis e foram para lá. Então, fica difícil da gente atender”, afirmou Machado. Ele explicou que a legislação não permite que uma mesma família seja contemplada duas vezes com uma nova unidade habitacional.
Estadia Solidária
No caso da família atingida pela queda da árvore, a moradia foi completamente demolida durante a tarde desta sexta. Conforme o diretor-geral do Demhab, o órgão concederá o benefício da Estadia Solidária.
“É o mesmo que a gente usou na enchente, de R$ 1 mil por mês para as famílias. Eu só tenho que definir por qual período, se três meses, seis meses ou um ano. Nós estamos concedendo um benefício temporário para que elas possam pelo menos recomeçar e se reorganizar”, explicou.
Machado afirmou que o local já vinha sendo monitorado pelo Demhab. Em uma visita realizada em junho com a liderança comunitária, segundo ele, ficou definido que as famílias seriam cadastradas para que a situação de cada uma fosse avaliada. De acordo com o diretor, a área não é considerada de alto risco. A principal preocupação do órgão, até então, estava relacionada à possibilidade de desmoronamentos de terra.
“Nós estamos analisando a situação delas para poder atender, porque é muito complicada a situação. Eu tinha todas as portas abertas para fazer o atendimento delas. Mas não tenho como, a lei também não me permite atender uma pessoa duas vezes”, afirmou.
Machado disse que ainda não há uma solução definida e que o Demhab analisa alternativas para encaminhar as famílias da ocupação para novas moradias. Ele não descarta a possibilidade de judicializar a situação para que os moradores deixem o local, mas afirmou que pretende construir uma solução por meio do diálogo com a comunidade.
Visivelmente triste, o diretor também relatou um sentimento de impotência diante da tragédia desta sexta-feira. “A gente não tem perna para atender tudo que precisa ser atendido na velocidade que precisa. E, às vezes, a gente olha para um lado, achando que o drama está lá, e ele está de outro. Quando a gente começou a mapear as áreas de risco em 2023, nós olhávamos para os lugares onde tinha desbarrancamento em Porto Alegre. E aí, o que aconteceu? Uma enchente em 2024. Ou seja, foi outro local, enquanto a gente estava olhando para os morros, a cidade sofreu uma enchente”, afirmou.
Ele também reforçou o alerta para que a população siga as orientações da Defesa Civil. “Nós estamos vivendo um momento, infelizmente, muito diferente, muito diferente das condições climáticas, que está exigindo de nós preparo”, concluiu.
Pais tiveram alta
Na tarde desta sexta-feira, a Secretaria Municipal da Saúde confirmou que os pais do menino William receberam alta do Hospital de Pronto Socorro (HPS). A mãe sofreu lesões leves, foi atendida e liberada no início da tarde. O pai recebeu atendimento psicológico e também foi liberado. Um bebê de 4 meses também estava no local no momento do acidente, mas não ficou ferido e permanece com a família.
Conforme a líder comunitária Kátia, a mãe do menino era dona de casa e o pai trabalha como servente de obras. Eles haviam regressado recentemente de Capão da Canoa para a Capital e William retomaria as aulas ontem, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Governador Ildo Meneghetti, no bairro Rubem Berta.