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Malha ferroviária do RS entrará em leilão com sucateamento de trilhos e redução de linhas

Representantes do setor pontuam inoperância da atual concessionária e do encolhimento da malha ao longo das últimas décadas, e temem falta de investimentos para os próximos anos

A situação do transporte ferroviário foi analisada por especialistas durante o Tá Na Mesa, evento da Federasul
A situação do transporte ferroviário foi analisada por especialistas durante o Tá Na Mesa, evento da Federasul Foto : Camila Cunha

A malha ferroviária do Rio Grande do Sul, que opera com contrato de concessão da empresa Rumo Logística (antiga ALL), vence em 2027. De acordo com o Ministério dos Transportes, o contrato com a concessionária não será renovado, e a malha deverá entrar no leilão de concessões em 2026. O poder público ainda poderá fazer uma contrapartida de recursos. No entanto, entrará na disputa com sucateamento de trilhos e redução de linhas, apontam especialistas do modal. A situação do transporte ferroviário foi analisada por especialistas durante o Tá Na Mesa, evento da Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande Sul (Federasul), nesta quarta-feira, no Palácio do Comércio, em Porto Alegre.

A Malha Sul entrou no Plano Nacional de Desenvolvimento Ferroviário para o final de 2026, e deverá ser fatiada em três corredores. O contrato com a concessionária tem sido alvo de constantes críticas. Além dos investimentos não feitos pela empresa, a retirada de trilhos e o envio para outros estados, como Santa Catarina, também foi fator de reclamações. Atualmente, a malha ferroviária opera em apenas 880 quilômetros de linha, de Cruz Alta a Rio Grande, enquanto no início da concessão eram 3,8 mil quilômetros de trilhos. O traçado do Mercosul, partindo de Uruguaiana, para Argentina e Uruguai já está há mais de 20 anos fechado. Com a enchente, a redução de trilhos e ligações foi ainda maior.

João Edacir Calegari, presidente do Sindicato dos Ferroviários do Rio Grande do Sul (Sindifergs), ressaltou a inoperância da empresa Rumo na manutenção, infraestrutura, maquinário e empregos, deixando de renovar contratos. "O Estado perdeu muito com o transporte ferroviário, e com as enchentes isso foi a pedra, enterrando a nossa ferrovia por estar totalmente desligada do restante da malha ferroviária do Brasil. Não temos ligação nenhuma", pontua.

Entre os principais impactos, Calegari aponta a perda de combustíveis pela Petrobras, que ia de trem para a região Noroeste, que está sendo transportada por caminhões. Ainda, o cimento que deixou de chegar para a fábrica de Esteio, e a Braskem que precisou abrir o calado por meio de hidrovia para seus produtos chegarem para fora.

"A situação é bem caótica e a preocupação é grande", determina. Para ele, separar o contrato de concessão pode dificultar oportunidades de investidores. "A gente vai ter que rever toda essa situação da divisão. Vai aparecer interessados? Essa é uma preocupação muito grande, pelo destino não só da Malha em um todo, mas do que está hoje ainda funcionando", afirma.

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Impactos no Porto de Rio Grande

A importância das ferrovias para os portos, principalmente o Porto de Rio Grande, porta de entrada e saída do Rio Grande do Sul aos negócios internacionais, foi defendida pelo diretor-presidente do Tecon Rio Grande, Paulo Bertinetti. Ele afirma que, desde que a empresa Rumo assumiu a concessão, foram retirados todos os ativos que antes eram utilizados para a fronteira.

Ele apontou os impactos de uma ligação do Porto de Rio Grande a outros locais do Estado por meio do modal, que traria acesso a regiões onde o caminhão não chega, além de provocar menos emissões de gases poluentes e possibilitar volume de cargas maiores. "Fica sem um modal interessante nas suas cargas mais valiosas, que são as conteinerizadas", afirma.

Para o diretor-presidente, a renovação deve ter um novo edital rígido e abranger o necessário para a utilização do modal para o escoamento das cargas, visando um custo mais competitivo frente ao mercado mundial. “Caso não aconteça, cancela. Abre nova licitação, que é melhor do que a gente ficar sofrendo da maneira que o mercado gaúcho está sofrendo”.