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Idoso de 90 anos vira guardião de bairro devastado por enchente em Eldorado do Sul

Orestes Ferreira da Silva reforma calçadas, limpa rastro de lodo e demarca pontos inundados no bairro Itaí

Orestes Ferreira da Silva, de 90 anos, demarca pontos inundados no bairro Itaí
Orestes Ferreira da Silva, de 90 anos, demarca pontos inundados no bairro Itaí Foto : Camila Cunha

Eldorado do Sul ainda registra pontos alagados em meio aos escombros. O município na região Metropolitana chegou a ter 97% do território urbano e 80% da área total atingidos por água. Mais de 6 mil pessoas, entre desalojados e desabrigados, ainda estão fora de casa. Foram afetados cerca de 30 mil moradores na cidade, que soma 40 mil habitantes.

Uma das pessoas afetadas na tragédia é o idoso Orestes Ferreira da Silva, de 90 anos, que desde o início de maio está alojado em uma escola no município. Antes disso, ele morava sozinho em uma casa na rua Antenor Pereira, no bairro Itaí. O imóvel, assim como todas as outras residências no local, ficou submerso e teve a mobília levada pela força da água.

Apesar de ter perdido tudo, o idoso costuma retornar para a rua periodicamente. Sozinho, ele cobre buracos nas calçadas com cimento, varre a areia que se acumula nas vias e limpa o rastro de lodo que ficou impregnado no chão e nas paredes das casas.

"Alguém precisa fazer alguma coisa. Não adianta ficar parado e esperar uma solução mágica para os problemas. Por isso decidi agir por conta própria. Pode não parecer, mas apesar da idade, consigo carregar sacos de cimento que pesam até 50 quilos. Agradeço todos os dias por Deus ter me dado saúde para isso”, destacou o idoso.

O bairro Itaí ainda ostenta um cenário de guerra. Dezenas de casas foram destruídas e os destroços ainda estão espalhados na região. Quase todas as vias têm rombos no asfalto e pontos de alagamento. Isso impossibilita o fluxo de veículos e gera riscos aos moradores.

Foi pensando no perigo que a localidade oferece que Seu Orestes começou a demarcar a profundida da água no bairro. Ele dedica parte do tempo a percorrer as ruas e cravar estacas de madeira no fundo das poças. Na rua onde mora, por exemplo, o alerta já foi instalado em um ponto de alagamento. A intenção é evitar que crianças caiam dentro dos buracos inundados que se espalham na área.

"Há poças que ultrapassam meio metro de profundidade. Isso é um perigo para as crianças, que podem estar brincando desavisadas pela rua, cair em um buraco com água e até se afogar. Resolvi tomar uma atitude e demarcar esse pontos de risco, antes que um acidente ocorra”, disse.

A enchente em Eldorado do Sul não foi a primeira catástrofe que o idoso presenciou. Orestes Ferreira nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, mas há 40 anos mora em Eldorado do Sul, onde trabalhava como mecânico. Ele relembra dilúvios que ocorreram na sua terra de origem e afirma que a resiliência é a melhor forma de superação.

"Passei por diversas inundações no Rio Grande do Norte, por isso estou relativamente acostumado a esse tipo de acontecimento. Recomendo aos gaúchos que sejam fortes e tenham fé em Deus. Somente com trabalho e perseverança vamos conseguir trilhar o caminho da recuperação”, enfatizou o veterano.