Qual é o seu passatempo em um dia de semana qualquer por volta das 20h? E, no mesmo horário, o que você imagina que alguém com mais de 80 anos esteja fazendo? Engana-se quem respondeu atividades domésticas, como assistir televisão ou ler um livro. Terezinha Clair de Oliveira, no auge de seus 82 anos, prova que é possível manter-se ativa e com saúde. Clair, como gosta de ser chamada, joga vôlei todas as segundas-feiras em uma quadra da zona Norte de Porto Alegre com seu grupo de amigas. “É a minha paixão. Eu vivo disso. É a minha terapia”, resume a jogadora.
Levantadora do time, ela revela que pratica o esporte desde 1993, quando ingressou no Lindóia Tênis Clube. Animada, joga com entusiasmo e dedicação, correndo atrás de todas as bolas e colocando as atacantes em boas condições para finalizar as jogadas. “Foi difícil até eu conseguir entrar, mas consegui. Com garra e com vontade, fui indo até chegar aqui”, lembra.
Aos 82 anos, ela se sente bem e exala saúde em quadra. O segredo, em suas palavras, é não parar. “O meu lema é: ‘Se eu paro, eu penso. E se eu penso, eu choro’. Então eu tenho que estar sempre com a mente a mil. Não posso parar”, afirma.
Luana Midon, 40 anos, é uma das colegas de time de Clair. Ela explica que é a mais nova do grupo de vôlei, que conta com cerca de 15 mulheres e existe há aproximadamente 10 anos. Para Luana, ver Clair — a mais velha do grupo — jogar é uma inspiração. “É um orgulho. Eu, com 40 anos, reclamo dos meus joelhos. Ela, com 82, não reclama”, brinca.
O grupo se reúne para jogar todas as segundas-feiras às 19h30min, durante duas horas. Quando Clair desanima, é Luana quem incentiva sua presença. “Às vezes ela ainda fica no grupo de WhatsApp dizendo: ‘Ah, não quero, ninguém vai querer’. E eu digo: ‘Não, tu vai!’. Porque a gente só pode desistir no dia em que não puder mais. Ao contrário disso, a gente tem que estar aqui”, afirma.
Exemplo de vitalidade
Clair é moradora do bairro São Sebastião, na zona Norte de Porto Alegre. Ela tem três filhas — Lia de Oliveira, 48 anos; Claudia de Oliveira, 49; e Andréia de Oliveira, 53 —, quatro netos — Bruno, 26 anos; Guilherme, 15; Pedro, 13; e Felipe, 15 — e uma bisneta, Ana Luísa, de 4 anos.
Durante a maior parte da vida, Clair foi casada e dona de casa. Também trabalhou em alguns empregos no comércio, o que lhe garantiu a aposentadoria. A grande mudança veio quando, aos 47 anos, ela se separou do pai de suas filhas, que foi morar em Santa Catarina.
“Então a mãe entrou em depressão, porque ficou sozinha. Ela teve que arrumar um emprego. Aí uma tia minha falou: ‘Quem sabe tu te associa ao Clube Lindóia? Vai lá, tem um monte de esporte para ti’. Minha tia matriculou ela no vôlei. E ali ela conheceu uma turma superamiga que está até hoje com ela. Então, assim, a terapia dela foi o vôlei”, conta Lia.
Atualmente, Clair mora com Claudia e o neto Felipe. Além do vôlei, também faz academia todos os dias. As filhas se orgulham ao afirmar que a mãe não possui problemas graves de saúde e não precisa tomar medicações contínuas.
“A saúde dela é muito boa. Para ter uma ideia, o pai dela morreu em 2007, com 100 anos e três dias. E a mãe dela morreu com 102 anos, quase três anos atrás”, revela Lia.
A vitalidade de Clair impressiona a todos, especialmente as filhas. “Esses tempos uma amiga minha falou: ‘Nossa, Lia, encontrei a tua mãe no shopping. Ela caminha rápido. A minha mãe não caminha metade disso e tem metade da idade da tua mãe’”, lembra.
Na família, os netos são os xodós da avó. “Acredita que ela joga futebol com os netos? Joga taco, se atira no mar, na areia com eles. É incrível o que ela faz”, conta.
A caçula Claudia também demonstra orgulho ao falar da mãe. “Eu sinto muito orgulho de ela fazer isso. E ela nos incentiva também a praticar esporte”, afirma.
Moradora de Venâncio Aires, no Vale do Rio Pardo, a filha mais velha, Andréia, faz questão de ressaltar que o talento de Clair em quadra também já foi visto fora de Porto Alegre. “Das filhas, eu sou a única que jogo vôlei também. Sou fanática. Ela já veio aqui em Venâncio Aires jogar contra o meu time”, relembra.
Assinante fiel
Além de jogadora de vôlei, Terezinha Clair de Oliveira é leitora antiga do jornal Correio do Povo. Assinante desde 2005, começou a acompanhar o jornal muito antes, influenciada pelo pai, Florêncio, já falecido. No dia da visita da reportagem, Lia e Claudia receberam a equipe muito empolgadas do lado de fora da quadra. A ideia era fazer uma surpresa para a mãe, que não sabia que seria entrevistada.
“Ela faz as cruzadinhas todos os dias. Às vezes eu não levo o Correio e ela fala: ‘Cadê o Correio? Eu preciso ver as respostas do dia anterior’. ‘Mas mãe, eu botei fora’. ‘Não se põe fora o Correio’”, revela Lia. “Mesmo com a tecnologia, ela não muda: tem que ter o jornal dela. Todo dia de manhã, às sete e meia, ela está lá com o cafezinho, comendo pão e lendo o jornal. Às vezes eu chego lá e ela diz: ‘Olha o que aconteceu aqui’. Ela vem mostrar o que saiu no Correio”, conta Claudia.
Ao saber que a reportagem seria sobre sua história, Clair abriu um sorriso e foi muito festejada por todos. Emocionada, ela contou um pouco sobre sua relação com o jornal. “Meu pai assinava. Aí ele faleceu e eu continuei assinando. Tenho paixão pelo Correio do Povo. Todo santo dia eu estou lá: ‘Cadê meu jornal?’. Faço palavras cruzadas a vida toda”, afirma.
No dia 24 de fevereiro, Clair completou 82 anos. Esta reportagem celebra sua trajetória e vitalidade. No dia da visita, o grupo de vôlei também organizou uma festa surpresa para comemorar mais um ano de vida daquela que inspira a todas dentro e fora da quadra.