Agridoce. Aquilo que tem sabor amargo e doce ao mesmo tempo. Ou então algo que causa sensações de prazer e amargura simultaneamente. Para milhares de famílias gaúcha, esse será o sabor do Natal de 2025, o segundo depois da enchente histórica de maio de 2024. Se as primeiras festas de final de ano depois da tragédia climática foram marcadas ainda pela necessidade de reconstrução, as celebrações no segundo ano carregam sensações de luto, incerteza e esperança para o futuro de quem perdeu tudo com as cheias.
Para estas famílias, mais que recuperar pertences materiais, como móveis, eletrodomésticos, veículos ou outros bens, o sonho de Natal é ter de volta aquilo que se tornou impalpável: a segurança de viver onde mais ama sem o medo de sofrer mais uma vez com a invasão das águas, a esperança de que a tragédia climática não se repita, ou mesmo sentir novamente o abraço do ente querido que já se foi.
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“Só queria trazer minha filha de volta”
“Não dá para deixar a nossa tristeza contaminar as crianças. Elas precisam viver uma infância feliz. No Natal, peço que se preocupem com as crianças. Por isso não dá para perder o espírito natalino”. As frases da aposentada Maria Eronita Gonçalves de Oliveira, de 70 anos, moradora do bairro Sans Souci, em Eldorado do Sul, resumem o sentimento agridoce de celebrar as festas de final de ano, mesmo depois de ter perdido tudo na enchente de maio de 2024.
Tanto como o espírito natalino, perder tudo também é uma sensação ambígua para ela. Isso porque, assim como parte dos pertences em sua casa, a decoração utilizada para decorar o lar neste Natal foi encontrada naquilo que outros chamavam de lixo ou de inservíveis após a cheia. Duas árvores, bonecos, alguns enfeites e até uma placa escrito “Noel, passe aqui” que agora fazem parte da decoração de Nita, como é conhecida na comunidade, sobreviveram à mesma tragédia climática na qual ela também restou viva.
“Eu morri e vivi de novo. Tanto eu como meus vizinhos e outros moradores do bairro. Todo mundo aqui perdeu tudo. A gente se refez catando no lixo o que sobrava das outras casas. Boa parte dessas coisas aqui foram o que as pessoas botaram fora antes de sair daqui e que reaproveitamos. Mas não tem muita celebração. Perdemos familiares, amigos, animais de estimação. Passamos fome e frio. Ninguém se recuperou. Ainda não pude reconstruir minha casa. Estou usando trapos para tapar a janela. Não adianta romantizar ou enfeitar a palavra Natal”, contou a moradora.
As lembranças traumáticas da cheia e das semanas em que precisou ficar fora de casa, somadas à dificuldade de recuperar a vida como era antes da tragédia fazem com que o período seja de estranheza. Nita afirma ter presenciado um cenário de guerra durante a enchente de 2024. Apesar disso, a necessidade de ter um canto da casa com alguma menção ao período natalino serve, segundo ela, para dar esperanças de um futuro melhor para seus netos.
Apesar da hesitação sobre as condições pós-enchente, Nite destaca que possui uma certeza em sua vida: seguir vivendo no lugar que ama. “É muito triste viver com medo, mas eu não abandono a minha cidade. Criei meus quatro filhos sozinha, os vi crescerem e formarem suas próprias famílias. Não admito desistir daqui. A água pode até subir que, quando recuar, eu volto para cá”, completou a moradora de Eldorado do Sul.
Questionada sobre qual seria o presente dos seus sonhos, passados mais de um ano e meio da tragédia climática, Nita lamentou outro sofrimento recente. “Se desse, eu só queria trazer minha filha de volta. Estou tentando me levantar sem saber de onde vem a força para isso”, lamentou a aposentada. Emocionada, ela não quis dar detalhes da perda da sua filha mais velha, de 42 anos, no início de 2025, pouco depois de sofrer com a enchente.
