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Para empresários do Centro Histórico, enchente transformou 2024 em um ano de 10 meses

Nesta quarta-feira, completam-se 60 dias da cheia histórica de maio em Porto Alegre; reflexos e desafios seguem presentes na rotina dos porto-alegrenses

Loja de tecidos quase centenária no Centro Histórico passa por um processo de reparos minuciosos para sua reabertura
Loja de tecidos quase centenária no Centro Histórico passa por um processo de reparos minuciosos para sua reabertura Foto : Pedro Piegas

Centro Histórico de Porto Alegre. Dia 60 desde o início da enchente histórica. Para muitos moradores e empresários da capital que sofreram com os estragos do avanço do Guaíba, ainda não é possível contabilizar ao certo os dias e meses. Maio e junho passaram sem ser percebidos, quase como se não tivessem existido. A única sensação de tempo que é notada é a da demora em ver suas vidas retomadas, seja pela reconstrução da casa ou pela reabertura da empresa.

O cenário mudou, mas o drama ainda segue ao longo de Porto Alegre. Onde antes havia água, agora a lama e os entulhos da destruição tomam conta. No Centro Histórico, onde os barcos resgatavam vida, agora os geradores ajudam a buscar a volta da dignidade e da renda para muitos lojistas e funcionários de estabelecimentos comerciais. Além disso, enquanto algumas empresas já voltaram, mesmo que parcialmente, outras ainda enfrentam a dura rotina de limpar e reorganizar tudo.

Este é o caso da loja de tecidos Dabdab, na rua Voluntários da Pátria. Segundo o gerente e funcionário mais antigo da loja quase centenária, Sérgio Martins, os reflexos da enchente de maio seguirão ainda por, no mínimo, mais 15 dias, em função de todo o processo de limpeza e recuperação dos móveis e de materiais de uso diário da empresa, além de todo o aparato de informática, como computador, internet e demais dispositivos.

“Dá para dizer que esses dois meses não existiram. Nós já enfrentamos planos econômicos e perdas com pandemia. Mas a enchente foi algo que jamais imaginávamos. É uma perda material e também uma perda emocional, de um lugar que a gente passa grande parte da vida. E mesmo quando voltar, vai ser difícil. Nós não somos como uma padaria ou uma farmácia, que todos os dias têm demanda. Nós trabalhamos com alfaiates ou aquelas pessoas que fazem suas próprias roupas. Não sabemos até onde a loja vai suportar”, lamentou o gerente.

Fundada em 1925, a loja é uma das mais antigas ainda em funcionamento no Centro Histórico. Entretanto, esta foi a primeira vez que sofreu com enchente. Em 1941, a empresa estava localizada em outro ponto da rua Voluntários da Pátria, um pouco mais alto, onde o Guaíba entrou pouco. Desta vez, Martins aponta que a água atingiu a altura do peito de um adulto, causando estragos incalculáveis dentro da loja.

“A água entrou e criou um efeito de piscina. Tudo foi para cima. Os balcões flutuaram, o tecido foi atingido com aquela água contaminada e com detritos. Alguns dos móveis que resistiram estão até agora pingando água. Nós perdemos praticamente 80% do nosso estoque de tecidos de qualidade, nacionais e importados. Foi uma tragédia. Vai ser difícil recuperar nesse ano”, completou Martins.

No Mercado Público, grande parte das bancas já foram reabertas, mas algumas sofrem com a falta de materiais para retomarem o atendimento. Conforme o relato de alguns permissionários, há dificuldade para conseguirem encontrar os móveis necessários para a recuperação do espaço, mas a intenção dos empresários é reabrir as portas de seus estabelecimentos o quanto antes. Ainda no Centro Histórico, na galeria Sete de Setembro, apenas cinco das quase 20 lojas do térreo já conseguiram reabrir. Destas, a maioria abriu suas portas nos últimos dias.

Segundo proprietários, existe a possibilidade de que muitas das outras lojas sequer voltem à ativa depois da grande enchente. Maio e junho foram meses que não existiram para eles. No local, ainda há sinais claros de que a cidade vive um momento de recuperação, com o som marcante de ferramentas de montagem de móveis e do gerador instalado na saída da galeria que fica na rua Sete de Setembro, além do cheiro de tinta fresca usada para pintar as paredes atingidas pela água.

No início desta semana, depois de quase dois meses, a loja Ishtar, localizada nesta galeria, voltou a reabrir, mesmo que de forma parcial, segundo a proprietária Patrícia Piccinini, que possui outra loja em um shopping de Canoas, que também sofreu com alagamentos. Ela que, desde quando a água atingiu a galeria, só conseguiu voltar a entrar na loja quase 30 dias depois. Assim como na loja de tecidos Dabdab, as perdas foram tanto de móveis como no estoque de roupas.

“A gente até levantou o que deu, mas nunca pensamos que seria assim. Desde junho que a gente veio para cá começar a limpar. Estava tudo podre. Tivemos que fazer uma verdadeira reforma, pois tivemos que refazer quase tudo. Só sobraram duas mesas de metal. Algumas paredes ainda estão molhadas. A gente pintou e continua manchando. A umidade é tanta que só vai sair no verão. Estamos aos poucos montando a loja, mas vamos dar um jeito de abrir de vez para nossos clientes”, contou a empresária.

Em um estabelecimento vizinho, na mesma galeria, a situação está mais próxima de se normalizar. Conforme Jociel Zanotelli, proprietário da Zanotelli Informática, que está na galeria Sete de Setembro há 17 anos, a loja voltou a abrir há cerca de duas semanas, mesmo que ainda de forma parcial, depois de refazer todo o mobiliário da loja, como o balcão de atendimento e estantes de exposição de produtos.

“Foi um período bem complicado. Ficamos até pensando se voltaríamos para cá ou não. Decidimos ficar pois estamos aqui há quase 18 anos. Então tivemos de reestruturar tudo de novo. Estamos voltando gradativamente, colocando materiais aos poucos para deixar tudo pronto e seguir trabalhando. Nesse período não tinha dia. Maio não existiu. E desde junho passamos sábado, domingo e feriado trabalhando direto para limpar e reorganizar tudo”, recordou.

Conforme a prefeitura de Porto Alegre, todos os impactos decorrentes da cheia, desde os que já estão sendo sanados até os que ainda são sentidos no dia a dia dos porto-alegrenses, demandam um valor de mais de R$ 12 bilhões para a reconstrução da Capital. Deste valor, cerca de R$ 6,8 bilhões foram solicitados pela prefeitura ao governo federal para a recuperação de prédios públicos, infraestrutura, canalização, reconstrução de diques, adequações viárias, implantação de novas comportas e perdas de arrecadação.

Somente o impacto da cheia e dos dois meses de retração, em função da economia estar parada, na arrecadação passa de R$ 600 milhões nos próximos 12 meses. Já os cerca de R$ 5,5 bilhões restante de demandas levantadas pela prefeitura foi calculado como investimentos necessários na habitação. O secretário municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade, Germano Bremm, aponta que as ações previstas no Escritório da Reconstrução possuem como objetivo devolver a vida na Capital, principalmente a partir do Centro Histórico.

“O plano de reconstrução quer qualificar esta região, pois entende que o adensamento da população próxima aos eixos geográficos econômicos, como o Centro Histórico e o Quarto Distrito, trará benefícios à cidade. Isso tudo são incentivos para a iniciativa privada seguir apostando no município, tanto a que já está no Centro quanto a que ainda virá investir na região de maior circulação da cidade. O DMAE também é parte deste movimento com a revisão da estrutura de contingência a cheias”, afirmou.