Gestores de recursos internacionais já alteram suas estratégias de investimentos no Brasil, a partir da taxação de 2% para o capital externo. Consultados na Europa pela Agência Estado, eles avaliam que os ADRs roubarão novos fluxos da bolsa brasileira e que os recursos para a entrada em novos IPOs virão prioritariamente da venda de ações que já estão na carteira, o que pressiona o Ibovespa.
"Os ADRs passarão a embutir um prêmio de 2% imediatamente", afirmou Lionel Bernard, administrador para a América Latina da Crédit Agricole Asset Management, em Paris. "Será criada uma arbitragem entre Nova York e o mercado local com base na nova taxação."
O novo Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) tem repercussão negativa especialmente entre os gestores de ações no exterior, que não contavam com a medida, aplicada à renda fixa e variável. O anúncio, feito nesta última segunda-feira, 19, em São Paulo pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, gerou até correria em casas internacionais para a adaptação à nova regra.
Um gestor explicou que a criação do imposto traz problemas para a definição do valor das cotas dos fundos. Se a gestora permite que um novo investidor entre na carteira hoje sem o pagamento de taxa adicional, acaba diluindo os demais participantes. Daí a necessidade de acertar essas questões hoje logo cedo.
Apesar da avaliação generalizada de que a medida não terá eficácia para conter a valorização do real no médio prazo, especialistas dizem que o fluxo de recursos novos para o mercado de ações brasileiro tende a ser afetado. "Para o dinheiro novo terá impacto, o investidor vai pensar duas vezes antes de entrar", disse o diretor de um banco em Londres, que preferiu não ser identificado.
No caso dos IPOs, a opção será vender ações que já estão em carteira no mercado interno para fazer caixa e participar de novas ofertas. Conforme o diretor, isso é negativo porque pressiona os papéis e o Ibovespa. "Provavelmente, não deixaria de entrar nos IPOs, mas farei troca de ações internamente para não pagar o imposto", disse Bernard, do Crédit Agricole.
Para os investidores que querem trazer novos recursos ao País, a estratégia terá de ser de longo prazo, afirmou Henry Stipp, estrategista para emergentes do Threadneedle Investments, em Londres. "Isso aumenta as incertezas e será preciso fazer hedge."
Na avaliação de um executivo financeiro, o ganho acumulado de quase 80% pelo Ibovespa neste ano dá motivo para realizações de lucro no curto prazo, em decorrência do novo IOF, apesar da percepção positiva sobre o País no exterior. Ele lembra, aliás, que esta não é uma taxação "de crise", quando a falta de confiança na própria moeda leva à imposição de barreiras para conter a fuga de capitais. Ao contrário, é reflexo da boa avaliação a respeito do Brasil.
A volatilidade a ser gerada pelo anúncio, a falta de eficácia para conter o real e os questionamentos sobre a credibilidade do governo são as principais reclamações dos investidores estrangeiros na Europa.
"Fica um coloca e tira, coloca e tira que não é bom", afirmou um gestor, referindo-se ao IOF criado no ano passado para as operações de renda fixa que foi retirado meses depois.
Eles também mencionam a tendência de desvalorização internacional do dólar, incapaz de ser contida pela taxação. Stipp, do Threadneedle, questiona a ausência de operações de swap pelo Banco Central, juntamente com as intervenções no mercado à vista, o que poderia ter melhor efeito para tentar suavizar a volatilidade cambial - embora não consiga conter o real. "Não adianta lutar contra a fraqueza do dólar e tentar remar contra a maré porque a pressão está em todas as moedas."
Para Tom Levinson, estrategista de câmbio do ING, o novo imposto pode apenas atrasar o "inevitável movimento" para abaixo de R$ 1,70.
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