Não é possível acessar a Orla do Lami neste sábado. A cheia do Guaíba somada à força do vento lançou ondas em direção às casas, que voltaram a ser invadidas por água. O novo alagamento chegou a atingir pelo menos três quarteirões na localidade.
A água avançou mais de 25 metros no Beco do Pontal, como é chamada uma das principais vias de acesso para a orla. Há poças espalhadas em pátios e garagens, sendo que há moradores descartando na rua o pouco de mobília que a enchente não levou.
O trecho está intransitável até para automóveis mais altos. Um caminhão tentou atravessar a via, mas teve que retornar após ter sido impedido por buracos e pelo risco de atolar no alagamento.
Quem caminhar no entorno do Beco do Pontal verá similaridades do espaço com um córrego. O Guaíba revolto forma correnteza no final da via. Também ali, sofás, almofadas, estantes e cadeiras flutuam no alagamento.
O motorista aposentado Valdivino Rodrigues França tem 74 anos e mora no bairro Lami há 40. Ele não considerava mudar de bairro, até o início das cheias. Nesta manhã, o idoso fitava desolado o corpo de um filhote de cão que havia se afogado.
"O Lami significa muito para mim, mas não aguento mais isso. Ainda não havia passado por nada tão ruim quanto as inundações que têm acontecido. Perdi móveis e eletrodomésticos, mas não posso comprar outros porque a área volta a alagar a todo o tempo. Meu objetivo é me mudar para outro bairro em Porto Alegre, mas o problema é que ninguém quer comprar uma casa em um local como este”, afirmou o idoso, com olhos marejados.
A saída de um morador do bairro Lami não é novidade. Foram mais de 300 pessoas que abandonaram a região desde maio. Praticamente todas as casas na beira do Guaíba, estão abandonadas, sem contar o restante dos imóveis destruídos pela força da água e que não têm mais condições de servir como residência.
Apenas o escombro das casas ocupam a rua Candido Genro Neto. Apenas cães, gatos e urubus perambulam na localidade em busca de alimentos. O maior número de pessoas se concentra na Estrada Otaviano Jose Pinto, que se tornou uma espécie de ponto de encontro para grupos de voluntários.