A devastação deixada pelas enchentes que deixaram parte da Zona Norte por várias semanas embaixo d’água, afetam, diretamente, tanto os moradores quanto os estabelecimentos. Já com a limpeza das ruas avançada na maior parte da Vila Farrapos e Humaitá, a comunidade busca força para recomeçar.
Na manhã de quarta-feira, nem mesmo a chuva e o frio registrados na Capital foram impeditivos para que centenas de pessoas da Vila Farrapos de buscar apoio. Em um dos centros de apoio montados no bairro, a distribuição de marmitas formou uma fila. Alguns dos moradores nem mesmo tinham um guarda-chuva para se abrigar, porém, para suprir uma das mais básicas necessidades da família, que é comer, tiveram que se expor às adversidades climáticas.
Uma das moradoras que estiveram no local, Vera Lúcia Nigolino, 53 anos, precisou caminhar cerca de 10 minutos. “Eu venho todos os dias para pegar marmita e ficou aqui (na fila) esperando até conseguir. Normalmente é rápido, mas viemos cedo para garantir”, explica.
Apesar da dificuldade, ela relata que é a única solução encontrada para levar comida para casa. “Eu pego todos os dias porque somos cinco pessoas. Vou continuar pegando até eu conseguir um fogão. Tem que enfrentar todos os problemas, pois a gente precisa”, afirma.
O local buscado por Vera é um grande centro de apoio montado pela ONG internacional World Central Kitchen (WCK), com apoio de duas outras organizações brasileiras. Conforme a líder de distribuição, Raquel Farias, a operação inicio no dia 22 de maio e seguirá, com apoio da WCK, até o início de julho. “Começamos com 5 mil marmitas e, no auge da operação, chegamos a produzir a 20 mil por dia. Hoje são distribuídas 6,2 mil”, conta.
Toda a alimentação é produzida por voluntários da WCK. “Tudo é feito em uma cozinha montada no bairro Sarandi, que permanece até o dia 7 de julho. Depois, as ONG’s brasileiras devem dar continuidade. Agora são somente brasileiros, mas para a produção das 20 mil marmitas vieram pessoas de diversos países, já que é uma ONG internacional”, explica Raquel.
Além de auxiliar no Rio Grande do Sul, a ONG também já se fez presentes em outras adversidades enfrentadas pelas populações da Ucrânia e Faixa de Gaza, por exemplo. “Aqui no RS, além de Porto Alegre também estivemos presentes em Eldorado do Sul, São Leopoldo e Guaíba. Já foram distribuídas cestas básicas, mais de 20 mil garrafas de água, entre outros produtos que são necessárias para alimentação”, conclui a voluntária.
MARMITAS SÃO DISTRIBUIDAS PARA MORADORES DA VILA FARRAPOS
Supermercado foi totalmente atingido no Humaitá
Tomado por prédios e condomínios, a situação do bairro Humaitá também segue complicada. O bairro já não tem mais, na maior parte de seu território, acúmulo de entulhos retirados das residenciais atingidas, entretanto, enquanto os moradores ainda buscam se reerguer para poder voltar para casa, os empreendedores também se esforçam para recomeçar.
Em um dos principais supermercados do bairro, a proprietária Rosane Pereira Constante, 54 anos, que ao lado da irmã e sócia busca a retomada. “O nível da água chegou a 1,30 metro. Todos os equipamentos e produtos foram perdidos. Só conseguimos reaproveitar as prateleiras, que precisaram ser limpas”, conta.
Segundo ela, o negócio ainda não tem previsão de retomar as atividades. “Muitos equipamentos tiveram que ser comprados novos. Desde os computadores, até os refrigeradores, fornos e tudo que é necessário”, explica.
O estabelecimento emprega cerca de 45 funcionários e Rosane relata que está se esforçando para poder manter todos os empregos. Em meio às previsões de chuva, o receio de uma nova enchente ainda segue vivo no imaginário, mesmo que a possibilidade seja mínima. “É preocupante, mas espero que não aconteça. Aqui nesse local a água nunca havia chegado”, relata.
Entre as maiores problemas está o fator psicológico dos proprietários, afetados pela situação. Foram 14 anos de trabalho para que o negócio atingisse o patamar em que estava. “É como se a gente estivesse construindo tudo de novo. É muito difícil, mas vamos conseguir”, afirma Rosane.
A empresária pontua, ainda, que os empreendedores têm enfrentado dificuldade para ter acesso aos programas anunciados pelo Governo Federal. “Estamos tentando manter os empregos. A gente deu férias coletivas, fizemos algumas coisas que conseguimos, mas não tivemos acesso a nenhum programa. Fizemos o cadastro e, talvez, para o mês que vem consigamos dinheiro para pagar a folha, mas está tudo muito demorado. Eu só acredito vendo”, conclui.