"O povo que vai salvar o povo." A frase é dita por um dos socorristas voluntários que trabalham desde a semana passada no salvamento de vítimas da enchente histórica que atinge o Rio Grande do Sul. Depois de perder tudo, com barcos improvisados, sem estrutura e equipamentos, moradores se revezam há dias para resgatar vítimas em Canoas, região metropolitana de Porto Alegre.
A dor comum, mas com a força de se manter vivo, leva homens e mulheres ao fim da Rua Coronel Vicente, onde duas pequenas tendas servem de base para os voluntários, que entram na água, muitas vezes de bermuda, expostos a contaminações diversas. Por trás da força de quem tenta salvar, pessoas que também já foram salvas, como Natalino Rodrigues de Carvalho, que completou 50 anos na quinta-feira.
Ele conta que viveu momentos de desespero no último fim de semana, quando a água chegou ao segundo andar da sua casa. Carvalho foi o último a sair, depois de a mulher e as filhas serem retiradas pelo vizinho da frente. "Eu já estava aliviado, porque sei nadar e os que não sabiam já tinham sido resgatados. Me deu uma alegria misturada com tristeza, porque pensei ‘Agora, se eu morrer, pelo menos vou morrer feliz, porque consegui tirar minha família daqui’", contou Carvalho ao Estadão, antes de subir novamente no barco para ajudar a resgatar animais e levar mantimentos para famílias que se recusam a deixar as casas.
O comerciante Adão Santos conseguiu abrigar 100 pessoas e cerca de 20 cachorros no segundo andar de seu mercado até a chegada do resgate. Na sexta-feira, vestido com uma capa improvisada de saco de lixo, deixou o abrigo em que está alojado com a família para auxiliar nas buscas. "Nesta rua aqui, a gente abaixava a cabeça para não bater na sinaleira", contou, falando sobre a altura da água no início da semana.
O silêncio trágico
Quem se arrisca a enfrentar as águas da enchente encontra uma paisagem totalmente distorcida do que costumava ser a realidade. Árvores altas se assemelham a manguezais, as ruas a igarapés. Ao longo do caminho, é possível ver o teto de diversos carros que foram engolidos pela inundação Móveis e animais mortos se espalham pela água, um enorme silêncio quebrado apenas pelos motores dos barcos de resgate. "Estamos aqui igual bicho, sem ver notícia, sem dormir, para continuar resgatando", resume Cristiane Antunes, com olhos marejados.
A solidariedade que salvou muitas pessoas chega agora aos animais, que são retirados a todo momento das embarcações e encaminhados para um abrigo onde são tratados. Na tenda de apoio, Rosângela Silva anota um a um os endereços de animais de estimação ilhados, ditados por seus donos que agora tentam encontrá-los.
Rosângela está desde o início da tragédia prestando serviço como voluntária. Já viu cenas difíceis, como pessoas chegarem à tenda da Coronel Vicente com hipotermia, separadas de suas famílias, chorando e gritando. "Tem uma amiga minha que não encontrou a irmã dela ainda. A gente deduziu que morreu", contou à reportagem, debaixo de chuva, ontem.
Balanço
Até a noite do sábado, 11, o número de mortes era de 136, mas autoridades têm destacado que os dados são parciais e vão subir. Ao menos 444 dos 497 municípios enfrentam problemas, com 71,3 mil pessoas em abrigos e outras 339,9 mil desalojadas.
Seis regiões do Estado estão em risco hidrológico severo, de acordo com a Defesa Civil, enquanto quase todo os restante está em situação de alerta ou atenção. A exceção é para alguns municípios do extremo sul. Também há preocupação com deslizamentos, especialmente na Serra Gaúcha.
Um dos maiores pontos de preocupação é o entorno da Lagoa dos Patos, no sul do Estado, que está em elevação e abrange Pelotas, Arambaré, Rio Grande e mais municípios, onde algumas áreas receberam recomendação de saída da população. Também voltou a subir o nível do Rio Taquari, na região central do Estado.