MARIA ERONITA GONÇALVES -MORADORA DO BAIRRO SANS SOUCI EM ELDORADO DO SUL
Segurança para poder viver onde ama
Assim como a moradora do Sans Souci, o amor pela cidade onde residem também é compartilhado por outros habitantes de Eldorado do Sul. O aposentado César Fernando Oliveira de Souza, de 61 anos, residente no bairro Cidade Verde desde o ano 2000. Apesar de manter esperanças pelo futuro de sua cidade, desde que foi atingido pela enchente, Souza ainda não teve coragem de recuperar plenamente a própria casa.
Em meio a paredes marcadas pela presença de limo, sem pintura e com poucos móveis em casa, o aposentado aguarda por novidades em termos de infraestrutura que tornem sua moradia na região algo seguro, principalmente do tão sonhado sistema de proteção contra cheias. Sensação essa que guarda desde que retornou para o próprio lar, mais de três meses depois que a água deixou parte da cidade submersa. Com relação às lembranças da tragédia, restam apenas as muitas marcas na casa e as memórias, pois fez questão de deletar fotos os vídeos do celular.
“Quando saí daqui, a rua já estava encoberta de água. Ainda cheguei a ir para a casa de um familiar, mas não fiquei nem 30 minutos lá antes de ter de fugir novamente. Só voltei no final de agosto. Quando cheguei aqui, não dava nem vontade de abrir a porta. Era lama por tudo. Se for olhar com calma agora, ainda vai ter barro nos cantos da casa”, contou o aposentado.
A sensação agridoce que possui com relação ao local onde vive reflete na recuperação da própria casa. Ao mesmo tempo que afirma amar Eldorado do Sul, aponta não ter vontade de investir no local. “Sair para outra cidade eu não farei. Já criei raízes aqui. Mas ficamos sempre com o pé atrás. Não vou mais investir aqui, senão será dinheiro jogado fora. Dos meus móveis, não tem nada novo, pois não tem como investir nisso desse jeito”, completou.
A insegurança faz com que mesmo datas típicas e já celebradas anteriormente na família, como o Natal e o Ano Novo, passem batidas neste momento, sem decorações espalhadas pela casa. Perguntado sobre qual seu sonho almejado de presente de Natal para o morador, Souza pediu justamente por celeridade nas ações públicas que farão ele e seus vizinhos terem maior esperança pela cidade onde vivem.
“Meu sonho de natal seria ter segurança para poder viver onde eu amo. Eldorado do Sul é um lugar bom de morar, mas que não me traz segurança para viver e recuperar minha casa. Se desse, eu não cogitaria sair ou algo do tipo. Mas são muitas promessas, principal sobre o dique. Só que, quando chove ou dá uma garoa, todo mundo já fica apavorado. Caso tivesse essa segurança, eu já teria terminado a recuperação e comprado tudo. Mas, do jeito que está, eu não tenho isso”, lamentou.
CESAR FERNANDO OLIVEIRA -MORADOR DO BAIRRO CIDADE VERDE EM ELDORADO DO SUL
“Nunca mais passar por isso novamente”
Na zona Norte de Porto Alegre, o espírito natalino passou de pai para filho. Até então, Almir Aguero era quem assumia o papel de Papai Noel e distribuía doces e brinquedos para crianças da vila Farrapos, no bairro Humaitá. Por conta da enchente, Almir decidiu se mudar para o Litoral Norte, vindo para a Capital apenas a trabalho e para ver a família. Agora, o filho dele, Rafael Aguero, de 38 anos, é quem dá sequência às tradições natalinas da família.
Tentando aliar o espírito do Natal com a rotina de trabalho, o empresário decorou a camionete utilizada para entregar gás de cozinha na região com luzes e adesivos natalinos, além de preencher parte da fachada de casa com alguns itens festivos. Além disso, nos últimos dias, Rafael e outros colaboradores da empresa também utilizam toucas e barbas do bom velhinho durante o trabalho.
Morador da rua Bambas da Orgia, Aguero recorda as dificuldades vividas na região durante a cheia histórica de maio de 2024. “Fiquei a enchente inteira no segundo andar da casa, cuidando do depósito e das casas dos nossos vizinhos. Não tinha o que fazer, mas entendi que era importante ficar aqui. Só depois consegui ver o prejuízo. Considerando tudo, a recuperação está sendo difícil. Vai levar ao menos uns 5 anos para voltar o que era, mas ao menos estamos com saúde”, contou.
