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Moradores da Vila Farrapos contam com solidariedade para recomeçar após enchente em Porto Alegre

Alagamentos são recorrentes na região, mas fortes chuvas de maio surpreenderam os moradores

Moradores do bairro Humaitá
Moradores do bairro Humaitá Foto : Pedro Piegas

Os moradores da Vila Farrapos, na zona Norte, estão enfrentando uma dura batalha após a pior enchente da história de Porto Alegre. As ruas, agora cobertas de entulhos, contam uma parte da história da devastação que também assolou a região.

Quem vive no bairro diz que já está acostumado a ver as vias alagadas e reclama das ações do poder público. No entanto, a chuva do dia 3 de maio foi muito mais trágica do que eles poderiam esperar.

Uma opinião unânime entre os moradores é que, se não fosse pela solidariedade e apoio mútuo dentro da comunidade, os desdobramentos da tragédia poderiam ter sido ainda mais catastróficos.

Euclides Camargo é contador e mora há 25 anos no bairro. Ele revelou que ficou apavorado quando abriu a janela e viu a água chegando e aumentando com muita rapidez. "Ah, deu um susto, deu um pavor. Eu vi que a coisa era séria, porque nunca foi assim. Eu não imaginava que ia ser essa proporção. A cada minuto ela subia de um a dois palmos”.

Moradores bairro Humaitá | Foto: Pedro Piegas

Durante a emergência, os vizinhos começaram a se ajudar e muitos moradores foram resgatados em cima de um colchão inflável e levadas para a Arena do Grêmio.

Camargo, a filha, e a sua mãe, de 87 anos, ficaram dois dias no local, que também ficou ilhado devido ao aumento das águas. Eles conseguiram sair de barco e se abrigar na casa de parentes, no bairro Partenon, onde ainda permanecem.

Depois de 27 dias ele voltou para conferir o estado da casa. Móveis, carro, moto ficaram danificados. Agora ele se empenha em limpar e colocar tudo em ordem.

Camargo destaca a importância de medidas preventivas por parte do poder público para evitar tragédias como essa no futuro.

Luiz Mendes e sua esposa, Mara Beatriz, também foram duramente afetados pela enchente. Com exceção de um guarda-roupa de madeira, tudo na casa foi destruído. Mendes expressa sua frustração com a falta de assistência governamental após o desastre.

Apesar de terem se cadastrado no abrigo, que ficaram por um dia, ainda não receberam contato ou qualquer ajuda financeira destinada às vítimas. Eles estão abrigados na casa da família em que a esposa trabalha.

"Eu estou tentando trabalhar na minha cabeça que isso vai passar logo. A emoção bate na gente porque somos seres humanos. Não sou apegado a bens materiais. Para mim, se tiver que ir, vai embora. Mas dói quando tu vê as situações. Tem gente em situação bem pior”, lamentou.

Apesar dos desafios, ele expressa gratidão pela segurança proporcionada por desconhecidos durante a enchente. “ É o povo pelo povo. Deus colocou muitos anjos nas nossas vidas desde quando nós saímos daqui em uma canoa”.

Moradores bairro Humaitá | Foto: Pedro Piegas

Luiz Soares, 64 anos, garante que o bairro está esquecido. A sua casa tem dois andares, mas não foi o suficiente para evitar os danos. Ele revela que sempre procurou colocar o que de melhor poderia ter na sua casa, e se emociona ao contar que muitas coisas precisaram ser colocadas fora e outras estragaram.

“A cozinha caiu toda, despencou tudo”, disse revelando que saiu da casa com a água quase no pescoço e agora está pensando na possibilidade de deixar o bairro que mora desde os seis anos de idade.