Eles fizeram história, marcaram uma época e agora estão se aposentando das ruas. O orelhão, invenção genuinamente brasileira, está passando por um processo de remoção das ruas de todo o país. Tecnicamente, a retirada dos chamados Telefones de Uso Público (TUPs) ocorre devido ao final do prazo de concessões do serviço de telefonia fixa das cinco empresas responsáveis por eles.
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) diz não haver norma que determine ou regulamente de maneira expressa a retirada dos orelhões não obrigatórios, mas a agência avalia solicitar às prestadoras adaptadas a apresentação de um plano de retirada. Aliás, também segundo a Anatel, ainda haverá a necessidade de mantê-los, até 31 de dezembro de 2028, cerca de nove mil em locais onde a cobertura da telefonia celular ainda é deficiente.
Nestes locais, sempre que não houver cartão disponível, os aparelhos remanescentes devem permitir chamadas locais e nacionais gratuitamente para telefones fixos. No Rio Grande do Sul, a agência impôs esta medida ainda em 2015 para ligações locais, como uma punição à Oi, pela disponibilidade de aparelhos menor do que a meta de 90%. Com design icônico oval, o orelhão foi criado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, e o primeiro de Porto Alegre foi instalado em março de 1973, na Praça da Alfândega.
Ao longo das décadas, estes dispositivos dominaram o mobiliário urbano, e as ligações eram feitas pelas não menos icônicas fichas e, na sequência, os colecionáveis cartões telefônicos. Em dezembro de 2025, o cenário era muito diferente. No país todo, eram 38,3 mil. Em todo o Rio Grande do Sul, a Anatel contabilizava apenas 155, e somente três em Porto Alegre. Possivelmente são as três unidades que ainda jazem em uma mesma calçada da avenida Osvaldo Aranha, na altura da Sarmento Leite, embora somente dois tenham os aparelhos disponíveis.
Assim, o vandalismo é uma marca recorrente destes telefones públicos, que curiosamente vivem uma espécie de limbo na Capital. Segundo a Prefeitura, a Procuradoria-Geral do Município (PGM) ajuizou, em agosto de 2025, uma ação para que o Judiciário determinasse à Oi que informasse o número, a localização e o estado de funcionamento dos orelhões na Capital. Em resposta, a Oi disse que não opera mais estes equipamentos, e não informou a relação solicitada pelo município.
Os últimos 30 mil telefones de uso público, popularmente conhecidos como orelhões, serão extintos até o final de 2028
Memorial CRT faz orelhão virar peça de museu
Para ver um orelhão em bom estado de conservação em Porto Alegre, o local indicado é o Memorial CRT, no bairro Azenha, mantido pela Associação dos Aposentados da Companhia Riograndense de Telecomunicações (AACRT). O museu, que aceita visitas mediante agendamento, conta a vibrante história da telefonia no mundo e, por consequência, no RS, onde a CRT dominou o mercado por décadas, até a empresa ser privatizada, em 1998. Modelos antigos de telefones e itens utilizados pelos funcionários da companhia podem ser visualizados, algo que causa inclusive momentos emocionantes nos mais saudosistas.
"Acredito que a retirada dos orelhões seja uma evolução natural", disse o gerente Administrativo e Financeiro da AACRT, Antônio Carlos Tellitu Rios. "Estamos abordando aqui sobre telefonia, mas há também outros produtos que evoluíram no tempo, qualificando e dando mais condições para o serviço. Quem diria, hoje, que o WhatsApp faria você estar disponível para conversar com qualquer um, a qualquer momento, e em qualquer lugar?", acrescentou ele, relembrando casos curiosos em que, longe dos grandes centros urbanos, orelhões eram removidos para suas carcaças ovais servirem de bebedouro ou comedouro para o gado.
Leia nota completa da Prefeitura de Porto Alegre
Nota à imprensa – telefones públicos
O Município de Porto Alegre informa que a responsabilidade pela instalação, manutenção, retirada e identificação dos telefones públicos (orelhões) é das operadoras de telefonia - na Capital, essa atribuição cabe à empresa Oi.
A Procuradoria-Geral do Município (PGM) ajuizou, em agosto de 2025, ação para que o Judiciário determine que a operadora informe o número, a localização e o estado de funcionamento dos orelhões instalados em Porto Alegre.
Na ocasião, a Oi informou que não opera mais esses equipamentos, mas não apresentou a relação solicitada pelo Município.