O pescador Edson Luis Lopes, morador da Ilha das Flores, foi um dos milhares de atingidos diretamente pela enchente de maio na Capital. Mas o caso dele tem poucos paralelos na atualidade: mesmo depois de quase cinco meses, ele continua, em parte, vivendo em uma barraca improvisada à beira da BR 290, próximo de sua residência regular, que está em reformas. Guardada pela cadela pitbull Branca, a casinha perto da estrada tem água, luz, varal de roupas, cadeado na porta e foi construída, no começo das inundações, em apenas três dias, segundo ele.
“Aqui dentro tem armário, cama, coisas que eu não consigo colocar de volta na casa”, conta ele, tirando um molho de chaves do bolso e abrindo a fechadura. “Este é um espaço provisório”. Situada em um canto à beira do Guaíba, a casa onde ele vive sozinho está ainda bastante destruída pela força das águas de maio, porém Lopes conta que está a reconstruindo. Já providenciou cimento e outros materiais, contando com a ajuda da família para colocá-la de pé novamente.
O retrato mais visível é nas telhas, ainda parcialmente derrubadas. Nos terrenos do entorno, vivem alguns de seus familiares, também dependentes da pesca para o sustento, assim como grande parte dos moradores do Arquipélago. Lopes conta que tem três filhos, dos quais dois ainda moram nas ilhas. A casinha foi um importante ponto de refúgio para ele, assim como uma Kombi, hoje estacionada ao lado, mas que, durante as inundações, ficou sobre o acostamento da estrada federal.
Barracas à beira da BR-290 ainda funcionam como espaços de apoio dos moradores das ilhas de Porto Alegre, cinco meses após enchente histórica
Perguntado se teme que novas chuvas possam fazê-lo retornar a morar na barraca, ele diz acreditar que, da forma como as enchentes históricas vieram, não acontecerá mais. Na mesma via, há outras barracas similares, que, em comum, têm apenas lonas azuis trançadas, funcionando como uma espécie de telhado, entregues por uma organização humanitária estrangeira. “Nem falavam nossa língua. E isto daqui é do tipo que nem se faz no Brasil”, conta ele.
Na mesma Ilha das Flores, porém do outro lado da BR 290, há mais barracas, que antes eram utilizadas como moradia de famílias, porém agora, passado o período crítico das cheias, agora são abrigam animais, a exemplo de vacas, utilizadas por moradores. Conforme a Prefeitura, as enchentes afetaram um total de 6.411 pessoas no Arquipélago, em praticamente toda a extensão geográfica das ilhas.