O extremo Sul de Porto Alegre é cenário de terra arrasada após ser alvo de sucessivas inundações. O episódio mais devastador até agora foi a enchente no início de maio, mas, desde então, a região passou por sucessivas inundações de menor intensidade, ocasionadas por constantes cheias do Guaíba.
Na manhã desta segunda-feira, a água havia recuado mais uma vez. As vias sem asfalto na localidade estão esburacadas e a terra virou lama. Pilhas de lixo, mobílias descartadas e destroços de residenciais se espalham e dão o tom do quadro de desolação.
O servidor público Júlio César Val, 54 anos, aproveitou o recuo da água para caminhar no calçadão da Orla do Lami. Pensativo, ele desviava dos rombos e lajotas do piso que foram arrancadas pela força do Guaíba.
“Estou morando na casa de familiares. Retorno apenas para tentar recuperar algum móvel que não tenha sido perdido na enchente. Raramente consigo reutilizar algum item, a água destruiu tudo”, relatou o homem.
Assim como o servidor público, outras pessoas retornam ao local na esperança de recuperar pertences e depois vão embora. O caso é rotineiro, uma vez que quase ninguém permanece no interior das casas na maior parte do bairro Lami.
Foram mais de 300 pessoas que abandonaram a região desde maio. Praticamente todas as residências na beira do Guaíba, foram abandonadas, sem contar o restante dos imóveis destruídos pela força da água e que não têm mais condições de servir como moradia.
Não muito longe dali, o bairro Belém Novo também tem rastros de destruição visíveis a olho nu. Quem caminha na avenida Beira Rio encontra muretas e pedaços das casas que a água derrubou. Também há pontos de difícil acesso, principalmente por erosão na via.
A maior parte da praia do bairro Belém Novo, na Praça José Comunal, outrora um dos pontos turísticos mais movimentados do extremo Sul, permanece inacessível. Ali, a inundação ainda engole parte dos bancos, brinquedos e da guarita dos guarda-vidas, que está vazia.
O restaurador de esculturas Luís Henrique Maia, de 58 anos, ainda não conseguiu ir para a casa que comprou no local. Os planos eram se mudar antes de maio, mas a cheia do Guaíba não permitiu que isso ocorresse.
“Se eu pudesse, não viria morar em Belém Novo. Ocorre que consegui a casa antes da enchente. Toda a vez que chove, fico com receio de inundações. Terei que conviver com esse medo”, confessou o restaurador.