Cidades

Setembro amarelo e o voluntariado que salva vidas: “Cada vez que o telefone toca, uma história vai se descortinar”

Conheça vozes que acolhem e salvam por meio do CVV

Adriana é voluntária no CVV desde 2013
Adriana é voluntária no CVV desde 2013 Foto : Ubiratan Júnior/CP

O acolhimento e a empatia salvam vidas. Nos últimos 10 anos, assim que setembro se aproxima, essas duas palavras ganham força nas redes sociais e nas rodas de amigos. O motivo é a conhecida campanha “Setembro Amarelo”, que acontece no Brasil desde 2015 e que tem como objetivo conscientizar para os cuidados com a saúde mental e também a prevenção ao suicídio. Contudo, existem ações e quem trabalha durante o ano inteiro em prol dessas causas.

Uma das formas de fazer a diferença na valorização da vida é por meio do voluntariado, que pode ser uma forma de ajudar ao próximo. Em 2013, Adriana, atualmente com 66 anos, estava prestes a se aposentar quando conheceu o Centro de Valorização da Vida (CVV) por meio de um jornal. “Li uma matéria sobre o CVV, que iriam começar um curso. Então pensei: ‘Nunca fiz trabalho voluntário, vou fazer esse curso para aprender e conhecer’. Então me apaixonei pelo CVV”, conta.

Quem precisa de apoio emocional pode procurar pelo serviço do CVV pelo telefone 188, 24 horas por dia e sem custo de ligação, ou também por chat, e-mail e pessoalmente em algumas localidades, embora não seja o caso da capital gaúcha. Conforme o CVV, por intermédio desses canais são realizados mais de 2,7 milhões de atendimentos por ano.

São cerca de 3, 3 mil voluntários, presentes em 20 estados e no Distrito Federal. Entre eles, Adriana, que pode ter apenas o primeiro nome divulgado. Para ela, esse “é um tipo de voluntariado diferente”.

“Cada vez que o telefone toca é uma vida, uma história que vai se descortinar ali, então é totalmente diferente”, comenta a voluntária, que destaca que o treinamento de quem faz essa ação é constante. “A gente nunca sabe o que vem, então temos que estar preparados”, destaca.

Desde que começou o voluntariado, além do plantão semanal de 3 horas em ligações, que é o permitido pelo CVV, Adriana também acumula outras funções, tendo em vista que disponibiliza de tempo, entre elas, é a responsável pela mantenedora do CVV em Porto Alegre.

“Eu sempre digo que o trabalho voluntário por ser voluntário, ele tem que trazer uma gratificação para a pessoa, senão a pessoa não fica. Ninguém trabalha de graça por uma coisa que não está gostando de fazer, né? Então o trabalho do voluntário tem que dar esse prazer. E o CVV dá isso”, afirma Adriana sobre a sua escolha de acolher e ajudar a salvar vidas por meio do voluntariado.

Ela descreve como gratificante a sensação de atender uma ligação e fazer a diferença na vida de uma pessoa que até então nem sabia que existia. “A gente se gratifica muito ao atender a ligação, uma pessoa chorando e dizendo que não tem outra saída na vida e no final ela sai sorrindo”, detalha Adriana.

Para Adriana, não há satisfação maior do que ajudar quem precisa por meio do CVV | Foto: Ubiratan Júnior/CP

“Não tem gratificação melhor do que essa, saber que conseguiu ajudar um ser humano. Que aquele ser humano se sentiu acolhido, se sentiu compreendido”, completa.

Essa satisfação também é sentida pelo voluntário Oro. “A gente percebe no término daquela ligação que a gente realmente conseguiu ajudar uma pessoa. Então isso já transforma o nosso dia”, relata.

De acordo com ele, os voluntários vão percebendo na ligação a mudança nas pessoas que procuram ajuda por meio de uma escuta empática e sem julgamentos.

