Todo o investimento de uma vida inteira de trabalho e esforço transformada em ruínas. A enchente de maio não apenas danificou todos os móveis, roupas e objetos, mas também derrubou casas inteiras no bairro Lami, na Zona Sul de Porto Alegre. Um destes casos é o da moradora Elisângela Deporte Gonçalves. Na manhã de terça-feira ela retornou pela primeira vez à casa em que residia.
Pelo chão batido da avenida Beira Rio, ela e os filhos Kauã, de 7 anos, e Mikaela, de 3, chegaram caminhando ao endereço. Primeiro, observaram a praça em que os pequenos brincavam. Não fossem as goleiras indicando a presença de uma quadra esportiva, as ondas do Guaíba que volta a se elevar, encobririam o local.
Depois, em estado de incredulidade ao relatar, no telefone, a situação para familiares, Elisângela tomou coragem para entrar no pátio. Enquanto desviava dos escombros e segurava a mão dos filhos para que não caíssem, ela observava muitos dos objetos adquiridos com o suor do trabalho e que, naquele momento, eram apenas sucata.
Em meio ao trajeto, um brinquedo da pequena Mikaela foi avistado. “Olha o teu ursinho ali, filha", indicava a mãe. Kauã e Mikaela, enquanto isso, dividiam um pacote de biscoito recheado enquanto assistiam curiosos a mãe adentrar às ruínas do que, um dia, foi o lar da família.
Além do choro inevitável, a agora ex-moradora conta que a visita é apenas por curiosidade, para observar o local. "Já estamos morando de aluguel. Eu não pretendo mais voltar, pois não tem nem como reconstruir. Não deu para aproveitar nada", lamenta.
Moradora retorna para sua casa após enchente
Cenário de destruição
O estado de choque de Elisângela se repete entre milhares de outros moradores da vizinhança. Aproveitando o horário de intervalo para almoço, duas funcionárias de um posto de saúde se deslocaram até o calçadão que costumavam caminhar para ver a situação do local que, hoje, é um retrato da destruição do bairro.
"Acredito que 90% das pessoas que moravam aqui não vão mais voltar. Ainda estavam se recuperando da enchente de setembro e agora acontece de novo", observa a auxiliar de farmácia, Tatiana Aires Rocha, de 41 anos.
Para a colega, a auxiliar administrativa Thássia Azevedo, 31 anos, a saída do bairro é uma realidade. Ela conta que é mais uma das milhares de vítimas que tiveram as casas devastadas. "Estamos na casa de parentes, mas eu não volto mais para cá. Não quero passar por tudo isso de novo", desabafa.
Bairro Guarujá com ruas interditadas devido a subida da agua do Rio Guaiba
Medo de novas inundações
Se em alguns pontos da Zona Sul, como no Lami, o retorno para casa é impraticável, no bairro Guarujá muitos moradores começaram há poucos dias a voltar para casa. Com a elevação do Guaíba neste início de semana, surge o receio de que a região seja atingida por novas inundações.
O servente de pedreiro, José Rodrigues Saraiva, de 60 anos, que teve a casa atingida durante as enchentes e ainda não voltou para o local, esteve na beira do Guaíba para verificar a situação. “Na outra vez pegou na minha casa. Só não perdi tudo porque consegui tirar as coisas antes. Agora existe o receio de que a água volte, porque não baixa (o nível). Vamos esperar normalizar para poder voltar”, explica.
No Guarujá, um trecho da avenida Beira Rio já estava alagado novamente e a via precisou ser interrompida apra trânsito de veículos. Ao final da manhã, Cristiane e Edson Ortega, de 61 e 78 anos, respectivamente, foram até o Guaíba para ver o nível do rio. Em maio a água chegou cerca de 50 centímetros na residência do casal. “Estamos preocupados. Todos os dias ficamos pensando, porque em 42 anos nunca tinha acontecido isso. Agora todas as manhãs viemos para ver como está”, conta a mulher.
Ainda na Zona Sul, apesar de não ter alagamentos, o vento Sul causou ondas no Guaíba. Em alguns pontos, a água chegou a cobrir parte da pista, demandando atenção dos motoristas.