Economia

Analistas veem mundo ‘mergulhando na incerteza’

Após anúncios de Trump, mercados asiáticos “derreteram” até 13%. Índices europeus e americanos também cederam

Perdas globais afetam investimentos e valor de mercado de empresas
Perdas globais afetam investimentos e valor de mercado de empresas Foto : Hector RETAMAL / AFP / CP

As bolsas asiáticas terminaram seus pregões com tombos históricos e arrastaram mercados do mundo todo para o vermelho. O “derretimento” foi provocado pela promessa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifa adicional de 50% sobre a China caso Pequim não reverta o aumento de 34% sobre as importações norte-americanas. A decisão chinesa foi uma retaliação às tarifas anunciadas pela Casa Branca na semana anterior. Hong Kong despencou mais de 13% e o índice Nikkei, de Tóquio, caiu 7,8% nesta segunda-feira. Ainda que não tenha chegado a declínios tão grandes, a Europa também registrou recordes de perdas na região depois de os Estados Unidos terem anunciado taxas de 20% para a União Europeia.

O DAX, principal índice da bolsa de Frankfurt, cedeu 4,26%. Em Paris o CAC 40 caiu 4,78% e, em Madri, o Ibex 35 recuou 5,12%, resultado semelhante às perdas de 5,18% em Milão. Em dias considerados “normais” as baixas não costumam superar 1% ou no máximo 2%. Em território americano a tensão também tomou conta dos players, embora no fechamento as baixas tenham desacelerado. O Dow Jones caiu 0,91% e o S&P 500 declinou 0,23%. O Nasdaq não chegou a cair e mostrou leve alta de 0,10%.

Os três principais índices de Wall Street tinham anotado seu pior desempenho na semana passada desde o auge da crise da Covid-19. Ainda que as baixas no final do dia tenham sido moderadas em Nova Iorque nesta segunda, para determinadas empresas o prejuízo é visível. O preço da ação da Apple perdeu 13,6%, e o valor de mercado encolheu 443,5 bilhões de dólares. Os produtos da Apple em sua maioria são montados na China, que vive a guerra de tarifas com os Estados Unidos. Para o economista Martin Kirsten, especializado em macroeconomia e mercados financeiros, o investidor ainda está assimilando os acontecimentos. Entretanto, assinala, já é possível observar que se impõe um freio na dinâmica de comércio global. “Isso acaba sendo inflacionário para os países que começam a, talvez, produzir mais nacionalmente itens que antes conseguiam importados e mais baratos”, enfatiza. “Pode significar que talvez o Federal Reserve precise subir mais juros e que essa alta de juros supostamente possa vir a gerar uma recessão nos Estados Unidos”, acrescenta. O calendário desta semana nos Estados Unidos inclui atualizações sobre o índice de preços ao consumidor no país, assim como resultados do JPMorgan Chase e de outros grandes bancos americanos.

Kirsten explica que quando os negócios com ações ficam no vermelho no mercado financeiro, há uma aversão ao risco e esses negócios desencadeiam no investidor uma necessidade de migrar seus ativos em bolsas, que é um mercado muito volátil, para ativos mais seguros, como por exemplo títulos do governo.

“Estamos vendo uma corrida por títulos do governo americano”, enfatiza. São essas mudanças na postura do investidor que também explicam os resultados negativos nas bolsas, já que os negócios com ações ficam em segundo plano quando o ambiente é considerado mais difícil. “Isso tudo tem um grande impacto global”, conclui Kirsten.

Donald Trump mergulhou o comércio internacional em uma grande incerteza. Empresas cujo negócio envolve exportar bens para os Estados Unidos simplesmente não sabem se terão condições de manter as suas atividades. A análise é de Oscar Berg, professor de Teorias da Democracia na Universidade Laval em Quebec, Canadá, e doutorando em Ciência Política na Universidade do Quebec em Montreal. A indústria automobilística, avalia Berg, “ilustra bem as múltiplas dificuldades do tarifaço”. A administração Trump anunciou uma taxa de 25% para a importação de automóveis no início de abril, inclusive aqueles fabricados no Canadá e no México, países com os quais os EUA têm acordo de livre-comércio. “No entanto, as cadeias de produção entre os três países são tão integradas que o sonho de uma produção completamente ‘made in America’ é pouco realista”, observa.

E foi no setor de automóveis que se viram quedas expressivas nas bolsas americanas. A Tesla caiu 2,56%, para 233,29 dólares o valor da ação, e já são 10 semanas de perdas em 11. O preço recorde de fechamento da ação da fabricante de veículos elétricos foi registrado em dezembro do ano passado: 479,86 dólares, de acordo com a agência de notícias AFP.

As ações do setor bancário operaram de forma mista, depois de despencarem na semana anterior, quando o segmento registrou a pior queda no acumulado de dois dias desde março de 2020. O JPMorgan Chase subiu 1,98% e o Morgan Stanley caiu 1,09%, enquanto o Goldman Sachs caiu 1,13%. “As tarifas alimentaram o medo de uma possível recessão, o que provavelmente levaria a uma redução na demanda por empréstimos e mais inadimplência”, disse Gene Goldman, diretor de Investimentos do gestor de Patrimônio do Cetera Financial Group.

OS NÚMEROS DESTA QUARTA-FEIRA

Os mercados asiáticos, que estiveram parcialmente fechados na sexta-feira, viveram uma segunda-feira de caos. Hong Kong despencou mais de 13% e o índice Nikkei de Tóquio caiu 7,8%.

Nos Estados Unidos, em Nova Iorque, nas primeiras operações do dia o Dow Jones chegou a perder 2,85%, mas a queda ficou menos intensa no fechamento.

Os mercados europeus mantiveram a tendência de sexta-feira e fecharam em baixa. Paris perdeu 4,78%, Frankfurt caiu 4,13% e Londres declinou 4,64%. Em Madri o Ibex-35 recuou 4,76% e a bolsa de Milão se desvalorizou em 5,18%.

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