Cidades

Lições e traumas na população marcam um ano do temporal histórico de 16 de janeiro de 2024

Duas pessoas morreram no Estado e, somente em Porto Alegre, 1,2 milhão de pessoas ficaram sem água durante dias

Aniversário do temporal de janeiro
Aniversário do temporal de janeiro Foto : Maria Eduarda Fortes / CP Memória

Muito antes de as enchentes de maio de 2024 assolarem o Rio Grande do Sul, o clima no Estado sinalizou adversidade extrema ainda no começo do ano passado. Em 16 de janeiro, há exatamente um ano, uma tempestade severa atingiu as regiões Central, Vales, Metropolitana e a Capital, ocasionando ao menos duas mortes, 12 pessoas feridas, além de inúmeros transtornos à população. Segundo dados da Defesa Civil Estadual, na ocasião, 60 municípios foram diretamente afetados pela ocorrência.

Mais de 1,1 mil ocorrências foram atendidas em todo o Rio Grande do Sul, entre elas, 50 pessoas salvas e mais de 480 árvores danificadas cortadas. 1,1 milhão de consumidores ficaram sem luz e o hospital São Vicente Ferrer, em São Vicente do Sul, teve uma ala destelhada. Diversos trechos de rodovias também ficaram bloqueados. Enquanto isso, Porto Alegre chegou a decretar situação de emergência após ser atingida por ventos de 120 quilômetros por hora, além de 76 milímetros de chuva, de acordo com a Prefeitura.

Três mil árvores caíram e a falta de energia elétrica afetou o abastecimento em 73 bairros, deixando 1,2 milhão de pessoas sem água. Protestos se multiplicaram pela cidade, e inúmeras vias sofreram com os alagamentos. Pessoas correram aos mercados em busca de velas e outros itens para enfrentar a falta de luz. Nem mesmo a edição do dia seguinte do Correio do Povo pôde ser impressa em sua totalidade.

Também de acordo com a Administração Municipal, em 18 de janeiro, 57 unidades de saúde ficaram fechadas e outras 53 funcionavam com restrições. Foram registrados 375 bloqueios de trânsito, e 243 cruzamentos tiveram semáforos desligados por falta de luz. A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) atendeu a mais de 2,6 mil chamados. 56 escolas reportaram algum dano, e 35 ficaram sem energia.

“Tive a impressão que iria morrer”, diz moradora de Porto Alegre afetada

A dona de casa Greice Milena Costa da Silva, moradora da ilha da Pintada, relembra bem do pânico que ela e sua família sentiram na ocasião. “Estava voltando de ônibus de Torres, e havia caído uma placa na Freeway, a rodovia estava toda trancada. A sensação foi horrível, tive a impressão de que o ônibus viraria e a gente ia morrer”, contou ela, que estava com o esposo e dois filhos pequenos, de um e seis anos, dentro do coletivo lotado rumo a Porto Alegre. Greice disse ainda que ficou duas horas no congestionamento na rodovia.

“Todo mundo ficou com medo, ligando para os familiares para ver como estava a situação das casas no momento do temporal”. Quando chegou em casa, já não havia mais energia elétrica ou água. Vidros da janela da cozinha e duas telhas quebraram. “Meu filho maior chorou bastante, e me perguntava se ficaria tudo bem. Meu pai também estava sentado na área da frente, esperando eu chegar”. A família conseguiu reconstruir, porém, na sequência, vieram as cheias da metade do ano, que a fez perder a casa tudo de novo.

Mas a esperança renasceu, na medida em que ela foi contemplada no programa de compra assistida na semana passada. “Vou recomeçar na parte alta de Canoas e saber que nunca mais pegarei enchente e perder minhas coisas”. De acordo com a MetSul Meteorologia, houve um cenário considerado “complexo e pouco comum no verão”, com a passagem de uma área de baixa pressão em níveis médios e altos da atmosfera avançou do Chile para o oeste e o centro da Argentina, e depois para o Uruguai.

