Dólar fecha a sexta-feira em alta, em R$ 5,21
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Dólar fecha a sexta-feira em alta, em R$ 5,21

Bolsa terminou o dia em baixa de 2%, mas acumulou ganho de 8,27% em julho

Por
AE

No ano, a moeda norte-americana sobe 30% ante o real


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O dólar fechou a sexta-feira em alta, cotado em R$ 5,2170, mas terminou julho acumulando queda de 4,03%. Foi o maior recuo mensal do ano, superando a queda de 1,8% de maio.

Diferente de outros períodos, onde o real foi a moeda que mais se enfraqueceu no mercado internacional, este mês a divisa brasileira teve desempenho melhor que a maioria de seus pares. O enfraquecimento do dólar no exterior, para os menores níveis desde 2018, teve peso determinante. No mercado doméstico, o ambiente político menos tenso e o andamento da reforma tributária, que anima os investidores sobre o avanço de outras reformas, ajudaram o real a se destacar. A entrada de recursos externos para as várias ofertas de ações de julho também ajudou, especialmente em um momento de saída de capital de aplicações de renda fixa e variável.

O dólar chegou a encostar em R$ 5,40 este mês, mas com o enfraquecimento da moeda americana ganhando força, a pressão no câmbio aqui também se reduziu. Entre outros emergentes, o dólar caiu 3,2% no México, subiu 1,9% na Turquia e recuou 1,7% na África do Sul. No ano, porém, a moeda norte-americana sobe 30% ante o real, 17% no México e 22% ante o rand sul-africano.

A elevada liquidez no mercado financeiro mundial, a percepção de que a retomada econômica dos Estados Unidos será mais lenta e a aprovação de um fundo de recuperação bilionário europeu, com a região crescendo mais que outras, estão por trás da desvalorização do dólar, ressalta a diretora de moedas da BK Asset Management, Kathy Lien. Ante o franco suíço, a moeda dos EUA caiu ao menor nível em 5 anos e ante o euro, em dois anos.

No caso do real, o analista do Canadian Imperial Bank of Commerce (CIBC), Luis Hurtado, ressalta que o avanço da reforma tributária, com o governo entregando sua proposta ao Congresso, contribuiu para o desempenho positivo da moeda. Mas a expectativa é que a aprovação vai ficar para 2021. Já a forte piora fiscal brasileira é fonte de preocupação e não permite manter muito otimismo com o câmbio, alerta Hurtado. Ele prevê que o dólar vai ficar acima de R$ 5,00 ao menos até o quarto trimestre de 2021. Neste terceiro trimestre, a moeda americana deve ficar ao redor de R$ 5,30. Para a reunião de política monetária do Banco Central na semana que vem, ele espera corte de 0,25 ponto porcentual na taxa básica, a Selic.

Por conta do aumento do endividamento público, que encosta em 100% do Produto Interno Bruto (PIB), o Bank of America alerta que o Brasil está entre os três mercados emergentes mais vulneráveis este ano, junto com África do Sul e Turquia. O banco americano também não vê o dólar caindo abaixo de R$ 5,00 no futuro próximo. A previsão é de R$ 5,20 em dezembro e R$ 5,00 ao final de 2021.

Ibovespa

Com desempenho negativo na Europa e ao final positivo nos EUA, a moderada cautela no exterior contribuiu para que o Ibovespa, desde mais cedo na sessão, passasse por realização de lucros em fim de mês, tendo saído da faixa de 95 mil no encerramento de junho para a de quase 103 mil no de julho, chegando à marca de 105 mil nos dois fechamentos anteriores ao desta sexta-feira, renovando assim as máximas desde 4 de março. Hoje, fechou em baixa de 2,00%, aos 102.912,24 pontos, acumulando leve ganho de 0,52% na semana, após perda bem semelhante, de 0,49%, no intervalo anterior.

Na virada da primeira para a segunda quinzena do mês, o índice da B3 se firmou na faixa de seis dígitos, reconquistada pela primeira vez desde o início de março durante a sessão de 9 de julho e no fechamento do dia seguinte. Assim, em julho, o índice fecha com ganho de 8,27% um pouco abaixo dos observados nos dois meses anteriores (8,76% em junho e 8,57% em maio). O desempenho de julho foi o melhor para o mês desde 2018 (+8,88%).

Na mínima de hoje, por volta de 15h15, o índice apontava perda de 2,25%, aos 102.642,04 pontos, saindo de máxima pela manhã, em terreno positivo, aos 105.462,13, quando avançava em torno de 454 pontos na sessão. Anteontem, os ganhos do Ibovespa em julho chegavam a 11,10%, passando a 10,47% no fechamento de quinta-feira, ambos superando os 10,25% acumulados em abril, o primeiro e até aqui melhor mês de recuperação desde o tombo de 29,90% em março. O giro financeiro de hoje totalizou R$ 34,7 bilhões e o índice acumula agora perda de 11,01% no ano.

O movimento desta sexta-feira foi visto como ajuste natural de fim de período, com o desempenho tímido do exterior favorecendo a realização de lucros nesta última sessão de julho, mês em que os ganhos acumulados em Nova Iorque ficaram entre 2,39% (Dow Jones) e 6,77% (Nasdaq). As ações de commodities e bancos pesaram no desempenho do Ibovespa nesta última sessão, com perdas acima de 2% para Petrobras (PN -2,72% e ON -2,66%), apesar do balanço trimestral relativamente positivo, e entre 3% e 4% para o setor de bancos, com Bradesco PN à frente (-4,14%).

