Cidades

Sem escolas nem postos de saúde, população mira espectro do abandono na Vila Farrapos

Cerca de 30 mil pessoas vivem em situação de precariedade após dilúvio na zona Norte

Escola de Educação Infantil João Paulo II foi destruída por enchente
Escola de Educação Infantil João Paulo II foi destruída por enchente Foto : Camila Cunha

Todas as escolas e creches na Vila Farrapos, na zona Norte de Porto Alegre, estão com as portas fechadas. Ali, também não há unidades básicas de saúde em funcionamento. As instituições acumulam escombros, lodo extravasado de bueiros e marcas da água suja, que ultrapassou dois metros na região. A falta dos serviços completou dois meses nesta quarta-feira e, como se não bastasse, não há previsão para retomada das atividades.

A Vila Farrapos soma uma população de 30 mil moradores que, sem exceções, foram atingidos por chuvas e enchentes. Após a perda de residências, veículos e móveis, a falta de assistência em áreas elementares é mais um obstáculo para a recuperação da comunidade.

A localidade soma 11 estabelecimentos, entre creches e escolas. Apenas duas instituições estaduais de ensino fundamental, sendo as escolas Carlos Fagundes de Mello e Danilo Antônio Zaffari, oferecem aulas de forma remota. Para as crianças pequenas, a única opção é ficar em parte do segundo piso da Creche Obra Social Santa Luiza.

A Escola de Educação Infantil João Paulo II, rua Frederico Mentz, atendia mais de 100 crianças. O estabelecimento completou 43 anos no final de junho, entretanto, não motivos para comemorar. O portãozinho de entrada foi completamente destruído pela força da água, que também inutilizou toda a mobília, banheiros, equipamentos, colchões, colchonetes e brinquedos que estavam no interior do local. Os poucos itens que restaram, foram alvo de furtos.

Natália Kampke, de 68 anos, é funcionária da instituição desde os anos 1980. Ela conta que, desde a enchente, os pais não têm onde deixar as crianças, sendo obrigados a faltar trabalho para cuidar dos filhos. Além disso, a escolinha era o único local que oferecia alimentação completa aos pequenos.

“As famílias não conseguem se reerguer porque, com os filhos em casa, os pais ficam impedidos de sair para trabalhar. É um ciclo que impede a recuperação financeira dos moradores da Vila Farrapos. Somado a isso, nossa escola era o único local que oferecia refeições completas, como arroz e feijão, para as crianças. Muitas delas só têm pão para comer fora daqui”, alertou a funcionária.

Crises sanitárias também atingem a Vila Farrapos. As duas unidades de saúde são a Mário Quintana e a Farrapos, ambas com atividades suspensas. A única opção dos moradores é recorrer a um posto avançado, erguido na Praça Sesi, no entorno da avenida Frederico Mentz, ou buscar a unidade móvel estacionada no CTG Vaqueanos da Tradição, no bairro vizinho Humaitá.

O empresário Jader Lewis, de 38 anos, alerta que o serviço de saúde disponível é insuficiente para os 30 mil moradores da Vila Farrapos. Ele coordena um grupo de voluntários, que se dividem em automóveis e percorrem a região, distribuindo medicamentos e itens essenciais para quem perdeu tudo.

“O posto de saúde que foi montado é apenas uma tenda, que não tem capacidade para atender os milhares de moradores da Vila Farrapos. As pessoas estão desassistidas e passando mal. Na maior parte dos casos, os pacientes são apenas reencaminhados e precisam se deslocar para outras unidades na Capital”, lamentou o empresário.