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Frio desafia rotina de trabalhadores ao ar livre em Porto Alegre

Exposição prolongada às baixas temperaturas pode trazer riscos à saúde, afirma endocrinologista. Confira dicas para manter os cuidados

Meredith de Lacerda, artesã de 77 anos que trabalha na Praça da Alfândega, cobre sua banca com uma cortina térmica, coloca luvas nas mãos e pelo menos quatro camadas de roupas
Meredith de Lacerda, artesã de 77 anos que trabalha na Praça da Alfândega, cobre sua banca com uma cortina térmica, coloca luvas nas mãos e pelo menos quatro camadas de roupas Foto : Pedro Piegas

As baixas temperaturas que atingem o Rio Grande do Sul nos últimos dias – que chega ao quinto dia com temperatura negativa em alguns municípios – desafiam mais ainda a rotina de trabalhadores ao ar livre. Os profissionais, que passam muitas horas expostos às baixas temperaturas, buscam estratégias e desafios para conviver com o frio.

Meredith de Lacerda, artesã de 77 anos que trabalha na Praça da Alfândega, cobre sua banca com uma cortina térmica, coloca luvas nas mãos e pelo menos quatro camadas de roupas – uma jaqueta grande, um blusão, uma segunda pele e uma blusa básica – antes de começar a trabalhar. Na última terça-feira, em que o estado registrou temperaturas mais baixas do inverno até então, ela fez suas maiores vendas. "Mas uma coisa: eu nunca mais vou dizer 'que saudade do inverno'. Eu não sou mais menina. Esse inverno foi terrível", diz.

"Inverno é complicado", afirma Paulo Rogério, feirante de frutas na praça Parobé, no Centro Histórico de Porto Alegre. Ele prefere trabalhar com altas temperaturas, mas, há 40 anos na lida, se diz já acostumado com as baixas. "Tem que vir trabalhar bem encasacado", ressalta. Na sua opinião, já houveram invernos mais rigorosos.

Valdemar Andrade, outro feirante, afirma que a noite é mais cruel, e alguns trabalhadores até trazem cobertores. "Às vezes a gente bota umas duas [camadas de roupa] por baixo, vai um casaco por cima, vai uma touca. Dependendo do frio, a gente se encapota bem", diz. "A gente tinha que atravessar os primeiros invernos, agora com 20 anos aqui, a gente já está com o ponto feito", diz com humor. Na sua análise, as vendas diminuem no inverno, mas, em compensação, as frutas duram mais, e há uma clientela firme.

Comerciante do Pão da Sete, banquinha de pão de queijo na rua Sete de Setembro, Julio Passos trabalha em uma das ruas mais frias do Centro Histórico, por ser próxima ao Guaíba e mais atingida pelos fortes ventos, além de haver os prédios altos que impedem a passagem de sol. Porém, nas suas palavras, inverno não é problema. "A gente trabalha há 11 anos aqui, a gente vai se acostumando”, diz. A clientela, inclusive, aumenta nesse período, em busca de alimentos e bebidas quentes, confirma o comerciante. Ele chega a acordar às 4h da manhã para chegar à banquinha às 6h da manhã, e permanece até 18h da noite, de segunda a sexta-feira. "Botar a roupa e encarar", diz, é o segredo.

Exposição à baixas temperaturas pode trazer riscos à saúde

A exposição ao frio pode trazer riscos à saúde de quem trabalha ou passa muito tempo ao ar livre, afirma Janine Alessi, médica endocrinologista e professora da Escola de Medicina da PUCRS. Segundo a profissional, em temperaturas muito baixas, especialmente com vento ou umidade, o corpo perde calor de forma mais rápida, o que pode prejudicar tanto o desempenho físico quanto mental.

“Por exemplo, na tentativa de reduzir a perda de calor, o corpo age fazendo uma constrição dos vasos sanguíneos das extremidades, como as mãos, o que chamamos de vasoconstrição periférica. Esse mecanismo pode deixar as mãos mais “duras” e prejudicar a coordenação motora, dificultando tarefas simples como segurar ferramentas, amarrar um cadarço ou até escrever”, diz Alessi.

Com a temperatura dos músculos e articulações mais baixa, a força e a agilidade também podem diminuir. Além do frio e tremedeira, a pessoa pode também ficar confusa, sonolenta e até perder a consciência, segundo a profissional.

“Esse risco é ainda maior se a pessoa estiver molhada ou exposta ao vento. As lesões por frio, que podem se manifestar como irritações na pele, com manchas avermelhadas que coçam, ou até formas mais graves, quando os pés ficam molhados e frios por muito tempo, podendo levar ao surgimento de inchaço e dor, ou até mesmo ao congelamento real de partes do corpo, como dedos, nariz e orelhas”, detalha a médica.

O frio também pode afetar o coração e os pulmões, afirma a profissional. “Em pessoas que já têm problemas cardíacos ou respiratórios, ele pode desencadear crises, como infartos ou dificuldades para respirar”, diz.

Um dos perigos mais graves de trabalhar com exposição ao frio intenso e constante é a hipotermia, que acontece quando a temperatura do corpo cai abaixo de 35°C. Em casos mais extremos, ela pode levar à morte. A situação tem sido recorrente com pessoas em situação de rua. É necessário, portanto, ter cuidados com a exposição a baixas temperaturas.

Confira, abaixo, dicas para manter cuidados durante a exposição ao frio:

  • Vestir-se em camadas, com roupas que protejam bem do vento e da umidade. O indicado, segundo Alessi, é uma primeira camada de tecido sintético, como o poliéster e elastano, que permitem absorver a umidade do suor e a manter longe da pele, permitindo que ela evapore rapidamente
  • Inserir, na segunda camada de roupas, um tecido mais grosso, como a lã, para a retenção do calor do corpo. A camada mais externa deve ser um material impermeabilizante que mantenha o corpo protegido do vento e da chuva
  • Além dos cuidados com as roupas, é fundamental manter as extremidades, como mãos, pés, orelhas e nariz, bem protegidas
  • Fazer pausas em locais aquecidos
  • Evitar ficar molhado, e se isso acontecer, trocar de roupa o quanto antes
  • Ficar atento ao chamado "índice de resfriamento pelo vento", que indica o quão rápido o frio pode causar lesões na pele mesmo quando a temperatura não parece tão baixa devido a sensação de arrefecimento causada por ventos mais rápidos e intensos.

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