A água que já havia recuado nos últimos dias voltou a invadir as ruas na região das Ilhas, mas muitas pessoas escolhem permanecer em casa – segundo relatos, parte pelo medo de saques, ou porque ainda aguardam processo do programa Compra Assistida, do governo federal. Na rua do Pescador, na Ilha das Flores, é o caso de Maria Celoi, de 56 anos. Próximo da sua casa, a água já está quase na altura dos joelhos, avançando para o seu pátio. Ela aguarda para ver se vai entrar nos cômodos. “Vou ficar em casa. A não ser que entre bastante dentro de casa, aí não tenho onde dormir. Mas é um ponto bem alto. Desta vez, graças a Deus não (entrou)”, afirma. Ela justifica sua escolha: “Aqui é mais seguro do que qualquer outro lugar. Prefiro ficar dentro da água do que passar por outros problemas”.
Na sua vizinhança, quase não há mais morador algum. “Não tem ninguém aqui, todo mundo saiu. Já ganhou casa. Só eu que estou esperando”, diz. Ela afirmou que foi quatro vezes ao Departamento Municipal de Habitação (Demhab) para verificar a situação do seu processo para conseguir sua casa por meio do Compra Assistida, e só na última vez foi encontrado problemas com a documentação, “Não falaram antes por quê? Agora de novo mais uma enchente, mais água”, diz. Maria, que vende salgados, mas está há mais de uma semana sem conseguir trabalhar. “Estou parada, vivendo só do Bolsa Família. Mas dá para viver só do Bolsa Família? Não dá”.
Na mesma rua, mais à frente, Angelino Mota dos Santos, 64 anos, relata que está dormindo no porão de sua casa, onde a água não chegou. Ela fica nos fundos do terreno, a 450 metros do rio, onde a água já chega à altura da cintura. Ele mora no local há 61 anos, e também aguarda o processo de Compra Assistida para sair de casa. “Vivi minha vida toda aqui”, diz.
No mesmo local, sua irmã, que é cadeirante, e seu cunhado, pretendem sair e ir a Nova Tramandaí, mas também passando pela análise do Compra Assistida. “Eu não queria sair. Nasci na ilha, estou acostumado com a água. Sempre deu enchente, eu nasci no meio da água. Mas estou indo por causa dela”, diz Maurício Santos, o cunhado.
Moradores seguem acampando na BR 290
Quem passa pela BR 290, próximo à Ilha do Pavão, percebe diversas barracas com lona azul montadas, habitadas por moradores da região. Em três barracas, uma família composta por seis pessoas da ilha do Pavão está acampada entre a BR 290 e BR 116. Um dos moradores, que não quis ser identificado, conta que, desde que perdeu sua casa pela enchente, estava vivendo em uma barraca próximo dali. No entanto, os alagamentos dos últimos dias expulsaram novamente o morador de onde morava. Ele aguarda o processo de Compra Assistida, mas ainda não conseguiu nada.
Segundo a Defesa Civil, o abrigo na Arena KTO acolhe 83 famílias, sendo 23 da Ilha da Pintada, seis da Ilha do Pavão, cinco da Ilha dos Marinheiros e duas da Ilha das Flores.
O vento deve represar por mais dias a água. A previsão do órgão é que haja vento de oeste durante toda essa terça-feira, com algumas rajadas que podem superar 40 km/h, principalmente no período da tarde. Durante a madrugada de quarta-feira os ventos ficam de noroeste e ao longo do dia de amanhã os ventos sopram de sul/sudeste, na tarde e noite.
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