Muito antes de as enchentes de maio de 2024 assolarem o Rio Grande do Sul, o clima no Estado sinalizou adversidade extrema ainda no começo do ano passado. Em 16 de janeiro, há exatamente um ano, uma tempestade severa atingiu as regiões Central, Vales, Metropolitana e a Capital, ocasionando ao menos duas mortes, 12 pessoas feridas, além de inúmeros transtornos à população. Segundo dados da Defesa Civil Estadual, na ocasião, 60 municípios foram diretamente afetados pela ocorrência.
Mais de 1,1 mil ocorrências foram atendidas em todo o Rio Grande do Sul, entre elas, 50 pessoas salvas e mais de 480 árvores danificadas cortadas. 1,1 milhão de consumidores ficaram sem luz e o hospital São Vicente Ferrer, em São Vicente do Sul, teve uma ala destelhada. Diversos trechos de rodovias também ficaram bloqueados. Enquanto isso, Porto Alegre chegou a decretar situação de emergência após ser atingida por ventos de 120 quilômetros por hora, além de 76 milímetros de chuva, de acordo com a Prefeitura.
Três mil árvores caíram e a falta de energia elétrica afetou o abastecimento em 73 bairros, deixando 1,2 milhão de pessoas sem água. Protestos se multiplicaram pela cidade, e inúmeras vias sofreram com os alagamentos. Pessoas correram aos mercados em busca de velas e outros itens para enfrentar a falta de luz. Nem mesmo a edição do dia seguinte do Correio do Povo pôde ser impressa em sua totalidade.
Também de acordo com a Administração Municipal, em 18 de janeiro, 57 unidades de saúde ficaram fechadas e outras 53 funcionavam com restrições. Foram registrados 375 bloqueios de trânsito, e 243 cruzamentos tiveram semáforos desligados por falta de luz. A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) atendeu a mais de 2,6 mil chamados. 56 escolas reportaram algum dano, e 35 ficaram sem energia.
“Tive a impressão que iria morrer”, diz moradora de Porto Alegre afetada
A dona de casa Greice Milena Costa da Silva, moradora da ilha da Pintada, relembra bem do pânico que ela e sua família sentiram na ocasião. “Estava voltando de ônibus de Torres, e havia caído uma placa na Freeway, a rodovia estava toda trancada. A sensação foi horrível, tive a impressão de que o ônibus viraria e a gente ia morrer”, contou ela, que estava com o esposo e dois filhos pequenos, de um e seis anos, dentro do coletivo lotado rumo a Porto Alegre. Greice disse ainda que ficou duas horas no congestionamento na rodovia.
“Todo mundo ficou com medo, ligando para os familiares para ver como estava a situação das casas no momento do temporal”. Quando chegou em casa, já não havia mais energia elétrica ou água. Vidros da janela da cozinha e duas telhas quebraram. “Meu filho maior chorou bastante, e me perguntava se ficaria tudo bem. Meu pai também estava sentado na área da frente, esperando eu chegar”. A família conseguiu reconstruir, porém, na sequência, vieram as cheias da metade do ano, que a fez perder a casa tudo de novo.
Aniversário do temporal de janeiro
Mas a esperança renasceu, na medida em que ela foi contemplada no programa de compra assistida na semana passada. “Vou recomeçar na parte alta de Canoas e saber que nunca mais pegarei enchente e perder minhas coisas”. De acordo com a MetSul Meteorologia, houve um cenário considerado “complexo e pouco comum no verão”, com a passagem de uma área de baixa pressão em níveis médios e altos da atmosfera avançou do Chile para o oeste e o centro da Argentina, e depois para o Uruguai.
