Três meses depois do início das enchentes históricas no Rio Grande do Sul, a autônoma Angelita Cardoso Vieira se emocionou na manhã desta segunda-feira ao relembrar de sua gatinha, China, morta durante a tormenta. Agora, a moradora da Vila Nova Brasília, bairro Sarandi, um dos bairros mais atingidos pela água em Porto Alegre, só quer uma nova companheira. “Todo dia eu choro por causa dela. Encontrei dentro de casa, inteirinha. Chamei ela na hora de sair e não tive resposta”, comentou ela, sem esconder a emoção. Seguem entulhos nas calçadas em muitos pontos da região.
A água chegou neste ponto, bem próximo ao dique do bairro, a cerca de quatro metros de altura, conforme demonstram as diversas marcas d’água ainda presentes. Quando a inundação começou, Angelita conta que retirou de casa itens como toalha de banho, documentos e remédios, além da mãe e o irmão, que, por sua vez, ainda auxiliou vizinhos. “Nessa hora, se larga tudo, casa, roupa, objetos. Perdi tudo, lãs da minha confecção e tudo o que imaginar, desde uma colherinha até o papel higiênico”, lamentou ela.
Após um mês do começo da inundação, Angelita conseguiu voltar para casa, na rua José Huberto Bronca, encontrando um cenário desolador. Com o pouco restante, ela e os demais familiares se mudaram para o apartamento do filho, na avenida Baltazar de Oliveira Garcia. “Nossa situação é medonha, é uma coisa que nunca íamos imaginar que vai acontecer conosco. Não sabemos se há um culpado, quem ajudar, ajudou, aceitamos o que vem”.
Situação do entorno do dique do Sarandi
Ela diz temer inclusive consumir a água do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) que sai da torneira. “Ninguém nos avisa se ela está boa, então estou tomando a água que vem de doações. Estamos sem água, gás, todos doentes, resfriados, precisávamos de pessoas que nos trouxessem remédios”, pede a moradora. Os poucos donativos para os moradores desta área, segundo ela, vêm de uma ONG, que reduziu as entregas. “Eles não estão dando conta”.
Procurado, o Dmae disse que “toda a água distribuída em Porto Alegre está de acordo com os controles e garantias de potabilidade”. “O produto que chega às residências é próprio para o consumo humano, conforme diretrizes estabelecidas nacionalmente pelos órgãos reguladores do setor de saneamento”, afirmou o órgão, acrescentando que faz, em média, 2,4 mil coletas diárias para análise da água, “tanto nas Estações de Bombeamento de Água (Ebabs), onde acontece a captação, quanto nas Estações de Tratamento de Água (ETAs), onde começa a distribuição”.
Enquanto Angelita fala, aponta para a situação do dique, que está em obras de recomposição, e onde antes da enchente havia 37 famílias, removidas pela Prefeitura no contexto das cheias. A maioria está na casa de amigos e parentes. Segundo o Departamento Municipal de Habitação (Demhab), todas vão receber R$ 127 mil de Bônus-Moradia, mas, até lá, o benefício da Estadia Solidária. A promessa foi feita no final de maio pela Secretaria Municipal de Habitação e Regularização Fundiária (SMHARF), que alegou que as residências haviam sido construídas irregularmente.
Já o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) disse que, desde o começo da tormenta, já recolheu mais de 96 mil toneladas de resíduos das ruas de Porto Alegre, e que não há um quantitativo por região. Para situações específicas de recolhimento, o órgão orientou o encaminhamento do pedido via 156, opção 1 do menu,“Enchente POA”, e, em seguida, “Limpeza Pós-enchente”.
Associação dos Atingidos pela Enchente do Bairro Sarandi distribui água potável aos moradores
Associação de afetados pela enchente entrega donativos no Sarandi
Não distante dali, na rua Faria Lobato, segue a distribuição de água mineral, cestas básicas e mantas em um galpão alugado pela Associação dos Atingidos pela Enchente do Bairro Sarandi, criada após a inundação e composta por seis voluntários. As doações provêm de locais do RS menos atingidos ou outros estados. “Tínhamos tudo, inclusive água sempre à vontade. No começo, eram 135 fichas por dia, depois foram caindo e agora são 50”, conta a desempregada Ana Karina Michel, uma das que perderam tudo na enchente e, mesmo assim, se voluntariaram para a associação.
O motivo da queda gradual, segundo Ana Karina, é a redução nos donativos. “Ontem chegou um caminhão e pudemos retomar. Até então, não tínhamos mais nada. Temos que lutar e ter voz. A gente está aqui porque quer ajudar todo mundo. Eu tenho fibromialgia, podia estar em casa, dormindo, mas estou aqui”, afirma ela, dizendo que haverá uma audiência pública no próximo dia 7 para colocar em pauta as reivindicações do grupo.
Ana, cujo filho integra as 37 famílias retiradas do dique, diz acreditar que ainda há muito o que ser feito no Sarandi. “Tem muita gente ainda precisando de água e comida, principalmente, mas há quem já fez estoques dentro de casa e parece que o mundo vai acabar. E tem gente que não precisa e está pegando”, resume ela, dizendo não haver tumultos. A aposentada Silvia Regina da Rosa disse que há um mês não retirava materiais, porém agora precisou novamente. “Estou me virando como posso e consigo. Isto aqui é muito importante para que possamos nos reerguer”, afirmou ela.
Procurada, a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMDS) afirmou que realiza ações pontuais, nos finais de semana, nas áreas mais atingidas pela enchente. A pasta disse ainda que, nos dias 20 e 21 de julho, entregou 2,1 mil cestas básicas, kits limpeza e higiene para famílias do Sarandi, na região da Vila Nova Brasília, e que aguarda novas remessas de cestas básicas por parte dos governos estadual e federal para retomar entregas pontuais nas entidades.