Cidades

Quilombo dos Machado, na zona norte de Porto Alegre, ganha centro comunitário

O projeto foi idealizado e contou com investimento da organização social TETO Brasil e da companhia aérea Azul

Pelo menos 246 famílias que vivem no local serão beneficiadas com o projeto
Pelo menos 246 famílias que vivem no local serão beneficiadas com o projeto Foto : Fabiano do Amaral

Um centro comunitário irá potencializar as atividades culturais e sociais no Quilombo dos Machado, localizado no bairro Sarandi, zona norte de Porto Alegre. O projeto foi idealizado e contou com investimento da organização social TETO Brasil e da companhia aérea Azul. O espaço, de 72 m², tem com salão, cozinha e lavabo e terá diferentes funções, como reuniões, aulas em contraturno para crianças e distribuição de refeições.

A ação foi possível por meio do Fundo Social de Apoio Humanitário, criado pela companhia aérea junto à Associação Voar como resposta às enchentes, afirma o diretor técnico Azul TecOps da Azul, Plínio Oliveira. “Participar junto com a TETO na entrega de um centro para a comunidade, para nós é sinal de orgulho e de engajamento dos nossos tripulantes”, diz. A companhia também auxiliou na compra de eletrodomésticos, mesas, biodigestor e outros utensílios.

A comunidade, que foi quase pela metade atingida pela enchente em maio de 2024, foi selecionada após a aplicação de um processo de diagnóstico comunitário que inclui mutirões de visitas e aplicação de censos que traçam o perfil e o estágio de vulnerabilização do território. Pelo menos 246 famílias que vivem no local serão beneficiadas com o projeto.

Inauguração do Centro Comunitário no Quilombo dos Machado. | Foto: Fabiano do Amaral

Luis Rogério Machado, conhecido como Jamaika, liderança quilombola, lembra que o Quilombo dos Machado já é uma resistência cultural das comunidades quilombolas, principalmente de Porto Alegre. A comunidade realiza atividades como a capoeira, maculelê, agora o maracatu, além de, diariamente, ter educação quilombola. Com a cozinha, a comunidade buscará fazer comidas típicas e ancestrais, como munguzá, cuscuz e vatapá “Que as nossas nossas mães e avós deixaram para a gente”, diz.

O objetivo é potencializar as atividades da comunidade, principalmente com os quilombos urbanos e, também, conseguir parcerias com organizações para trazer aprendizado aos jovens e levá-los ao mercado de trabalho. Jamaika também quer ter mais reuniões entre outras comunidades quilombolas e as indígenas Kaingang e Guarani. Ele estima que pelo menos 2 mil pessoas, no total, poderão usufruir do espaço.

"É um sonho da comunidade desde a sua retomada. A gente fala em políticas públicas, para quilombolas, que a gente vê que não tem. Mas esse centro é uma grande fortalecimento para que a gente possa correr também atrás das políticas públicas. Um grande avanço, é muito importante assim, para a trajetória e para o bem-viver dos quilombolas e dos entornos também".

A moradora da comunidade Maria Helena dos Santos Mota, de nove anos, auxiliou na instalação dos pilares para segurar a estrutura da casa, a colocar brita, a cavar buraco e a colocar as janelas. Hoje fica admirada ao ver o espaço quase pronto, totalmente diferente do que estava antes. "Cada dia eu estava mais ansiosa para essa construção para ver como que ia ficar", diz, animada.

Inauguração do Centro Comunitário no Quilombo dos Machado. | Foto: Fabiano do Amaral

A escolha do Quilombo dos Machado foi baseada numa pesquisa com dados socioeconômicos do projeto. “A gente aplicou uma enquete com as lideranças, visitou em média 15 comunidades em Porto Alegre e na região metropolitana. Nesse banco de dados de informação, a gente elenca a prioritária, e batemos o martelo na escolha do quilombo”, explica Nataly Augusto, gestora de Operações da TETO no Rio Grande do Sul. A região ser próxima ao aeroporto também foi um critério de escolha.

A obra foi construída em 21 dias e está na finalização. A estimativa é de que, até o dia 10 de agosto, ela esteja 100% entregue. Em algumas etapas, foi contratada mão de obra especializada, mas os voluntários tinham trocas profissionais para também usar as ferramentas. Grande parte foi em conjunto com voluntários da TETO e a comunidade.

O espaço foi construído principalmente com as demandas e prioridades que a comunidade tem”, explica Nataly. “A gente faz o projeto com os moradores. A gente nunca faz para, a gente faz com e eu te falo com toda certeza, se não tivesse a colaboração de cada um que participou aqui, a gente não estaria com esse centro hoje inaugurando”, afirma.

A parceria ainda prevê outro centro comunitário, que será construído em mais uma comunidade igualmente atingida pelas enchentes. A entidade não confirmou se será também em um quilombo.