“A gente realmente percebe como a pessoa chega, se pela respiração dela está muito eufórica ou coisa assim, ou até os casos mais drásticos que a pessoa realmente já liga e já está chorando muito, já gritando muito. Ao longo da nossa conversa com a pessoa, do nosso acolhimento, ela vai se acalmando, respirando um pouco mais, de forma mais cadenciada”, observa Oro.

Ele começou no voluntariado ainda em meio à pandemia, em 2020. “Estava todo mundo confinado e tudo mais. Foi o desejo de ajudar as pessoas, de realmente saber que existia essa instituição, que já fazia esse apoio emocional”, conta ele sobre a sua motivação para ingressar no CVV.

Além disso, Oro garante que sempre foi muito comunicativo e também sempre gostou de ouvir as pessoas. Ele preferiu não revelar sua profissão nem outros detalhes, como a idade.

Quem procura o CVV

No primeiro semestre de 2025, o CVV recebeu 1,2 milhões de ligações, destas quase 1 milhão foram atendidas, segundo relatório do instituto divulgado em agosto. No mesmo período do ano passado, foram 1,5 milhões de chamadas via 188, com 1,2 milhões sendo atendidas. No total, em 2024, foram 2.487.059 ligações, uma média de 7 mil por dia.

Embora o CVV tenha como principal foco a prevenção ao suicídio, Oro conta que o maior desafio dos voluntários é sempre a próxima ligação. “A gente não sabe o que vai vir ali, qual vai ser o conteúdo que vai nos trazer, quais são os sentimentos que aquela pessoa vai nos trazer”, observa.

De acordo com ele, além das pessoas com ideação suicida, também existem outros tipos de procuras. “Seja uma pessoa que chega, chorando, desesperada, com uma crise de ansiedade, uma crise de pânico, alguma coisa assim, a gente acolhe ela. Pode até ser uma pessoa que não está em algum nível de sofrimento tão grande, mas liga para contar o seu dia, porque isso acontece também”, exemplifica o voluntário.

Oro ainda revela outras situações em que as pessoas buscam apoio no CVV. “Tem a pessoa que brigou com a namorada ou namorado, a que está tomando algum tipo de remédio, tem vários tipos de casos. Cada pessoa é uma pessoa, cada caso é um caso, e normalmente os que ligam é porque estão com algum tipo de sofrimento”.

“Outra coisa que a gente costuma falar também é que não existem níveis de sofrimento maiores ou menores. A gente busca validar, busca compreender todos os sofrimentos”, pontua.

Adriana complementa contando que há pessoas que procuram pelo serviço apenas pela necessidade de serem ouvidas. “Tem a procura pela escuta. As pessoas solitárias, idosos muito solitários ligam muito. Então a gente diz que esse é o nosso trabalho de prevenção mesmo, para que essa pessoa não chegue a daqui a pouco pensar em suicídio por causa disso, dessa dificuldade de se comunicar com outras pessoas”.

Oro enfatiza que os voluntários estão preparados para uma escuta ativa, com acolhimento e sem julgamentos, independentemente do motivo da procura pelo CVV. Os dois voluntários garantem que conforme o andamento das conversas, as equipes que atendem a população orientam a busca pela ajuda profissional, seja no particular ou por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

Eles reforçam que o voluntariado permite ajudar o próximo por meio da valorização da vida e que a sensação de saber que fez a diferença para aquelas pessoas é muito gratificante.

Como ser voluntário

Para ser voluntário do CVV é preciso passar por um treinamento que dura cerca de três meses. De acordo com Adriana, em Porto Alegre, a abertura de turmas ocorre duas vezes por ano: uma em março e outra em agosto. A segunda ainda está em andamento. Contudo, com a tecnologia é possível fazer os cursos on-line disponibilizados por outros municípios e estados.

Além do curso preparatório e da disponibilidade de tempo para os atendimentos, que podem ser feitos de forma remota, o único critério é ter mais de 18 anos.

