Economia

Desempenho é desigual na indústria

Há sinais de recuperação, mas resultados são sustentados por alguns ramos enquanto outros perdem força

Alimentação é um dos destaques, mas maioria de segmentos mostra retração
Alimentação é um dos destaques, mas maioria de segmentos mostra retração Foto : Freepik / CP

A produção industrial brasileira iniciou 2026 com sinais de recuperação, ainda que de forma desigual entre setores e regiões. Em fevereiro a indústria nacional cresceu 0,9%, conforme dados do IBGE, com resultados positivos em 11 de 15 locais pesquisados. Entre os destaques, o Rio Grande do Sul registrou alta de 6,7% na comparação com janeiro, interrompendo dois meses consecutivos de queda. O resultado colocou o Estado entre as principais influências no desempenho nacional do período, ao lado do Espírito Santo. Entretanto, apesar da melhora no mês, os indicadores acumulados apontam cenário de retração. No primeiro bimestre a produção industrial brasileira caiu 0,2%. No Rio Grande do Sul o Índice de Desempenho Industrial (IDI-RS) divulgado pela Federação das Indústrias do RS (Fiergs) recuou 6,8%. Na comparação com fevereiro de 2025 também há declínio de 4,6%, pior resultado para o mês desde 2015. Ainda assim, alguns indicadores de curto prazo mostram avanço. O faturamento real da indústria gaúcha cresceu 4,3% em fevereiro enquanto as horas trabalhadas na produção aumentaram 2,6%.

O uso da capacidade instalada atingiu 78,9%, patamar que indica possibilidade de ampliação da produção sem necessidade imediata de novos investimentos. Em contrapartida, os dados do mercado de trabalho seguem em retração. O número de empregados na indústria caiu 0,3% e a massa salarial declinou 0,4% no mês. O movimento indica que o aumento da produção tem ocorrido sem expansão do emprego, possivelmente associado a ganhos de produtividade ou à reorganização dos processos produtivos.

‘CENÁRIOS LIMITADOS’

Para o presidente da Fiergs, Claudio Bier, o cenário ainda impõe limites. “É um primeiro passo para retomarmos uma atividade mais consistente, mas fatores externos e internos seguem a influenciar o desempenho da indústria”, afirma. As compras industriais caíram 22,5% no acumulado do ano, indicando redução na aquisição de insumo e matéria-prima. O dado sugere que as empresas projetam ritmo mais moderado de produção e investimentos.

Enquanto a indústria apresenta recuperação gradual, os dados de abertura de empresas indicam expansão no número de pequenos negócios. No primeiro trimestre foram constituídas 91.672 empresas no país. A maior parte dessas aberturas é de microempreendedores individuais, os MEIs, que somaram 71.824 registros. Empresas do tipo “Ltda” (limitada) somam 18.451, enquanto empresários individuais são 1.353. No mesmo intervalo 54.746 empresas foram encerradas, mantendo saldo positivo de novos empreendimentos. Os números indicam continuidade no avanço da base empresarial com predominância de negócios de menor porte.

PERFIS

Os dados mostram ainda mudança de perfis ao longo do tempo. Em 2013 o país registrou pouco mais de 90 mil aberturas de empresas. Em 2025 esse número chegou a 287.112, informa a Junta Comercial (Jucis-RS). Em 2026, no primeiro trimestre, já se observa volume próximo ao apurado há uma década em 12 meses. Além disso, registros de falências e recuperações judiciais permaneceram em níveis reduzidos no início do ano, com 15 falências decretadas e 13 recuperações deferidas no primeiro trimestre. O desempenho ao longo dos próximos meses dependerá de evolução da demanda interna, condições do mercado externo e das decisões de investimento. Por ora os dados apontam para recuperação gradual sustentada por poucos setores e pela expansão de pequenos empreendimentos.

NÚMEROS

  • O desempenho da indústria em 2026 tem sido sustentado por um grupo restrito de setores. O segmento de alimentos permanece como principal destaque, com crescimento de 4,8% no primeiro bimestre no RS. Na indústria de transformação a alta foi de 5,7%, segundo o IBGE.
  • O mercado externo contribui no resultado. Em fevereiro a exportação de alimentos somou 430 milhões de dólares, alta de 2,5% ante igual período de 2025.
  • Produtos como arroz, carnes suínas e carne bovina tiveram participação relevante no crescimento. Outros itens apresentaram desempenho mais moderado.
  • A indústria de móveis cresceu 2,7%, mantendo resultado positivo no início do ano.
  • Por outro lado, setores ligados ao investimento e à produção de bens duráveis registraram retração significativa. A produção de veículos automotores caiu 17,7% no primeiro bimestre.
  • Máquinas e equipamentos recuaram 11,7%, sinalizando redução nos investimentos produtivos.
  • Também apresentaram queda os segmentos de couro e calçados (-4,7%) e de produtos químicos e derivados de petróleo (-6,7%).
  • No total, 13 entre 16 segmentos analisados apresentaram retração no período pesquisado, o que reforça a tendência de concentração do crescimento em poucas atividades.

*Sob supervisão da jornalista Simone Schmidt

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