A água que sai de canos, cuja origem é incerta, na direção de ruas e calçadas em Novo Hamburgo pode representar um alento, mas é preciso atentar aos riscos. Na esteira da falta de abastecimento de água, ocorrida na última semana em razão da enchente, mas que já está praticamente resolvida, ainda moradores do município recorrem a estes locais em busca dela, levando garrafas ou qualquer outro recipiente ao alcance.
Na manhã desta sexta-feira, exatamente uma semana após o começo da crise, Jonas Eduardo Kaieski, desempregado e morador do bairro Boa Vista, foi até uma bica centenária na rua Onze de Junho, bairro Operário, encher algumas bombonas, acompanhado da esposa, Carla Fabiana Scherer. “Não estamos tomando a água que sai da torneira, sempre confiamos nesta. Vínhamos aqui seguidamente quando faltou água”, relatou ele.
Vertendo para a calçada em um encanamento vindo de um matagal próximo, a bica da rua Arthur Haas, bairro Rondônia, está um tanto escondida, porém pode ser acessada facilmente. Ali, o motorista de caminhão Paulo de Oliveira, morador de Sapiranga, aproveitava para colocar água em garrafas enquanto seu colega aguardava. “Faltou um pouco de água em casa, mas logo normalizou. Gostamos de pegar estas águas, pois sabemos que são boas”, disse Oliveira.
A Comusa, companhia de abastecimento de Novo Hamburgo, não respondeu a um pedido de comentário. O professor Marco Alesio Figueiredo Pereira, professor do curso de Engenharia Civil e do Programa de Pós-Graduação em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale, observa que a enchente não alterou a qualidade da água nestes locais públicos. “O que a população chama de bicas na realidade recebe água diretamente dos aquíferos, e não teve contato direto com áreas inundadas. A contaminação, caso exista, ocorre desde sempre. É preciso verificar caso a caso”, comentou ele.
A Universidade Feevale tem uma Central Analítica, com serviços de ensaios de qualidade da água, tanto para consumo, subterrânea, superficial e de efluentes. De qualquer maneira, o Ministério da Saúde indica, por meio de uma cartilha, cuidados com o consumo de água após “desastres ou emergências hidrológicas”. “Algumas doenças podem se propagar facilmente através da água, que pode ter sido contaminada inclusive por esgoto”, afirma o documento.
A cartilha acrescenta que “o consumo de água ou alimentos contaminados pode causar várias doenças, entre elas as doenças diarreicas agudas e surtos de doenças de transmissão hídrica e alimentar. Os casos podem ser leves ou graves e até evoluir para morte”, e, ainda, que é preciso atentar para sintomas após o consumo, como diarreia, vômitos, náuseas, dor abdominal e febre. A recomendação, neste caso, é procurar a unidade de saúde mais próxima imediatamente.