Ao mesmo tempo, uma intensa corrente de ar muito quente avançava pelo norte argentino até o Uruguai e o Rio Grande do Sul, fornecendo energia para o clima instável. Isto gerou uma chamada linha de instabilidade, vinda do oeste e sul gaúchos, e que, ao alcançar Porto Alegre, desenvolveu uma célula de tempestade ainda mais violenta. A MetSul ainda observou que tal ocorrência é rara, e que algo igual ou parecido havia sido apenas visto poucas vezes nos dez ou 15 anos antes, e ainda observou que o grande causador dos transtornos na ocasião foi mesmo o vento forte.

Conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o verão finalizado em março de 2024 foi 18% mais chuvoso em Porto Alegre, com 413,2 milímetros de chuva, na comparação com a média sazonal entre os anos de 1991 e 2020, de aproximadamente 350 milímetros. A Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS (Agergs) emitiu relatórios individuais a respeito das atuações da CEEE Equatorial e RGE depois do temporal.

Sobre a RGE, a agência afirma que o restabelecimento completo de todas as unidades consumidoras somente ocorreu 11 dias depois após o início do evento, por volta das 21h de 27 de janeiro, e quanto à CEEE Equatorial, a normalização para 100% dos clientes ocorreu apenas em 28 de janeiro, 12 dias depois de o evento ter iniciado.

Ambas as empresas “não prestaram serviço adequado de distribuição de energia elétrica, no atendimento às ocorrências emergenciais”. Somente a RGE afirma que 164 subestações foram afetadas, e houve 9,8 mil registros relacionados em sua área de concessão. O governador Eduardo Leite, em visitas às sedes de ambas as concessionárias, chegou a dizer que sentia “muito incomodado” com a demora na religação da energia.

O que diz a CEEE Equatorial

A CEEE Equatorial reforça o compromisso com a modernização da rede elétrica e a melhoria contínua dos serviços prestados, especialmente após o evento climático severo ocorrido em 16 de janeiro de 2024.

Frente ao relevante passivo relevante herdado pela estatal, a companhia estruturou um plano de investimento robusto para qualificar a rede e trazer tecnologia, com aporte total de R$2,5 bilhões até dezembro de 2024.

Com investimento de R$ 98,3 milhões, a modernização das subestações da companhia trouxe significativas melhorias na eficiência e segurança do sistema elétrico, ação essencial após os desafios enfrentados devido aos eventos climáticos severos.

Além disso, a instituição reforçou o quadro de profissionais, investiu R$6,5 milhões em agências e inaugurou 9 apenas em 2024. Ainda, modernizou a frota de veículos e equipamentos e investiu nos canais de atendimento com o cliente. Um exemplo é a ampliação de funcionalidades oferecidas pela assistente virtual Clara pelo WhatsApp.

No último ano, de modo preventivo, a CEEE Equatorial realizou 5,5 mil km de inspeções de rede, resultando na correção de 35 mil defeitos, o que reforça o compromisso com a segurança e a confiabilidade do sistema elétrico.

Apenas em Porto Alegre, a Distribuidora investiu em 2024 mais de R$106 milhões em obras na rede de distribuição e substituiu 123,5 km de rede de baixa tensão por condutores isolados, além de implementar 209 novos religadores automáticos e a modernizar 66,4 km de rede de média tensão compacta protegida.

No contexto das contingências, a companhia adotou medidas significativas, como a utilização de subestações móveis quando necessário, o reforço do suporte regionalizado, a presença ativa nos Comitês de Crise da Defesa Civil e o monitoramento em tempo real no Centro de Operações Integradas (COI), assegurando maior eficiência e agilidade na resposta a eventos climáticos extremos.

Para garantir maior segurança e eficiência na interação entre a arborização urbana e a rede elétrica, a CEEE Equatorial mantém fiscalização constante e atua em parceria com órgãos públicos para a realização de podas preventivas.

Com a estimativa de investir mais de R$760 milhões no plano de robustecimento e ampliação da rede em 2025, a CEEE Equatorial reafirma a missão de oferecer um sistema elétrico mais eficiente, sustentável e resiliente, comprometendo-se a melhorar continuamente o atendimento aos clientes e a contribuir para o desenvolvimento das regiões atendidas.