Cidades

Moradores da Vila dos Papeleiros improvisam casas em calçada de avenida de Porto Alegre

Famílias estão dormindo no local há 24 dias

Janaina enviou filhos gêmeos para um abrigo e mantém barraca na calçada para ficar mais perto de casa
Janaina enviou filhos gêmeos para um abrigo e mantém barraca na calçada para ficar mais perto de casa Foto : Fabiano do Amaral

Chovia na região central de Porto Alegre quando a Naiane dos Santos, 41 anos, chegava da ronda diária que faz até a casa, alagada, que deixou na chamada Vila dos Papeleiros. São dez minutos de caminhada para conferir se a água já permite o retorno dela e dos filhos. O chinelo gasto não protege, é incapaz de evitar que os pés fiquem molhados. Após ir e vir sob continua garoa, a roupa inteira está encharcada, mas é o menor dos problemas diante do colchão molhado sobre o qual terá que passar a noite.

Naiane e outras 40 vizinhos estão há 24 dias dormindo em uma calçada da avenida Cristóvão Colombo, quase na esquina com a Ramiro Barcelos. Com lonas amarradas na fachada de três prédios, buscam evitar que a água invada as camas improvisadas. É também uma tentativa de reduzir o frio que predomina na última semana.

“Decidimos ficar aqui para tentar estar mais perto das nossas casas”, explica a recicladora.

Naiane chegou e encontrou a amiga, Janaina Silva Carbonero, 26 anos, tentando, em vão, manter a cobertura plástica esticada. “Precisamos de mais lona”, constatou.

Até que a água na vila dos Papeleiros recue, o grupo pretende seguir naquele ponto da Cristóvão. Para ficar mais perto das moradias, todos recusam a oferta de abrigo feita pela Assistência Social do município. “Priorizamos enviar as crianças para o abrigo”, conta Janaina, que é mãe de duas meninas gêmeas, com sete anos de idade.

“Estamos aqui por necessidade, não por opção. É claro que não queremos viver numa calçada, é até humilhante, as pessoas passam e nos olham de cara feia; só queremos voltar para nossas casas, mesmo que não tenha sobrado nada dentro delas”, afirma Naiane.