Cidades

Rios e arroios de Porto Alegre e Região Metropolitana começam a sentir os efeitos da estiagem

Além do nível mais baixo, o lixo acumulado preocupa, enquanto a natureza busca conviver com a poluição e companhias de água negam risco de desabastecimento

Em Nova Santa Rita, pescadores já falam que rio dos Sinos está mais baixo do que o habitual, prejudicando a atividade
Em Nova Santa Rita, pescadores já falam que rio dos Sinos está mais baixo do que o habitual, prejudicando a atividade Foto : Camila Cunha

A falta de chuvas na Região Metropolitana e Vales tem causado preocupação a pescadores e demais trabalhadores que dependem do rio cheio para suas atividades. Imagens divulgadas nesta semana pelo técnico Sérgio Volkmer na Plataforma de Mapas e Imagens de Satélite Soar mostram que apenas a bacia do Rio Gravataí já sofre com os efeitos da estiagem, embora outras também estejam sendo prejudicadas, e veem os níveis cada vez mais baixos. Um contraste gritante frente ao último inverno, quando as enchentes históricas assolavam os mesmos locais no Rio Grande do Sul. Sinos, Jacuí e Guaíba também estão sendo observados, e no Sinos e Gravataí, as informações sobre as medições são atualizadas e divulgadas diariamente.

Em Porto Alegre, apesar dos bancos de areia, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) afirma que nível do principal curso d’água da Capital está muito acima do considerado crítico. Conforme o sistema da Agência Nacional de Águas (ANA), o nível nesta terça-feira foi de 1,24 metro na Usina do Gasômetro, e este tipo de dificuldade somente apareceria caso a medição fosse de 40 centímetros. A última vez em que o Guaíba baixou de um metro foi em 25 de novembro de 2024, com 99 centímetros. “Não há nenhuma restrição à captação de água no Guaíba para tratamento e fornecimento à população”, informou a assessoria do Dmae.

As recentes reclamações de moradores da Zona Norte de sujeira ou faltas pontuais no abastecimento, também segundo o órgão, não têm relação com a falta de chuva em si. No Rio dos Sinos, a situação é de alerta, mas também não há risco de desabastecimento. As medições da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), com data de referência da última segunda-feira, apontavam 1,50 metro no Serviço Municipal de Água e Esgotos (Semae) de São Leopoldo, com o mínimo de 50 centímetros. Na captação da Corsan, em Campo Bom, a situação estava mais preocupante.

A cota era de 1,28 metro, sendo que o estado de alerta pode ser acionado em valores abaixo de 1,20 metro, algo que foi atingido ao menos uma vez neste ano, no último dia 25 de janeiro. Caso um dos valores atinja as marcas mínimas, as captações para irrigação são suspensas. A Comusa (Serviços de Água e Esgoto de Novo Hamburgo) alertou para o consumo consciente da população, mas, de acordo com o diretor-geral da companhia, Paulo Kopschina, “não há qualquer possibilidade de desabastecimento de água no município”. A companhia comentou que o calor extremo faz alguns reservatórios secar, deixando as áreas mais afastadas da rede com baixa pressão e por vezes desabastecidas.

No bairro Berto Círio, em Nova Santa Rita, o pescador Jair Carlos de Oliveira Martins já percebe o rio mais baixo. Agora com sua embarcação estragada, ele não pesca no local, mas se dirige a Montenegro, a uma hora e meia de distância, para a pescaria da família. “Lá o rio é mais limpo, até dá para tomar água diretamente”, conta ele, pai de 11 filhos, dos quais dois ainda moram com ele e a esposa.

No rio Jacuí, a cota em Rio Pardo era de 1,31 metro, com o nível reduzindo 70 centímetros por hora, e em Dona Francisca, de 89 centímetros, com uma redução de 20 centímetros por hora, porém com tendência de estabilidade. No rio Gravataí, a situação é de alerta, com a captação da Corsan no município de Gravataí com o nível em 70 centímetros e, em Alvorada, 1,32 metro.

Com as medições menores do que 50 centímetros ou 1,30 metro, respectivamente, a condição é considerada crítica, algo já atingido nos últimos dias 29 e 30 de janeiro. Por enquanto, o alerta faz com que as captações superficiais para irrigação sejam intermitentes, conforme portaria da Sema. A situação faz com que empresários tenham que navegar pelo rio com os navios areeiros somente com meia carga. Funcionário de um comércio de materiais de construção à beira do Gravataí em Cachoeirinha, Felipe Fernando diz que, com isso, os custos para os clientes aumentam.

Educação ambiental é a chave, diz Comitê Gravatahy

“O problema todo é com o lixo. Acho até que o poder público faz bastante coisa, em Porto Alegre e Cachoeirinha têm ecobarreiras, porém as pessoas insistem em jogar entulhos no arroio Feijó. Já estamos acostumados com essa situação nesse período”, comentou ele. O ideal é o canal ter três metros de profundidade, porém, neste momento, está com dois metros no local.

Uma plataforma de descida de barcos na chamada Praça do Ecoturismo está praticamente inoperante, com o final dela a cerca de um metro acima do rio. Mesmo assim, aves e alguns peixes ainda estão pelo local. O mesmo ocorre no Feijó, que, apesar da poluição, tem a presença de diversas tartarugas no trecho da divisa entre Porto Alegre e Alvorada. Para o presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí (Comitê Gravatahy), Sérgio Cardoso, é preciso investir em educação ambiental e cidadã.

“Isto tudo dentro de uma lógica de responsabilidade coletiva. Esta situação mostra o quanto nós, enquanto sociedade, precisamos evoluir. Os municípios têm coleta regular, porém as pessoas descartam irregularmente e isto não precisaria estar no arroio”, comentou ele. Para Cardoso, os R$ 2,5 bilhões previstos pelo governo federal, por meio do Fundo de Apoio à Requalificação e Recuperação de Infraestruturas devido a Eventos Climáticos Extremos, para obras em diques de Porto Alegre e Alvorada, podem ajudar inclusive a minimizar o problema.