Mesmo tendo pintado grande parte da casa, deixou uma parte da parede da garagem com as marcas da cheia para nunca esquecer o sofrimento que ele e seus vizinhos passaram em 2024. Dentro de casa, fez questão de montar uma árvore de Natal para celebrar a data com a filha Lara, de 9 anos. Para ele, apesar das lembranças tristes, o Natal é momento de celebrar a vida.
“Estamos bem, mas agora está começando a estragar uma coisa aqui e outra ali. Mas o que a gente quer (com a decoração) é trazer um pouco de felicidade. Se não, ficamos só nesse papo de tristeza da enchente. Tem que tentar alegrar um pouco. Muitas casas abandonadas e muitos moradores que não voltaram. Então a ideia da decoração é alegrar as pessoas. Meu pai sempre se vestiu de Papai Noel e a gurizada adorava. Estou tentando, aos poucos, puxar um pouco disso. A barriga e a barba já tenho”, brincou Aguero.
Ao ser questionado sobre qual o presente de Natal dos sonhos, o morador do Humaitá recordou sua conexão com a região na qual vive. “É difícil falar depois de tudo o que nós passamos. Só quero nunca mais aconteça aquilo (enchente). Eu nasci e me criei aqui na vila Farrapos. É triste pelas amizades que fizemos e que decidiram sair. Só aqui na rua tem umas quantas casas abandonadas. Mas, para mim, ir embora não é uma opção. Somos brasileiros, então não dá para desistir nunca”, completou Rafael Aguero.
FAMILIAS ATINGIDAS PELA ENCHENTE E OS PEDIDOS DE NATAL
Em outro ponto da zona Norte, no bairro Sarandi, a família da técnica de enfermagem Jane Baptista Porto, de 57 anos, também entende que o Natal é momento de celebrar a saúde e a vida depois de todo o drama vivido nos últimos 18 meses. Assim como para milhares de pessoas atingidas pela cheia, mesmo um ano e meio da tragédia, ainda não é possível afirmar que tudo voltou ao normal dentro de casa.
A prova viva disso é que a própria árvore de Natal da família foi montada em uma peça da casa que segue ainda praticamente vazia, desde que a água destruiu quase todos os móveis e eletrodomésticos. Outras áreas da residência precisaram ser reconstruídas depois da enchente, tendo em vista que parte da estrutura do telhado foi destruída para a passagem de barcos que atuaram no resgate de moradores do bairro que ficaram ilhados.
Jane conta que a reconstrução da casa onde vive com a mãe, Neusa Baptista Porto, de 83 anos, ainda ocorre de forma gradual. Ela se mudou para o local meses antes da cheia, para auxiliar nos cuidados diários da mãe, já idosa. “Ficamos quase três meses fora. O cenário era horrível, não tinha nada de pé. Parte da casa é tudo novo. Ainda estamos recuperando de pouco ao pouco. Vamos nos ajudando da forma que dá”, apontou. Ainda assim, para Jane, as festas de final de ano são uma oportunidade de agradecer pela vida.
“Devido a tudo o que aconteceu, o Natal é algo celebrável, pois saímos todos (da enchente) com saúde. Minha mãe precisou pular do segundo andar no prédio onde estávamos para dentro de um barco para ser resgatada. Então, celebramos porque estamos todos vivos e com saúde”, completou a moradora do Sarandi.
Sobre o presente de Natal perfeito, ela segue a linha de pensamento de Rafael Aguero, morador do Humaitá. “Que nunca mais precisemos passar por isso novamente. O sonho principal é esse. De resto, vamos aos poucos terminar de repor os móveis e os pertences pessoais que a minha mãe tinha aqui. Ela ainda sente falta. Tem vezes que ela fala que essa não é mais a casa dela, pois tudo precisou ser reformado. Ela ainda sente essa estranheza”, finalizou.