Na placa onde há 12 anos são anunciadas as ofertas, há apenas um espaço vazio. Na calçada e na fachada, tinta fresca já esconde a marca deixada pela enchente. O cheiro do revestimento ainda sendo espalhado no pavimento externo se mistura ao da lama e dos móveis estragados deixados em pilhas nas frentes das casas e comércios. São os contrastes do bairro Sarandi, na Zona Norte de Porto Alegre.
O bairro hoje é o retrato do drama de quem espera a água baixar, contabiliza perdas e se prepara para recomeçar. Onde a enchente já recuou, pessoas entram em suas propriedades a todo instante em busca de algo que tenha sobrado. Não há energia elétrica e em alguns pontos falta até mesmo água para a limpeza das paredes e interior das construções. Ainda assim o povo persiste, nem que seja para jogar fora o que já não serve mais.
“Estou sem luz, o que não perdi em mercadoria com a cheia, estragou sem refrigeração”, conta Tânia Lorenzatto, proprietária do mercado que tenta reerguer na rua Affonso Paulo Feijó. Foi a primeira vez que a água invadiu o estabelecimento, atingindo, conforme as marcas na parede, 1,60m.
Moradores do Bairro Sarandi
A uma quadra dali, a situação é a mesma na rua Senhor do Bom Fim. Do colchão a utensílios de cozinha, uma a uma as referências e conquistas de anos de trabalho vão para a sarjeta, esperando a passagem das equipes do Departamento Municipal de Limpeza Urbana.
Até mesmo vias movimentadas das região hoje estão transformadas em extensões de lixo. A avenida Bernardirno Silveira Amorim, tradicionalmente carregada nos horários de pico, hoje está congestionada por entulhos. Moradores da região, como o vigilante Ramses Carneiro passam os dias a expulsar a lama de dentro de casa. Ele conta que não restou nada na casa que morava com esposa, filho e sogra. “Meu filho trabalhava com informática, acabou… todo o equipamento se foi”, lamenta.
Diante da demanda, 40 homens e mulheres do DMLU estão na região. O mutirão de limpeza já recolheu, desde o último sábado, mais de 90 toneladas de resíduos. Nas ruas secas e com acesso de caminhões e retroescavadeira, também ocorre a raspagem do lodo.
No bairro Sarandi, a equipe conseguiu acesso nas ruas Francisco Pinto da Fontoura, Bento Rosa e Rocco Aloise. Na Vila Elizabeth, foram atendidas vias como as avenidas 21 de Abril, dos Gaúchos e Toledo Piza e as ruas Fábio Carneiro de Lima, Vieira da Silva e Domingos de Abreu.
Ao menos uma das nove bombas de drenagem prometidas para a zona Norte já está em operação. De acordo com o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), o equipamento foi emprestado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).
Os equipamentos têm capacidade para drenar cerca de 2 mil litros de água por segundo, ou seja, 7,2 milhões de litros por hora e prometem aliviar as regiões próximas do aeroporto, Sarandi e do Humaitá.
“Esses equipamentos pesam em torno de 10 toneladas. A Sabesp disponibilizou 18 para o Estado e estão vindo para Canoas e Porto Alegre. As demais bombas devem chegar entre hoje e amanhã e serão instaladas ao longo da semana por técnicos da Sabesp e do Dmae”, explica o diretor-geral Mauricio Loss.