Ao mesmo tempo, uma intensa corrente de ar muito quente avançava pelo norte argentino até o Uruguai e o Rio Grande do Sul, fornecendo energia para o clima instável. Isto gerou uma chamada linha de instabilidade, vinda do oeste e sul gaúchos, e que, ao alcançar Porto Alegre, desenvolveu uma célula de tempestade ainda mais violenta. A MetSul ainda observou que tal ocorrência é rara, e que algo igual ou parecido havia sido apenas visto poucas vezes nos dez ou 15 anos antes, e ainda observou que o grande causador dos transtornos na ocasião foi mesmo o vento forte.
Conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o verão finalizado em março de 2024 foi 18% mais chuvoso em Porto Alegre, com 413,2 milímetros de chuva, na comparação com a média sazonal entre os anos de 1991 e 2020, de aproximadamente 350 milímetros. A Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS (Agergs) emitiu relatórios individuais a respeito das atuações da CEEE Equatorial e RGE depois do temporal.
Sobre a RGE, a agência afirma que o restabelecimento completo de todas as unidades consumidoras somente ocorreu 11 dias depois após o início do evento, por volta das 21h de 27 de janeiro, e quanto à CEEE Equatorial, a normalização para 100% dos clientes ocorreu apenas em 28 de janeiro, 12 dias depois de o evento ter iniciado.
Ambas as empresas “não prestaram serviço adequado de distribuição de energia elétrica, no atendimento às ocorrências emergenciais”. Somente a RGE afirma que 164 subestações foram afetadas, e houve 9,8 mil registros relacionados em sua área de concessão. O governador Eduardo Leite, em visitas às sedes de ambas as concessionárias, chegou a dizer que sentia “muito incomodado” com a demora na religação da energia.
O que diz a CEEE Equatorial
A CEEE Equatorial reforça o compromisso com a modernização da rede elétrica e a melhoria contínua dos serviços prestados, especialmente após o evento climático severo ocorrido em 16 de janeiro de 2024.
Frente ao relevante passivo relevante herdado pela estatal, a companhia estruturou um plano de investimento robusto para qualificar a rede e trazer tecnologia, com aporte total de R$2,5 bilhões até dezembro de 2024.
Com investimento de R$ 98,3 milhões, a modernização das subestações da companhia trouxe significativas melhorias na eficiência e segurança do sistema elétrico, ação essencial após os desafios enfrentados devido aos eventos climáticos severos.
Além disso, a instituição reforçou o quadro de profissionais, investiu R$6,5 milhões em agências e inaugurou 9 apenas em 2024. Ainda, modernizou a frota de veículos e equipamentos e investiu nos canais de atendimento com o cliente. Um exemplo é a ampliação de funcionalidades oferecidas pela assistente virtual Clara pelo WhatsApp.
No último ano, de modo preventivo, a CEEE Equatorial realizou 5,5 mil km de inspeções de rede, resultando na correção de 35 mil defeitos, o que reforça o compromisso com a segurança e a confiabilidade do sistema elétrico.
Apenas em Porto Alegre, a Distribuidora investiu em 2024 mais de R$106 milhões em obras na rede de distribuição e substituiu 123,5 km de rede de baixa tensão por condutores isolados, além de implementar 209 novos religadores automáticos e a modernizar 66,4 km de rede de média tensão compacta protegida.
No contexto das contingências, a companhia adotou medidas significativas, como a utilização de subestações móveis quando necessário, o reforço do suporte regionalizado, a presença ativa nos Comitês de Crise da Defesa Civil e o monitoramento em tempo real no Centro de Operações Integradas (COI), assegurando maior eficiência e agilidade na resposta a eventos climáticos extremos.
Para garantir maior segurança e eficiência na interação entre a arborização urbana e a rede elétrica, a CEEE Equatorial mantém fiscalização constante e atua em parceria com órgãos públicos para a realização de podas preventivas.
Com a estimativa de investir mais de R$760 milhões no plano de robustecimento e ampliação da rede em 2025, a CEEE Equatorial reafirma a missão de oferecer um sistema elétrico mais eficiente, sustentável e resiliente, comprometendo-se a melhorar continuamente o atendimento aos clientes e a contribuir para o desenvolvimento das regiões atendidas.