Ainda que não tenha chegado à cota de inundação, o nível do Guaíba, que já atinge 2,83 metros, conforme a última medição no Cais Mauá, traz alagamentos para diversos pontos na região das Ilhas, no bairro Arquipélago, em Porto Alegre. De acordo com a Defesa Civil municipal, ainda não há orientação de evacuação, apenas auxílio para aquelas pessoas que sentirem necessidade de sair de suas casas.
Desde sexta-feira, já foram resgatadas 51 pessoas da região. Nesta manhã, foram duas famílias, no total nove pessoas. Porém, muitos moradores decidiram permanecer nas residências, principalmente porque não querem ir para os abrigos e, também, por medo de saques. Na Ilha das Flores, moradores são resgatados pelo Exército nesta segunda-feira, enquanto outros desalojados acampam na BR 290, assim como na enchente do ano passado.
Moradores são resgatados pelo Exército na Ilha das Flores
Com a água invadindo as ruas na Ilha das Flores, a 3ª Região Militar do Exército Brasileiro realizou ação de remoção de duas famílias nesta manhã. Uma delas foi Silvia Inês, que está indo com suas filhas, netos, cachorros e gatos para Viamão. "Consegui minha casa com a Compra Assistida, tinha ficado aqui por conta dos meus cachorros. Mas peguei minhas coisas para levar todo mundo", conta. Ela morava na rua dos Pescadores, que já está toda alagada.
Silvia Regina do Couto, de 64 anos, vai com sua filha Maiara Regina do Couto, de 25 anos, para o bairro Santa Tereza. Ela sente alívio por poder estar saindo, mas triste por todo o sofrimento que passou, pois ficou com sequelas psicológicas por conta das últimas enchentes. "Estou começando a ficar doente da água", diz.
"Estou pegando o básico, já que a outra enchente levou tudo", conta Naira do Couto, 43 anos, que também está sendo resgatada. “Não tenho forças e psicológico para enfrentar uma nova enchente. É cada vez pior, não tem mais como ficar aqui”.
Na rua do Pescador, ao lado do quilômetro 101 da BR 290, o acesso para veículos terrestres já está bloqueado. Ana Cristina Gonçalves, moradora da rua, observa o avanço da água na via, que ainda não atingiu sua casa e seu armazém. Há mais de 20 anos vivendo ali, conta que já presenciou incontáveis enchentes, sendo quase uma por ano, e começou a tomar medicação por conta da ansiedade desde a enchente do ano passado. Nos fundos da sua casa, as águas já invadem as outras casas mais baixas e chega na altura da cintura. Moradores da área não estão mais ali. "A gente não sabe mais como vai ser, porque sabemos que a água sempre vai subir", lamenta.
"Sou obrigada a ficar aqui, porque não tenho opção. Ou saio e perco tudo", ela diz. Ana conta que chegou a ser contemplada pelo programa Compra Assistida, mas não conseguiu indenização do seu armazém. Decidiu ficar. "Querem que eu entregue tudo, mas vou viver como?", questiona.
Na mesma rua, próximo dali, um grupo de pessoas do Comitê de Moradores da Ilha das Flores está montando uma tenda para distribuir alimentos, cobertores e ração para animais afetados pela enchente e lonas. Janice dos Santos, de 31 anos, uma das organizadoras da ação, disse que, enquanto as outras regiões das Ilhas recebem atenção do governo, a Ilha das Flores é "sempre esquecida".
"Ficamos sabendo que não querem distribuir lonas para que as pessoas vão para o abrigo. Mas tem muita gente que foi para o abrigo ano passado e sofreu muito, e agora não querem ir. Tem muitas coisas que ganharam, compraram, e não querem abandonar, porque sabem que podem roubar e levar embora", relata.
Moradores da Ilha do Pavão acampam na BR 290
Assim como na enchente de 2024, moradores afetados pela cheia voltam a acampar a BR 290, próximo ao Centro de Treinamento Marina Navegantes São João, com lonas, em meio ao vento gelado e temperatura baixa. Entre eles, está a família de Eduarda Carvalho, de 17 anos, moradora da rua A na Ilha do Pavão. Ela passou essa noite em uma barraca com seu marido, seu filho de 1 ano e três meses, sua prima e sua irmã mais nova. “Fiquei esperando pra ver se a água ia subir ou descer. A gente estava cuidando porque não tem como a gente sair e deixar nossas coisas”. Como a água subiu, a família está indo ao bairro Sarandi, na casa da mãe de Eduarda.
Outra pessoa acampada é Rogério, que não quis ter seu sobrenome identificado. Morador da rua C na Ilha do Pavão, ele está há quatro dias na barraca, também dormindo em uma van. Mas relata que não tem conseguido dormir. “Tem muitas pessoas que moram lá no fundo, com muitos filhos, que não conseguem ser contempladas com o Compra Assistida. Fica esse empurra-empurra entre o governador e o DemHab”, diz.
A Ilha do Pavão conta com diversos acessos bloqueados, como na entrada da Unidade de Saúde da região. A sede do Grêmio Náutico União também apresenta alagamentos desde esse domingo.
Na Ilha da Pintada, que chegou à cota de inundação na sexta-feira, a rua Nossa Senhora da Boa Viagem é a mais afetada pelo aumento do nível do Guaíba. Ao lado da Colônia de Pescadores Z-5, o acesso já está bloqueado, e conta com a presença da Brigada Militar. Na avenida Presidente Vargas, a partir do número 1.100, a água já ocupa toda a via, também com acesso bloqueado. Um homem que mora mais ou ao fundo da rua disse que pretende continuar em casa. "Cresci minha vida toda nesse lugar", justifica. Ele mora na Ilha há 71 anos. Outro morador, da rua Mauá, afirmou que a água está atingindo os portões das casas, mas pretende ficar. "Estamos acostumados com essas enchentes", afirma.
“Ontem fizemos uma operação em conjunto com a Marinha, da Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, com uma varredura no braço norte da Ilha dos Marinheiros”, relata Tiago Belinski, coordenador de redução de riscos da Defesa Civil. Ele informa que, por mais que tenha água na região, a situação está controlada, e as moradias estão com água e luz. Serão entregues cestas básicas pelo órgão para as famílias afetadas. Nesta terça-feira, as equipes estão monitorando a Ilha da Pintada.
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