“Fazer o curso, o treinamento para ser voluntário do CVV, é uma coisa muito interessante. A gente aprende muita coisa nesse sentido de compreensão do outro, de respeito, de não interferência na vida das pessoas. De não julgar, de não criticar. Serve para nossa vida toda, melhorar nossos relacionamentos, melhorar nossa vida profissional”, afirma Adriana.

Interessados podem acessar o site do CVV, neste link. Depois escolha a modalidade do atendimento pretendido:

  • por voz via telefone (presencial em alguma unidade do CVV próxima de você ou de forma remota, de qualquer local do país);
  • junto à sociedade (participação em palestras, rodas de conversas e outras ações);
  • ou por chat ( com atendimentos via e-mail).

Em seguida, você preenche seus dados e aguarda retorno da equipe para fazer os treinamentos, conforme disponibilidade de cursos abertos, presencial ou on-line. Os encontros são semanais.

Brechó solidário

Em seu site, o CVV afirma que o serviço de apoio emocional acontece por meio dos seus voluntários, porém sem fonte financeira pública ou privada para garantir a sua infraestrutura e divulgação. De acordo com a instituição, os recursos são oriundos de doações dos próprios voluntários, de outras entidades ou empresas. Veja neste link como ajudar.

No caso da sede de Porto Alegre, além das doações, o CVV realiza ações por meio da sua mantenedora, atualmente sob gestão da Adriana, para arrecadar fundos e manter a sede que fica Rua José de Alencar, 414, sala 205, no bairro Menino Deus.

Para isso, um brechó funciona todas as tardes, de segunda a sexta-feira, das 13 às 17 horas, também na Rua José de Alencar, porém no número 1668. Nos sábados, o local funciona das 9h às 13h.

“Aceitamos doações [de roupas] também e eu digo sempre que o brechó é um trabalho social, porque além de manter manter o CVV de Porto Alegre, a gente tira muitas senhoras que estão em casa sem fazer nada, voluntárias, que muitas vezes não são voluntárias do telefone porque não se adaptaram, não conseguiram, mas vão ser voluntárias lá do brechó”, destaca Adriana.

Para a gestora da mantenedora do CVV, além de arrecadar fundos para a prestação de serviço na capital gaúcha, o brechó tem uma função social. “A gente vende roupas muito boas, roupas de qualidade, por um precinho bem pequenininho porque a gente ganha tudo. Então também é um trabalho social para as pessoas de baixa renda poderem comprar roupas boas por um preço pequeno”, finaliza.

Você precisa de ajuda?

O CVV funciona todos os dias 24 horas. Se você precisa de ajuda pode ligar gratuitamente para 188. Não é necessário se identificar. Você será atendido por um voluntário do serviço de acolhimento emocional. A ligação também não tem limitação de tempo.

CVV funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana pelo 188; ligação é gratuita | Foto: Ubiratan Júnior/CP

Se preferir, pode conversar via chat, por meio deste link. Ou ainda através do e-mail apoioemocional@cvv.org.br. Contudo, nessas modalidades há horários de atendimento:

  • Domingos: 15h às 00h
  • Segundas-feiras: 08h às 00h
  • Terças-feiras: 08h às 00h
  • Quartas-feiras: 08h às 00h
  • Quintas-feiras: 08h às 00h
  • Sextas-feiras: 13h às 00h
  • Sábados: 13h às 00h

O CVV

O CVV começou as atividades em 1962, com o primeiro plantão realizado em São Paulo. Em 1971, o primeiro posto fora da capital paulista foi em Porto Alegre. Desde então o serviço se expandiu pelo país. A associação civil sem fins lucrativos e filantrópica é reconhecida como Utilidade Pública Federal desde 1973.

Em seu site, a organização se descreve como “um serviço voluntário gratuito de apoio emocional e prevenção ao suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato”.