Troncos, galhos, lixo e até carcaças de animais de grande porte aparecem em meio aos materiais revelados pelo recuo do Guaíba na Zona Sul de Porto Alegre. Desde o fim da chuva, equipes do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) intensificam a limpeza nos locais em que já é possível a realização dos trabalhos.
O diretor-geral do departamento, Carlos Alberto Hundertmarker, explica que desde o final de junho uma operação especial foi montada para a limpeza da cidade. “Montamos uma operação com 90 pessoas e maquinário para retirada dos resíduos. Além de galhos e árvores inteiras, recolhemos parte para reciclagem e levamos madeira à unidade compostagem na Lomba do Pinheiro”, detalha.
Na quarta-feira, mais de 30 profissionais eram vistos em diversos pontos da Orla do Guaíba No bairro Guarujá. Pelo caminho, montanhas de resíduos podiam ser percebidos por quem passava pela região.
Além do lixo habitual trazido pela enchente, a grande quantidade de madeira, desde pequenos galhos até árvores inteiras, atrai atenção especial da população. Em muitos pontos, há quem faça a coleta para cortar e usar como lenha. Entretanto, o uso não é recomendado pela Prefeitura. “A madeira pode estar contaminados e pode haver pregos ou objetos que representam perigo na tentativa de retirada. Nossas equipes que fazem o recolhimento estão acompanhadas de fiscais e técnicos de segurança. Não é seguro que a população retire por conta própria” afirma Hundertmarker.
GARIS DO DMLU RETIRAM ENTULHOS DO GUAIBA
Segundo o diretor-geral, o DMLU já recolheu mais de 100 toneladas de resíduos, incluindo animais de grande porte. “Já encontramos uma vaca, porcos e, na quarta-feira, retiramos duas vacas. Mas o que chama a atenção, mesmo, é a grande quantidade de madeira”, acrescenta. Segundo ele, também se espera pelo recuo das águas em outras regiões, como as ilhas de Porto Alegre, para que o trabalho se estenda pelos outros pontos da cidade.
Enquanto as equipes trabalham na limpeza das áreas, mesmo com a água recuando, pontos como o cruzamento da avenida Guaíba com a rua dos Tapuias e com a avenida Guarujá ainda apresentam alagamentos que causam bloqueios no trânsito.
BAIRRO GUARUJÁ ALAGADO E COM MUITAS CASAS Á VENDA
Enchentes impactam o mercado imobiliário
Na Zona Sul, os impactos vão além da camada visível de lama, dos alagamentos e detritos. O mercado imobiliário também carrega marcas das enchentes que castigam a região desde o ano passado. Por diversos pontos, principalmente nas áreas mais próximas da Orla, chama atenção a grande quantidade de placas de “vende-se” e “aluga-se”.
Dados do Sindicato da Habitação do Rio Grande do Sul (Secovi-RS) mostram que o número de imóveis ofertados aumentou em praticamente todos os bairros, na comparação do mesmo período do ano passado, enquanto as vendas caíram.
Entre junho de 2023 e maio de 2024, 1.900 imóveis foram vendidos, na soma dos bairros Ipanema, Guarujá, Tristeza, Vila ssunção, Vila Conceição e Cristal. Já entre junho de 2023 e maio de 2024, o número diminuiu para 1.793.
Ao mesmo tempo, o número de imóveis ofertados nos mesmos bairros, que somava 1.322 em abril de 2024, saltou para 1.579 em maio do ano passado. Em maio deste ano, a oferta ainda estava em 1.364.
A economista do Secovi-RS, Lucineli Martins explica que em regiões atingidas, houve modificações consideráveis nos negócios, tanto em locações quanto vendas. “Muitos que tinham condições financeiras optaram por sair do bairro, mas também houve muitos que, por opção ou pela condição financeira, ficaram”, relata.
Segundo Lucineli, também houve quem precisasse tirar o imóvel de oferta para poder reformar. “Nem todos conseguiram disponibilizar novamente para venda ainda, visto que, pela grande procura de materiais de construção e mão de obra na época, ficou bem caro reformar”, acrescenta.
Além disso, a economista destaca que, quem tinha condições e optou por permanecer nos bairros, teve motivos como a proximidade do trabalho, a proximidade com a família, o costume com as rotinas e com o comércio local. “Eles apenas migraram para imóveis em andar superior, mas permaneceu no bairro ou nas proximidades”, conclui.
Água recua, mas mantém o drama na Vila dos Sargentos
O drama de passar por mais uma enchente também é perceptível na Vila dos Sargentos, no bairro Serraria. Com o Guaíba recuando na quarta-feira, moradores visitavam suas residências para verificar se já era a hora de voltar.
A diarista Milene dos Santos Monteiro, 40 anos, levou suas coisas para a casa da manhã durante o período de maior ameaça, com receio de que a tragédia do ano passado pudesse se repetir. “Tirei todas as minhas coisas, principalmente geladeira, fogão e coisas mais caras, e levei para a casa da minha irmã. No ano passado eu perdi tudo e agora não posso arriscar de novo, afirma.
MORADOR DA VILA DOS SARGENTOS MOSTRA A SUBIDA DA AGUA EM SUA RUA
O vigilante e técnico em informática Sandro Bassedone, 45 anos, conta que já organizou móveis e carro preventivamente. “Aparentemente a água está baixando, mas eu já reirei as coisas do primeiro andar e coloquei tudo para cima com antecedência. E o carro já está pronto, se precisar sair”, explica.
Ele lembra que cresceu no bairro e que tinha visto o Guaíba avançar, no máximo, até a rua, o que se repetiu nos últimos dias. “Como em 2024, eu nunca tinha visto nada parecido. A cada ano parece que a situação piora. Eu não pretendo ficar aqui, vou me mudar para outro local”, conta.
Áreas de lazer permanecem alagadas no Lami e Belém Novo
No Extremo Sul da Capital, a Praça do Veludo, no bairro Belém Novo, continua tomada pelas águas. A área que, no verão, costuma ficar tomada por veranistas, virou parte do Guaíba desde a semana passada.
O aposentado José Silveira da Rocha, de 66 anos, diz que monitora o cenário diariamente. “Baixou um pouco na quarta-feira, mas ainda é a segunda maior cheia que eu acompanho em mais de 60 anos. Ano passado me apavorei, porque passou da rua e atingiu as casas, neste ano, quando começou a subir o Guaíba, a população se apavorou”, relata.
Ele reforça que muitos moradores vão até o local para observar o corpo d’água. Muitos que tinham saído de casa retornaram brevemente para acompanhar o recuo, mas ainda não sentem segurança para retornar às atividades normais.
Já no bairro Lami, a situação é semelhante à visualizada nos últimos dias. No início da semana a água chegou ao nível da rua, forçada pelas ondas causadas pelo vento Sul, mas recuaram entre terça e quarta-feira. O principal drama do bairro está na rua Beco do Pontal, que permanece alagada desde o final de semana, com moradores ainda fora de casa e com trânsito interrompido.
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