"A água levou tudo", diz Fernando Silva de Deus, 40 anos, agachado dentro de um cano de concreto, tentando se proteger da chuva, na manhã desta segunda-feira, 27, no acesso à Ilha da Pintada junto à BR 116, em Porto Alegre. O pescador referia-se à própria residência, no bairro Arquipélago, na qual vivia com a mulher, dois filhos e o cachorro de pelo malhado chamado Tigre, havia cinco anos.
Além de Silva, outras oito pessoas, a maioria parentes, aguardam a vazante para retornar a moradias que não existem mais, acampadas em barracas montadas entre dois veículos. Uma lona azul cobre o conjunto todo, às margens da rodovia. "Há quatro ou cinco dias, tinha um bebê de 15 dias aqui, nascido na inundação, mas já foi retirado", relata o pescador.
A enchente do Rio Jacuí e do Guaíba também carregou os apetrechos de pesca e dois barcos, mais de R$ 20 mil de prejuízo na contabilidade de Silva. A sogra, Silvia Regina de Medeiros, 60 anos, moradora há mais três décadas na Pintada, repete constantemente o lamento pela cozinha destruída, na qual preparava refeições para vender.
"A água está baixando", diz Silva, tocando com a ponta do pé a correnteza que drena a inundação para o Jacuí. Até o momento, no entanto, não foi possível chegar ao local onde vivia. "Só vindo de barco, do Gasômetro", afirma, apontando em direção à distante margem oposta do Guaíba, que sequer consegue visualizar desde o acampamento.
No mesmo instante, um pequeno caminhão tenta avançar pelo acesso alagado, com dois homens na cabine e três na carroceria descoberta. "Não vão conseguir", prevê Silva. Dito e feito. Menos de cinco minutos depois, o caminhão retorna, de ré, com o motor apagado, empurrado por quatro de seus ocupantes.