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Jacaré no Menino Deus e garças no Centro: enchentes no RS influenciam deslocamento da fauna silvestre

Especialistas avaliam necessidade de estudos aprofundados para entender cenário após fenômeno meteorológico

Garças apareceram pescando no Centro Histórico de Porto Alegre
Garças apareceram pescando no Centro Histórico de Porto Alegre Foto : Fabiano do Amaral

Em meio às imagens de destruição que chocaram o Brasil com as enchentes que afetam o Rio Grande do Sul, surgiram também fotos de animais ocupando espaços incomuns. Alguns exemplos são os búfalos avistados na BR-101, as garças que pescavam na avenida Borges de Medeiros e ate um jacaré no bairro Menino Deus. Contudo, para especialistas, as cheias e os consequentes deslocamentos de animais são bem mais complexos e afetam diferentemente a fauna nativa gaúcha.

Os especialistas consultados foram unânimes em afirmar que ainda serão necessários estudos aprofundados para entender a real gravidade em decorrência das enchentes.

Risco de introdução de espécies exóticas

Para biólogo Glayson Bencke, pesquisador do Museu de Ciências Naturais da Secretaria do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, uma possibilidade trazida pela enchente é a introdução de animais exóticos na fauna nativa gaúcha. Ele exemplifica que animais exóticos que vivem em criadouros, como peixes mantidos em açudes e tanques, podem ter adentrado em rios do Estado porque a enchente causa uma “unificação das águas”.

“Um peixe que estava restrito a um tanque, agora tem acesso ao Guaíba, à Lagoa dos Patos e pode se estabelecer em um local em que ele não acontece naturalmente”, explica.

Isso gera desequilíbrio no ecossistema, pois resulta em uma concorrência desleal entre os animais pelos recursos do local. Bencke cita o caso das palometas (piranhas) que ocorrem naturalmente na bacia do Rio Uruguai e seus afluentes: é se sabe que estes animais estão presentes no Guaíba há algum tempo, muito provavelmente tendo passado de uma bacia hidrográfica para a outra por meio da irrigação. Um exemplar desta espécie foi visto no Largo dos Açorianos, em Porto Alegre.

Conforme Tiago Gomes, biólogo e professor na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), há animais com ocorrência muito restritas que podem ter sofrido diversas consequências, que só poderão ser entendidas no futuro. Ele cita sapinho-admirável-de-barriga-vermelha, que ocorre apenas às margens do rio Forqueta, nos municípios de Arvorezinha e Soledade. O animal foi classificado como ameaçado de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN),

“A gente não sabe o que ocorreu com a população dos sapinhos. Se as margens foram ou não inundadas. A gente só vai saber no futuro e com estudos”, apontou Gomes.

O deslocamento forçado de animais pode causar desequilíbrios ecológicos em novas áreas. "Animais levados de uma região para outra podem competir com espécies nativas por alimento e habitat, ou até introduzir doenças", explicou Gomes, alertando para possíveis desbalanceamentos do ecossistema.

Oportunismo e deslocamento

Bencke destacou a presença em massa de garças brancas grandes na região central de Porto Alegre, aproveitando a oferta de peixes trazidos pelas águas das enchentes. "O que a gente viu não foi um impacto (negativo), mas sim um oportunismo", definiu Bencke.

Com a baixa das águas, os peixes ficaram isolados em poças, proporcionando uma oportunidade de alimentação fácil para essas aves. Ainda segundo Bencke, estas aves já vivem no meio urbano, sendo comumente vistas pescando no arroio Dilúvio. Neste exemplo, as enchentes mudaram parte dos hábitos dos animais, mas em menor escala quando comparado a outros que não vivem no meio urbano.

Outro grupo de aves que vive no meio urbano e que se beneficiou indiretamente das enchentes foram os urubus e carcarás. Eles se alimentam do maior número de carcaças de animais mortos deixadas pelas águas retrocedentes. Neste caso, o principal efeito deve ser um crescimento no número de avistamentos desses animais no meio urbano, já que se deslocam rapidamente em busca de alimento.

Contudo, Bencke afirmou que a maior disponibilidade de alimento não deve resultar em notável crescimento populacional, já que é um fenômeno que deve durar apenas algumas semanas. “As carcaças vão ficar depositadas e estes animais vão se alimentar por duas, três semanas no máximo. isso não chega no período reprodutivo destas aves e não deve chegar a ter um efeito populacional!”, avaliou. Além disso, Bencke ressalta que, em geral, estas aves não transmitem doenças.

Tiago Gomes, que é especialista em Herpetologia, (ramo da biologia que estuda anfíbios e répteis) relatou que as enchentes deixaram animais que vivem em áreas alagadiças desalojados, o que forçou o seu deslocamento. Gomes acrescentou que é muito difícil precisar o real impacto do deslocamento, e que espécimes como jacarés, escorpiões e aranhas acabaram dentro de cidades como Porto Alegre. O habitat desses animais são locais úmidos, mas não alagados, como margens de rios, foram completamente inundados pela enchente.

"Os animais são jogados para fora de seus ambientes, forçados a buscar refúgio em locais urbanos", contou Gomes. Segundo ele, animais como jacarés se reproduzem por meio da postura de ovos em locais “específicos e seguros”.

Felizmente ,estes animais não costumam reproduzir neste momento, e sim entre primavera e verão.

Realocar os animais para seus habitats naturais também é um desafio. "Imaginemos um jacaré que foi deslocado por quilômetros. Encontrar seu habitat original pode ser impossível, e soltar esses animais em qualquer lugar pode não ser a solução", afirmou o biólogo.

Atuação do Ibama e do governo do Estado

O Ibama do Rio Grande do Sul afirma que, até a última segunda-feira, havia realizado 79 salvamentos de vida silvestre, e a soltura de outros 115 em ambiente silvestre seguro. Ao mesmo tempo, as equipes do Instituto também salvaram 29 pessoas e distribuíram cestas básicas e outros insumos em 18 comunidades indígenas e quilombolas, ajudando mais de 210 famílias, além de outros serviços prestados pelos servidores para a comunidade.

O edifício-sede da Superintendência do Ibama/RS, localizado na capital Porto Alegre, foi atingido inclusive atingido pelas enchentes, assim como o centro de triagem de animais silvestres, que foi destruído. O Cetas precisou transferir centenas de anos, e opera, de forma emergencial, em um espaço cedido pelo Jardim Botânico de Porto Alegre.

Na sexta, o governo do Estado do Rio Grande do Sul lançou o Plano Estadual de Ações de Resposta à Fauna. O plano conta com diversas iniciativas como a castração de animais domésticos e a microchipagem de 20 mil animais após as enchentes.

De acordo com dados da Defesa Civil Estadual, ao menos 12.527 animais foram resgatados desde o início das enchentes. Contudo, a iniciativa do governo não traz, até o momento, ações específicas para animais silvestres, tendo este termo sido citado uma única vez por documento apresentado no lançamento.

De acordo com um levantamento do recém-criado Gabinete de Coordenação de Resposta à Fauna (GCRF), a maioria dos 20 mil animais mantidos em 400 abrigos são cães e gatos, sendo a minoria de animais silvestres.