O ajuste negativo foi bem distribuído na sessão, em que poucas ações conseguiram mostrar alta no fim do dia - destaque para Cielo (+10,95%), Ecorodovias (+6,92%) e TIM (+6,42%), na ponta do Ibovespa nesta sexta-feira. No lado oposto, Cogna caiu 12,47%, no primeiro dia de negociação da subsidiária Vasta na Nasdaq, seguida por Ambev (-4,47%) e Embraer (-4,28%).

"Ao fim, o dia em Nova York acabou se mostrando positivo, especialmente para tecnologia, enquanto o Dow Jones refletia mais cedo o balanço da Chevron, que segurou Petrobras um pouco aqui - os números da própria Petrobras vieram em parte bons, em parte nem tanto. Seguimos muito atados ao exterior, na falta de novidades por aqui", diz Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença. Ele antecipa volatilidade para agosto, com a aproximação da eleição americana, que tende a elevar a fervura na relação EUA-China, na medida em que o presidente Donald Trump, atrás do democrata Joe Biden nas pesquisas - e que opta por campanha muito discreta, sem movimentos em falso -, tem escolhido os chineses como antagonistas.

Mesmo aparado nesta última sessão de julho, o desempenho acumulado pelo Ibovespa desde 31 de março é bem significativo, com recuperação de 40,93%, encerrando a série abril-julho acima da sequência positiva de quatro meses entre fevereiro e maio de 2009, quando o Ibovespa teve avanço de 39,32% - então, em nível de pontuação bem inferior ao atual, entre 38.183 e 53.197 pontos. Agora, a performance do Ibovespa desde abril até o fechamento de julho passa a ser a melhor desde o agregado de 46,54% entre setembro e dezembro de 2003, segundo o AE Dados.

Em dólar, o Ibovespa neste fim de julho ficou em 19.726,32, ante 17.472,85 pontos no encerramento do mês anterior e a 16.370,89 no fechamento de maio, que já era uma leitura mais apreciada do que a de abril e março. Em julho, o dólar caiu 4,03%, contraposto a um avanço de 8,27% para o Ibovespa no mês. No fim de janeiro, o Ibovespa dolarizado estava em 26.548,55, passando a 23.260,37 pontos no encerramento de fevereiro e a 14.051,44 no de março.

Juros

Os juros terminaram a última sessão do mês entre a estabilidade nos contratos de curto e médio prazos e viés de baixa nos vencimentos longos. Assim, houve perda adicional de inclinação na curva, movimento que foi a tônica de julho, mesmo com o crescimento das apostas de mais corte da Selic nas próximas reuniões do Copom e com o quadro fiscal negativo.

A evolução da agenda de reformas e o clima político mais ameno conseguiram ancorar as taxas ao longo do período, a despeito ainda do cenário externo de cautela com o avanço da Covid-19 e seus impactos nas economias e riscos geopolíticos nas relações entre a China e Estados Unidos.

E, nesta sexta-feira, justamente graças à percepção melhor da situação doméstica, o mercado de juros se descolou do movimento de risk off que pautou os demais ativos e que penalizou moedas de economias emergentes incluindo o real.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou na mínima de 1,905% (mínima), de 1,908% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2022 passou de 2,631% para 2,65%. A do DI para janeiro de 2023 fechou estável em 3,65% e a do DI para janeiro de 2027 caiu de 6,113% para 6,07%.

Com o forte recuo das taxas ontem, principalmente na ponta longa, a expectativa era de que pudesse haver alguma abertura hoje diante do mau humor externo. O estrategista-chefe da CA Indosuez Brasil, Vladimir Caramaschi, afirma que no geral, o investidor está preocupado com o ritmo da retomada das economias após a pandamia, na medida em que o consumidor deverá seguir com cautela nos gastos. "Mas os juros têm chamado a atenção. Apesar da questão fiscal, a curva tem desinclinado com o mercado acreditando que não haverá descontrole fiscal. Se essa percepção estiver correta, devemos ver ajustes também nos demais ativos", afirmou.

Os sinais de pressão para mudança da regra do teto dos gastos, por ora, não chegam a assustar. "Acho difícil haver maioria para derrubar", disse Caramaschi, para quem, na medida em que as discussões sobre as reformas, tanto a tributária, quanto em temas como o marco do gás e independência do Banco Central avançarem, as chances de alteração se reduzem.


As taxas curtas pouco oscilaram, com o mercado já à espera do corte de 0,25 ponto porcentual da Selic na próxima semana, sendo que parte dos investidores acredita também numa nova flexibilização em setembro, aposta que pode ou não crescer a depender da sinalização do comunicado da quarta-feira. Para os economistas da MCM Consultores, é improvável que o Copom indique ser considerável a chance de um novo corte na reunião seguinte. "Em linha com o que aventava em junho, o presidente do Banco Central tem se mostrado positivamente surpreso com a velocidade de recuperação da economia e otimista com as perspectivas para os próximos meses", disseram, em relatório.